A Selva escura

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A Selva escura
por António Feijó


A João Chagas

Perdi-me no caminho solitario
D'uma floresta immensa e fria...
Medrosa ainda, a Noite lívida descia,
E o clarão do luar, como um pranto mortuário,
Pelas folhas das árvores corria.
No silencio da Noite, o silencio da Selva
Enchia-se de vozes enigmáticas...
E os meus pés vacillavam sobre a relva,
Entre as sombras das árvores extácticas.
Numa clareira funda, aguas dormentes,
Como um lago lunar, tremeluziam
Nas lágrimas de luz, altas e ardentes
Que das estrellas pálidas caíam.
Nem ruido de mar, folhas ou vento...
O mystério, porém, da Noite e da Floresta
Enchia de terror meu pensamento,
Como um sopro boreal que me gelava a testa.
Não sei se era visão, filha do Mêdo,
Se verdadeira apparição nocturna;
Mas da sombra profunda do arvoredo,
Que o luar tornava muito mais soturna,
Vinham surgindo mysteriosamente
Phantasmas espectraes que eu distinguia
Através do sudário transparente
Como o primeiro alvorecer do dia...
E por deante de mim todos passavam,
E olhavam-me e choravam...
De mágoa ou compaixão,--não sei dizê-lo;
Mas tudo o que aos meus olhos evocavam
Parecia-me um longo pesadelo...
Eram os Sonhos, as Chimeras mortas
Na minha morta Phantasia,
Que do vasto sepulcro abrindo as portas,
Passavam nessa funebre theoria...
Projectos, Intenções, Ideias, Planos,
— Illusões d'um passado esquecido e desfeito,
Na areia que rolou da ampulheta dos annos
E que um vento de morte espalhou no meu peito.
Era a Noiva feudal esquecida a scismar
Na pompa e no esplendor em que o Sonho a envolveu,
Trazendo-me nas mãos, todas brancas de luar,
Como um tropheu perdido o espadim de Romeu!
Illusões juvenis d'odaliscas e fadas,
Helena, Laura, Ignez, romanescas e bellas,
E tu, Willi immortal das florestas sagradas,
Loira d'olhos azues, como duas estrellas!
Era a Glória, mas já sem a tuba estridente,
Que ingenuamente ouvi pela amplidão vibrar;
Era a Ambição, captiva a sua asa fremente,
Que tão alto esvoaçou, entre as nuvens e o mar.
Era o Orgulho... o Poder... a Riqueza... loucuras,
Chimeras juvenis do meu abril risonho,
Borboletas azues, larvas escuras
Que deslisaram no meu sonho...
Todas essas visões, d'aspectos sobrehumanos,
Por deante de mim, lentas, passavam...
E olhavam-me e choravam,
Como espectros de longos desenganos
Que os meus olhos das trevas evocavam...
E olhavam-me e choravam,
Sumindo-se nas sombras da floresta,
Aos primeiros clarões da madrugada
Como um rumor de festa,
Despertavam, partindo em revoada,
As aves a cantar. O sol rompia
E as derradeiras névoas dissipava...
Tudo cantava e ria!
Só eu chorava... só eu chorava...
Só no meu coração não despontava o dia.
Só eu chorava... só eu chorava...
Só eu soffria...