A Viuvinha/VIII

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A Viuvinha
por José de Alencar


Jorge tomou as mãos de sua mulher e beijou-as.yfhhh

— Carolina!

— Meu amigo!

— Sabes o meu passado: já te contei todas as minhas loucuras e tu me perdoaste todas; preciso, porém, ainda do teu perdão para uma falta mais grave do que essas, para um crime talvez!

— Dize-me: esta falta faz que não me ames? perguntou a menina um pouco assustada.

— Ao contrário, faz que te ame ainda mais, se é possível! exclamou o moço.

— Então não é uma falta, respondeu ela, sorrindo.

— Quando souberes! murmurou o moço, talvez me acuses.

— Tu não pensas no que estás dizendo, Jorge! replicou a moça sentida.

— Escuta: se eu te pedir uma coisa, não me negarás?

— Pede e verás.

— Quero que me perdoes essa falta que tu ignoras!

— Causa-te prazer isto?

— Como tu não fazes. idéia! disse o moço com um acento profundo.

— Pois bem; estás perdoado.

— Não; não há de ser assim; de joelhos a teus pés.

E o moço ajoelhou-se diante de sua mulher.

— Criança! disse Carolina, sorrindo.

— Agora dize que me perdoas!

— Perdôo-te e amo-te! respondeu ela, cingindo-lhe o pescoço com os braços e apertando a sua cabeça contra o seio.

Jorge ergueu-se calmo e sossegado; porém ainda mais pálido.

Carolina deixou-se cair sobre a conversadeira; suas pálpebras cerravam-se a seu pesar; pouco depois tinha adormecido.

O moço tomou-a nos braços e deitou-a sobre o leito, fechando as alvas cortinas; depois foi sentar-se na conversadeira e colocou o seu relógio sobre uma banquinha de charão.

Assim, com a cabeça apoiada sobre a mão e os olhos fitos nas pequenas agulhas de aço que se moviam sobre o mostrador branco, passou duas horas.

Cada instante, cada oscilação, era um ano que fugia, um mundo de pensamentos que se abismava no passado.

Quando o ponteiro, devorando o último minuto, marcou quatro horas justas, ele ergueu-se.

Tirou do bolso uma carta volumosa e deitou-a sobre o consolo de mármore.

Abriu as cortinas do leito e contemplou Carolina, que dormia, sorrindo talvez à imagem dele, que em sonho lhe aparecia.

O moço inclinou-se e colheu com os lábios esse sorriso; era o seu beijo nupcial.

Tornou a fechar as cortinas e entrou na sala onde estivera a princípio, aí abriu uma janela e saltou no jardim.

Seguiu pela ladeira abaixo; a noite estava escura ainda; mas pouco faltava para amanhecer.

Debaixo da janela esclarecida do aposento de Carolina destacou-se um vulto que seguiu o moço a alguns passos de distância.

A pessoa, qualquer que ela fosse, não desejava ser conhecida; estava envolvida em uma capa escura e tinha o maior cuidado em abafar o som de suas pisadas.

Jorge ganhou a rua da Lapa, seguiu pelo Passeio Público e dirigiu-se à praia de Santa Luzia.

O dia vinha começando a raiar; e o moço, que temia ver esvaecerem-se as sombras da noite antes de ter chegado ao lugar para onde se dirigia, apressava o passo.

O vulto o acompanhava sempre a alguma distância, tendo o cuidado de caminhar do lado do morro, onde a escuridão era mais intensa.

Quando Jorge chegou ao lugar onde hoje se eleva o hospital da Misericórdia, esse lindo edifício que o Rio de Janeiro deve a José Clemente Pereira, o horizonte se esclarecia com os primeiros clarões da alvorada.

Um espetáculo majestoso se apresentava diante de seus olhos; aos toques da luz do sol parecia que essa baía magnífica se elevava do seio da natureza com os seus rochedos de granito, as suas encostas graciosas, as suas águas límpidas e serenas.

O moço deu apenas um olhar a esse belo panorama e continuou o seu caminho.

O vulto que o seguia tinha desaparecido.