A enchente

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A enchente
por Fagundes Varela
Poema publicado em Noturnas.


Era alta noite. Caudaloso e tredo
Entre barrancos espumava o rio,
Densos negrumes pelo céu rolavam,
Rugia o vento no palmar sombrio.
Triste, batido pelas águas torvas
Girava o barco na caudal corrente,
Lutava o remador — e ao lado dele
Uma virgem dizia tristemente:

Como ao rijo soprar das ventanias
Os mortos bóiam sobre as águas frias!

E são jovens, bem jovens! na cabana
Dormiam calmos sem pensar na sorte;
A enchente veio, e no agitar infrene
De um sono meigo os conduziu à morte!
A f'licidade é um sonho nebuloso,...
A vida neste mundo é sempre assim,
Do gozo em meio a veladora eterna
Nos arranca da mesa do festim!

Como ao rijo soprar das ventanias
Os mortos bóiam sobre as águas frias!


— Rema, rema, barqueiro; olha — lá em baixo
À luz vermelha do fuzil que passa,
Não ves o vulto de um rochedo escuro
Que a correnteza estrepitando abraça?
— Oh se o vejo, senhora; eu bem o vejo!
Diz o barqueiro com sinistra voz;
Pedi à Virgem que os perigos vela
Que tenha ao menos compaixão de nós!

Como ao rijo soprar das ventanias
Os mortos bóiam sobre as águas frias!

Eis dentre as vagas de caligem densa
Vem macilenta se mostrando a lua,
Como à luz dela a natureza é morta,
Como a planície é devastada e nua!
Perto, tão perto se levanta a margem
Onde fagueira a salvação sorri,
E nós rolamos, e rolamos sempre
E não podemos aportar ali !

Como ao rijo soprar das ventanias
Os mortos bóiam sobre as águas frias!

Duro, insofrido o vendaval soergue
Da onda a face em convulsão febril;
— Barqueiro, alento! e chegando em terra,
Hei de cobrir-te de riquezas mil.

Porém no dorso do dragão das águas
Lutava o barco — mas lutava em vão,
E a pobre moça desvairada em prantos
Pedia à Virgem que lhe desse a mão!

Como ao rijo soprar das ventanias
Os mortos bóiam sobre as águas frias!

— Ouve, barqueiro, que rugido é esse
Profundo e surdo que lá em baixo soa?
Parece o ronco de um trovão medonho
Que dos abismos pelo seio ecoa! —
Oh!. 'stou perdido ! ... abandonando os remos
Clama o infeliz a delirar de medo,
Oh é a morte que nos chama, horrível,
No fundo escuro de feral rochedo!

Como ao rijo soprar das ventanias
Os mortos bóiam sobre as águas frias!

Ia o batel. Ao sorvedouro imenso
Era impossível se esquivar então,
Dentro sentado — o remador chorava,
E a donzela dizia uma oração.
Já diante deles entre véus de espuma
Treda — a voragem com furor rugia,
E uma coluna de ligeiro fumo
Do centro escuro para o céu subia.

Como ao rijo soprar das ventanias
Os mortos bóiam sobre as águas frias!


Súbito o barco volteou rangendo,
Tremeu em ânsia — se estorceu, recuou, —
Deu a virgem um grito — outro o barqueiro
E o lenho na voragem se afundou!
Tudo findou-se. O vendaval sibila
Correndo infrene na planície nua,
O rio espuma e nas revoltas ondas
Descem dois corpos ao clarão da lua.

Como ao rijo soprar das ventanias
Os mortos bóiam sobre as águas frias!

Setembro — 1861.