A Viuvinha/XI

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A Viuvinha
por José de Alencar


Seguiram pela rua do Ouvidor.

— Não sei que interesse, dizia o nosso negociante, continuando a conversa; não sei que interesse tens tu, Carlos, em resgatares aquela letra!

— É uma especulação que algum dia te explicarei, Henrique, e na qual espero ganhar.

— É possível, respondeu o outro, mas permitirás que duvide.

— Por quê?

— Ora, é boa! uma letra de um homem já falecido, de uma firma falida! Aposto que não sabias disto?

— Não; não sabia! disse Carlos, sorrindo amargamente.

— Pois então deixa contar-te a história.

— Em outra ocasião.

— Por que não agora? Reduzo-te isto a duas palavras, visto que não estás disposto a escutar-me.

— Mas...

— Trata-se de um negociante rico, que faleceu, deixando ao filho coisa de 300 contos de réis e algumas dívidas, na importância de um terço dessa quantia. O filho gastou o dinheiro e deixou que protestassem as letras aceitas pelo pai, o qual, apesar de morto, foi declarado falido.

Enquanto seu companheiro falava, Carlos se tinha tornado lívido; conhecia-se que uma emoção poderosa o dominava, apesar do esforço de vontade com que procurava reprimi-la.

— E esse filho... o que fez? perguntou com voz trêmula,

— O sujeito, depois de ter-se divertido à larga, quando se viu pobre e desonrado, enfastiou-se da vida e fez viagem para o outro mundo.

— Suicidou-se?

— É verdade; mas o interessante foi que na véspera de sua morte se tinha casado com uma menina lindíssima.

— Conheces?

— Ora! quem não conhece a Viuvinha no Rio de Janeiro? É a moça mais linda, a mais espirituosa e a mais “"coquette"” dos nossos salões.

A conversa foi interrompida, os dois amigos caminharam por algum tempo sem trocarem palavra.

Carlos ficara triste e pensativo; o seu rosto tinha neste momento uma expressão de dor e resignação que revelava um sofrimento profundo, mas habitual.

Quanto ao seu companheiro, fumava o seu charuto, olhando para todas as vidraças de lojas por onde passava e apreciando essa exposição constante de objetos de gosto, que já naquele tempo tornava a rua do Ouvidor o passeio habitual dos curiosos.

De repente soltou uma exclamação e apertou com força o braço de seu amigo.

— O que é? perguntou este. — Nada mais a propósito! Ainda há pouco falamos dela, e ei-la!

— Onde? exclamou Carlos, estremecendo.

— Não a viste entrar na loja do Wallerstein?

— Não; não vi ninguém.

— Pois verás.

Com efeito, uma moça vestida de preto, acompanhada por uma senhora já idosa, havia entrado na loja do Wallerstein.

A velha nada tinha de notável e que a distinguisse de uma outra qualquer velha; era uma boa senhora que fora jovem e bonita e que não sabia o que fazer do tempo que outrora levava a enfeitar-se.

A moça, porém, era um tipo de beleza e de elegância. As linhas do seu rosto tinham uma pureza admirável.

Nos seus olhos negros e brilhantes radiava o espírito da mulher cheio de vivacidade e de malícia. Nos seus lábios mimosos brincava um sorriso divino e fascinador.

Os cabelos castanhos, de reflexos dourados, coroavam sua fronte como um diadema, do qual se escapavam dois anéis, que deslizavam pelo seu colo soberbo.

Trajava um vestido de cetim preto, simples e elegante; não tinha um ornato, nem uma flor, nem outro enfeite, que não fosse dessa cor triste, que ela parecia amar.

Essa extrema simplicidade era o maior realce da sua beleza deslumbrante. Uma jóia, uma flor, um laço de fita, em vez de enfeitá-la, ocultariam uma das mil graças e mil perfeições que a natureza se esmerara em criar nela.

Os dois moços pararam à porta do Wallerstein; enquanto seu amigo olhava a moça com o desplante dos homens do tom, Carlos, através da vidraça, contemplava com um sentimento inexprimível aquela graciosa aparição.

Os caixeiros do Wallerstein desdobraram sobre o balcão todas as suas mais ricas e mais delicadas novidades, todas as invenções do luxo parisiense, verdadeiro demônio tentador das mulheres.

A cada um desses objetos de gosto, a cada uma das mimosas fantasias da moda, ela sorria com desdém e nem sequer as tocava com a sua alva mãozinha, delicada como a de uma menina.

As fascinações do luxo, as bonitas palavras dos caixeiros e as instâncias de sua mãe, tudo foi baldado. Ela recusou tudo e contentou-se com um simples vestido preto e algumas rendas da mesma cor, como se estivesse de luto, ou se preparasse para as festas da Semana Santa.

— Assim, depois de cinco anos, disse-lhe sua mãe em voz baixa, persistes em conservar este luto constante.

A Viuvinha sorriu.

— Não é luto, minha mãe: é gosto. Tenho paixão por esta cor; parece-me que ela veste melhor que as outras.

— Não digas isto, Carolina; pois o azul desta seda não te assenta perfeitamente?

— Já gostei do azul; hoje o aborreço! É uma cor sem significação, uma cor morta.

— E o preto?

— Oh! O preto é alegre!

— Alegre! exclamou um caixeiro, admirado dessa opinião original em matéria de cor.

— Eu pelo menos o acho, replicou a moça, tomando de repente um ar sério: é a cor que me sorri.

Esta conversa durou ainda alguns minutos.

Poucos instantes depois, as duas senhoras saíram e o carro que as esperava à porta desapareceu no fim da rua.

Carlos despediu-se do seu companheiro.

Então amanhã sem falta!

— Ah! Ainda insistes no negócio?

— Mais do que nunca!

— Bem. Já que assim o queres...

— Posso contar contigo?

— Como sempre.

— Obrigado.

Henrique continuou a arruar, fazendo horas para o jantar.

Carlos dobrou a rua dos Ourives e dirigiu-se a casa. Morava em um pequeno sótão de segundo andar no fim da rua da Misericórdia.