A alma das cousas

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A alma das cousas
por Luís Delfino
Publicada em Rosas Negras.

A Osório Duque Estrada

O rio, a pedra, a sombra, a relva, o tronco, o arbusto
Pensam. Uiva, convulsa a selva, no arvoredo,
Quando, em trapos de noite embrulhado, um vetusto
Monstro de luz, num beijo, a fecunda em segredo.

Há caras onde existe a contração do medo;
Decapitado, e em pé, freme um torso robusto:
Choram, aí pelo chão, cabeças de penedo...
Coxos deuses de rocha ao val descem a custo.
 
Vento mau, barbas cor de oiro velho, arrebata,
— Liquens de um seixo — a um monge esgrouviado e ossudo,
Que eternamente rosna uma injúria insensata...

Enche a cólera a voz das cousas... Não me iludo:
Ouço a respiração asmática da mata...
Se Deus não desse a Dor, dera acaso Alma a tudo?!...