A Princesa encantada

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A Princesa encantada
por António Feijó


A Alfredo da Cunha


Formosa Princesa dormia ha cem annos;
Dormia ou sonhava... Ninguem o sabia.
Passavam-se os dias, passavam-se os annos,
E a linda Princesa dormia, dormia,
Dormia ha cem annos!

Em torno, sentadas, dormiam as Damas,
Cobertas de joias, cobertas de lhamas;

Com formas e aspectos de finas imagens,
Esbeltos e loiros, dormiam os pagens.

E ás portas de bronze, por terra halabardas,
Num somno profundo dormiam os guardas.

Lá fóra, na sombra dos parques discretos,
Nem aves gorgeiam, nem zumbem insectos.

As arvores sonham, na sombra dos poentes,
Immoveis, á beira dos lagos dormentes.

E as fontes que d'antes sonoras gemiam,
Somnambulas mudas, apenas corriam...

Um dia, de longe, de terras distantes,
Com pagens, arautos, donzeis, passavantes,

Bandeiras ao vento, clarins, atabales,
Echoando a distancia por montes e valles,

— Um principe, herdeiro d'um throno potente,
Com olhos suaves d'aurora nascente,

Excelso e formoso, magnanimo e moço,
— Correndo aventuras, num grande alvoroço,

Chegou ao Castello, que ha tanto dormia,
Como uma alvorada, prenuncia do dia...

E ao ver a princesa, sentada em seu throno,
N'aquelle profundo, extactico somno,

Tomado d'estranha, indizivel surpresa,
Na boca entreaberta da linda Princesa,

Tremendo e sorrindo, seu labio collou-se
N'um beijo, que ao labio a alma lhe trouxe.

Accorda a Princesa; despertam as Damas,
As faces ardentes, os olhos em chamas.

Despertam os Pagens, nos seus escabellos,
Com halos de fogo nos loiros cabellos.

Accordam os guardas; e, tudo desperto,
A vida renasce no parque deserto.

Suspiram as fontes; gorgeiam as aves,
Das áleas profundas nas sombras suaves.

As arvores tremem, no ar transparente,
Á brisa que sopra, como halito ardente.

Nas torres, os sinos repicam de festa;
O povo em choreias enchia a floresta...

E a linda Princesa, seus olhos fitando
No Principe excelso, sorrindo e còrando,

— «Sonhava comtigo...» Porque é que tardaste?
Mas já nesse instante, formando contraste,

Quando isto dizia, erguendo-se a medo,
A voz parecia trahir o segredo

De quem, num relance, talvez lamentasse
Que sonho tão lindo tão cedo acabasse!...

A linda Princesa sonhava ha cem annos,
E fóra do Sonho só há desenganos...