A Tia Castigadeira

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A Tia Castigadeira
por Humberto de Campos
Conto publicado em Grãos de Mostarda


O Antoninho andava, apenas, pelos três anos, quando, com a moléstia da mãe, a pálida Dona Margrida, o pai, o dr. Marques Viana resolveu convidar, para tomar conta da casa e do menino, a sua cunhada Maria Carmem, que acabava de ficar viúva do engenheiro Belarmino Sampaio, falecido no Acre. A enfermidade da mme. Viana prometia ser longa, senão incurável. E como aquele "menáge" precisasse de quem o dirigisse, nada mais natural do que encarregar dessa missão a irmã da enferma, a qual, também, sem esse auxílio, ficaria exposta às maiores necessidades. Dois anos após essa nova organização doméstica, a doente não havia conseguido a menor melhora no seu estado. A paralisia que a atacara logo depois do parto, se não havia progredido a partir do terceiro ano, também nada havia diminuído. As pernas eram-lhe verdadeiros molambos, que a prendiam ao leito, de onde raramente saía, nos braços do marido e da irmã.

Foi por esse tempo, com cinco anos de moléstia, correspondentes à idade do pirralho, que o doente sofreu aquela emoção, maior que a morte, se lh'a dessem. Era um domingo à tarde, e os criados haviam saído. Cabelo cortadinho à inglesa, alpercatas sem meias, cantarolando baixinho, o menino arrumava uns tubos de madeira, procurando formar uma casa no tapete, junto à cadeira da enferma, quando notou que lhe faltavam algumas tábuas do brinquedo. Interrompendo a faina, sungando a calcinha curta, pé ante pé, afim de não despertar a mãe que cochilava, o Antoninho ergueu-se, e foi ao quarto da tia Carmem, que era o último, no fundo da casa. Distraído, com o pensamento nas tabuinhas que procurava e que deviam estar ali, onde brincara pela manhã, nem bateu, pedindo licença: empurrou a porta e foi entrando. Um grito naquela meia escuridão, foi o acolhimento que teve:

— Menino do "diacho"!...

E logo a tia, de um pulo, avançando sobre ele, pondo-lhe em baixo a calcinha, e aplicando-lhe nas nádegas, fortes, boas, estaladas, cinco palmadas, pelo desaforo de entrar no quarto sem bater, primeiro, na porta. Momentos depois, chegava o Antoninho no ponto de partida, a cabecinha entre os braços, sacudido pelos soluços, o rosto coberto de lágrimas:

— Ahn!... Ahn!... Ahn!... Ahnnn!... Ahn!... Ahn!... Ahnnn!...

— Que foi, meu filho? Que foi? — indagou Dona Margarida, bondosa, apertando-o de encontro ao peito.

— A ti... tia me... ba... teu!... — choramingava o pequeno, inconsolável. Ahn!... ahn!... ahn!... E eu acho... que el... la... ba... teu... tam... bém..., no... pa... pai... ahn!... ahn!... ahn!...

E sempre soluçando, a mão segurando a calcinha:

— Quando... eu... en... trei... ele... estava... também... com a calça... no chão!... Ahn!... ahn!... ahnnn!...