A costureira, e o pintasilgo morto

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A costureira, e o pintasilgo morto
por Alphonse de Lamartine, traduzido por Alexandre Herculano
Poema originalmente publicado no jornal O Panorama, em 30 de dezembro de 1837, sendo posteriormente agrupado em Poesias (1850).

       Tu cujas azas tremulas
       O meu olhar tornava;
       Cujo trinado harmonico
       Meus dias alegrava,
       Ai, já não ouves!―Chamo-te,
       E é vão este chamar!
       Chegou a estação gelida;
       Foi para te matar.

Nunca me has-de esquecer! Por bem seis annos,
       Companheira leal
       Tu me foste, avesinha;
Meiga entre as meigas, desprezando os campos,
Deslembrada da mãe, que, á noite, aninha
       No movel cannavial.

A ti, affeita a mim, affiz-me em breve.
       Meu unico recreio
       Era brincar comtigo.
Ao veres-me encerrar no pobre alvergue
Gorgeiavas, e o tedio o canto amigo
       Volvia em brando enleio.

Meu amor te suppria a liberdade;
       Meus passos traduzias,
       Meu gesto, meu falar;
Repetias-me o nome em teus modilhos;
       Punhas-te a chilrear
       Quando sorrir me vias.

Oh, que par! Que viver sereno e sancto!
       Estavamos tão bem!
       Nosso parco alimento
Com a ponta da agulha eu mourejava,
E dizia scismando:―o meu sustento
       É o delle tambem.»
Sementes varias dava-te co' a alpista,
       E, qual ramalhetinho
       Feito na orla do prado,
Á 'splendida gaiola atar me vias,
Para debique teu, de herva um punhado,

       De alface um tenro olhinho....
       Se ao menos fosse licito
       Saberes que pranteio!..
       Ai, foi em dia identico,
       Que teu adejar veio
       Fazer brilhar o jubilo
       Neste triste aposento,
       Onde em saudosa magua,
       Sósinha te lamento!