A Vila Maldita, Cidade de Deus

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A Vila Maldita, Cidade de Deus
por Gonçalves Dias
Publicado no livro Primeiros Cantos (1846).


Ao seu querido e afetuoso amigo
A. T. de Carvalho Leal

Peccata peccavit Jerusalem, et propter

ea instabilis facta est; omnes qui
glorificabant eam, spreverunt illam, quia
viderunt ignominiam ejus; ipsa autem
gemens conversa est retrorsum.

-- Lament


I
O imenso aposento a luz alaga
Com soberbo clarão,
E as mesas do banquete se devolvem
Pelo vasto salão;

E os instrumentos palpitantes soam
Frenética harmonia;
E o coro dos convivas se levanta
Pleno d'ébria alegria!

Ali se ostenta o nobre vicioso
Rebuçado em orgulho, - o rico infame,
Cheio de mesquinhez, - o envilecido,
Imundo pobre no seu manto involto
De misérias, torpeza e vilanias;
- A prostituta que alardeia os vícios,
Menosprezando a castidade e a honra,
Sem pejo, sem pudor, d'infâmia eivada.

E o livre ditirambo, a atroz blasfêmia,
Os cantos imorais, canções impudicas,
Gritos e orgia envolta em negro manto
De fumo e vinho, - os ares aturdiam;
E muito além, no meio d'alta noite,
Nos ecos, ruas, praças rebatiam.

II
Depois, ainda suja a boca, as faces,
D'imundo vomitar,
Com vacilante pé calcando a terra
Os viras levantar.

A larga porta despedia em turmas
A noturna coorte;
Ouvia-se depois por toda a parte
Gritos, horror de morte!

E ninguém vinha ao retinir de ferro,
Que assassinava;
Porque era dum valente o punhal nobre,
Que as leis ditava.

Outra vez a cair se emaranhavam
Da porta pelo umbral:
Tinham tintas de sangue a face, as vestes,
Em sangue tinto o punhal.

E vinha o sol manifestar horrores
Da noite derradeira;
E a morte vária revelava a fúria
Da turba carniceira.

E o sacrílego padre só vendia
O tum'lo por dinheiro;
Vendia a terra aos mortos insepultos,
O vil interesseiro!

Ou lá ficavam, como pasto aos corvos,
Por sobre a terra nua;
E ninguém de tal sorte se pesava,
Que ser podia a sua!

"E Deus maldisse a terra criminosa,
"Maldisse aos homens dela,
"Maldisse a cobardia dos escravos
"Dessa terra tão bela."

III
E a mortífera peste lutuosa
Do inferno rebentou,
E nas asas dos ventos pavorosa
Sobre todos passou.

E o mancebo que via esperançoso
Longa vida futura,
Doido sentiu quebrar-lhe as esperanças
Pedra de sepultura.

E a donzela tão linda que vivia
Confiada no amor,
Entre os braços da mãe provou bem cedo
Da morte o dissabor.

E o trêmulo ancião qu'inda esperava
Morrer assim
Como um fruto maduro destacado
D'árvore enfim,

Sentiu a morte esvoaçar-lhe em tomo,
Como um bulcão,
Que afronta o nauta quando avista a terra
Da salvação.

Era deserta a vila, a casa, o templo -
Ar de morte soprou!
Mas a casa dos vis nos seus delírios
Ébria continuou!

"E Deus maldisse a terra criminosa,
"Maldisse os homens dela,
"Maldisse a cobardia dos escravos
"Dessa terra tão bela."

IV
Eis o aço da guerra lampeja,
Do fogoso corcel o nitrido,
Eis o brônzeo canhão que rouqueja,
Eis da morte represso o gemido.

Já se aprestam guerreiros luzentes,
Já se enfreiam corcéis belicosos,
Já mancebos se partem contentes,
Augurando a vitória briosos.

Brilha a raiva nos olhos; - nas faces
O interno rancor podes ler;
Eia, avante! - clamaram os bravos,
Eia, avante! - ou vencer ou morrer!

Eia, avante! - briosos corramos
Na peleja o imigo bater;
Crua morte na espada levamos!
Eia, avante! - ou vencer ou morrer!

Eis o aço da guerra lampeja,
Do corcel belicoso o nitrido,
Eis o brônzeo canhão que rouqueja
E da morte represso o gemido.

V
E a selva vomitou homens sem conto
A voz do onipotente,
Como a neve hibernal que o sol derrete,
Engrossando a corrente.

E em redor dessa vila se estreitaram,
Cingidos d'armadura;
E a vila se doeu no íntimo seio
De tão acre amargura.

Mas os fortes bradaram: - Eia, avante!
Prontos a batalhar;
Mas o braço e valor ante os imigos
Se vieram quebrar.

E um ano inteiro sem cessar lutaram,
Cheios de bizarria,
Como dois crocodilos que brigassem
Dum rio a primazia!

E renderam-se enfim, mas de famintos.
De sequiosos;
Valentes lidadores foram eles,
Se não briosos.

VI
E o exército contrário entra rugindo
Na vila, que as suas portas lhe franqueia:
Rasteiro corre o incêndio e surdamente
O custoso edifício ataca e mina.
Eis que a chama roaz amostra as fendas
Das portas que se abrasam; descortina
O torvo olhar do vencedor - apenas -
Lá dentro o incêndio só, fora só trevas!
Urros de frenesi, de dor, de raiva
Escutam dos que, às súbitas colhidos,
Contra os muros em brasa se arremessam;
Dos que, perdido o tino, intentam loucos
Achar a salvação, e a morte encontram.
Lá dentro confusão, silêncio foral
São carrascos aqui, vítimas dentro,
Geme o travejamento, estrala a pedra,
Cresce horror sobre horror, desaba o teto,
E o fumo enegrecido se enovela
Co'o vértice sublime os céus roçando.
Como o vulcão que a lava arroja às nuvens,
Como ígnea coluna que da terra
Hiante rebentasse, - tal se eleva,
Tal sobe aos ares, tal se empina e cresce
A labareda portentosa; e baixa,
E desce à terra, c o edifício enrola,
E o sorve inteiro, qual se foram vagas
Que a dura rocha do alicerce abalam,
Que a enlaçam, como a preá, - e ao fundo pego
Levam, deixando e mar branco d'espuma.
No horror da noite, sibilando os ventos,
Línguas piramidais do atroz incêndio.
Fumosas pelas ruas estalando,
Tingem da cor do inferno a cor da noite,
Tingem da cor do sangue a cor do inferno!
- O ar são gritos, fumo o céu, e a terra fogo.

VII
E aqueles que inda sãos e imunes eram,
Os que a peste enjeitou,
Que fome e sede e privações sofreram...
A espada decepou.

E a donzela tremeu, da mãe nos braços
Não salva ainda,
Que incitava os prazeres do soldado
A face linda.

E o fido amante, que de a ver tão bela
Sentiu prazer,
Sente martírios porque a vê formosa
No seu morrer.

Coisa alguma escapou! - Já tudo é cinzas
Tudo destruição:
A coluna, o palácio, a casa, o templo,
O templo da oração!

Meninos, homens e mulheres, - todos
Já rojam sobre o pó;
Mas o Deus, o Deus bom já está vingado.
Por ela já sente dó.

E a vila d'outrora mais ruidosa,
Lá ressurgiu cidade;
Porque o Deus da justiça, o das armadas,
O Deus é de bondade.