A Queda de Abraão

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A Queda de Abraão
por Humberto de Campos
Conto publicado em Grãos de Mostarda


Abraão Machalon, filho de Samuel Machalon, era um tipo legítimo da sua raça. O povo de Israel jamais tivera varão mais apegado às tradições; e foi por isso, talvez, que Jeová, na sua alta sabedoria, que lhe deu por esposa a Raquel, filha mais velha de Jacó Benoliel.

No dia da união, após a solenidade, resolveu o casal Machalon festejar esse acontecimento indo ao Municipal, onde se realizava, naquela noite, um espetáculo da Companhia Lírica.

Na bilheteria, Abraão indagou:

— Quanto custa uma cadeira, cavalheiro?

— Vinte mil réis, em baixo, na platéia, — informou, seco, o bilheteiro.

Abraão pensou um instante, e insistiu:

— Cada cadeira dá para duas pessoas?

— Não, senhor; cada pessoa ocupa uma cadeira.

— E não há lugares mais baratos?

— Há, como não? Nas galerias, lá em cima. Cada galeria custa cinco mil réis.

Abraão meditou um instante, lembrando-se que não se casaria duas vezes, e que poderia, perfeitamente, fazer aquela loucura, gastando dez mil réis. Comprou, assim, duas galerias, e, meia hora depois, estava em cima, no "paraíso" do teatro, aplaudindo, ao lado de Raquel, a voz poderosa do tenor que cantava a "Tosca".

Pouco a pouco, foi o honrado descendente dos patriarcas tomando gosto pelo drama cantado. Aplaudia com prazer, com alma, com entusiasmo. E na sua exaltação, dobrava-se todo para a frente, em termo de virar pelo parapeito, e tombar lá em baixo, na platéia, espatifando-se no chão.

Olhos pregados na cena, Raquel sorria, beatificante. E sorria, deliciada, quando o marido, a aplaudir Cavaradossi no fim do segundo ato, se entusiasmou tanto, que pendeu para a frente, escapulindo da galeria, para rebentar o crânio lá embaixo, nas cadeiras. Por uma felicidade, porém, enganchou os pés nos frisos de um camarote de segunda ordem, ficando ali pendurado, a cabeça para baixo, o paletó cobrindo o pescoço.

O rebuliço no teatro foi enorme. Correrias, atropelos, gritos, palavras de terror. E no meio de tudo isso, só se ouvia a voz de Raquel, debruçada no parapeito:

— Abraão?... Abraão?... Não caias, Abraão!

E para animá-lo a salvar-se:

— Lá em baixo custa vinte mil réis, Abraão!