A honestidade de Etelvina

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A honestidade de Etelvina, amante...



— Por aqui? Temos de certo amor novo?

— Nem velho, meu caro amigo. Vim assistir ao espectáculo, como qualquer mortal. Sem outras intenções...

Era à porta de um teatro cheio de luzes e de gente. O cavalheiro que primeiro falara parecia contente; o outro era um dêsses rapazes em cuja face lemos o estouvamento, a estroinice, a violência impulsiva e que, apesar de tal genio, a viver em paixões, conflitos, desesperos e pândegas, conservam muitos anos depois de homens o mesmo ar de rapazes. A natureza, mantendo essa ilusão, atenua talvez o chocante efeito que tais temperamentos produziriam, se o físico não correspondesse à leviandade barulhenta das opiniões.

— Vem assistir apenas ao espectáculo? Ainda bem. Assistiremos juntos. A melhor maneira de ouvir uma peça sempre foi conversar durante os actos e falar das actrizes nos intervalos.

— Claro!

Mas nesse momento, o rapaz recuou e escondeu-se, positivamente escondeu-se por trás de um grupo de senhoras, que ameaçava a entrada. O cavalheiro voltou-se surprêso e viu que passava a correr a figurinha grácil da pequena actriz Etelvina Santos. Estava de vermelho, de aparência menina, ainda mais menina, — o seu poder definitivo sôbre as platéas de cá e de alêm mar. Na face fina como modelada em porcelana, luziam-lhe os olhos entre sonsos e maliciosos; e ela toda parecia um « biscuit » antigo de Sèvres. Passou, aliás, numa rajada. A criada que a seguia, era levada peia mesma ventania de pressa.

— Mentiroso!

— Porquê?

— Éste Gastão da Fonseca! Então não acabo de vê-lo esconder-se à passagem de Etelvina? Vão recomeçar os escandalosos amores? Compreendo que voltou a paixão!

— Não é verdade. Recuei para evitar cumprimentos.

— Zanga ou mágoa?

— Mal estar apenas. Essa mulher é indecifrável.

— Como todas as mulheres!

— A Etelvina mais que as outras. Vivi com ela dois anos, e, quando a deixei, conhecia-a tanto como a primeira vez em que a vi. A esfinge de Gezireon seria mais confidencial. Foi talvez por isso que ainda tentei uma nova análise. Depois abstenho-me. É desconcertante!

— Francamente...

— Faz outra idéa de Etelvina?

— Meu caro Gastão. Conheço Etelvina há dez anos. Já nesse tempo ela parecia menina e tinha nove filhos. Os jornais comparavam-na a um « biscuit » e Etelvina cantava como um carriço, e fazia-se incompreendida dos apaixonados... Conheço-a! Você não pretende positivamente voltar a amá-la? Pois bem. A minha opinião é que Etelvina não passa de uma idiotinha, cheia de pretenções...

Gastão da Fonseca riu estrepitosamente.

— Era o que eu pensava, mas com êrro! Até hoje não sei o que ela é! Se lhe contasse a nossa vida ficaria como eu...

— Conte, então.

— Perdemos o acto...

— Temos ainda quási um quarto de hora.

Gastão da Fonseca parecia desejoso de contar, porque sem transição continuou.

— Lembra-se do nosso namôro ? Começou aqui no Rio. Mandava-lhe flôres, ia à caixa, beijava-lhe a mão, que tremia. Etelvina estava com o ensaiador, um sujeito de nome Eusébio que também escrevia peças. As informações davam-na sempre fiel aos amantes. Era tão fiel, tão honesta que não só ninguêm se lembrava dos motivos porque mudara várias vezes de cavalheiro como até creio bem ninguêm mais se lembrava dêsses homens. Etelvina era fiel, era honesta, perante os amantes que de secundários passavam a ser apenas o Amante, o mesmo, o geral. Não podia haver mais discussões! Vi que, no meu caso, Etelvina continuaria fiel ao Eusébio. De facto. A companhia partiu, sem que dela obtivesse nem um beijo. Quási esqueci o comêço da aventura, pôsto conservasse pela Etelvina uma ponta de despeito raivoso...

— O Eusébio estava destinado a apanhar de ti algumas bengaladas!

— Não. Nem pensava no Eusebio, que me dera a impressão apagada de um boneco ou de um aio. Mas certa vez a viajar pela Europa, fiquei algum tempo em Lisboa sem relações, — de modo que freqùentava assiduamente os cómicos conhecidos do Rio. Num dos teatros, onde a miúde entrava, era Etelvina quási estrêla. Os cómicos portugueses são muito amáveis para os brasileiros em Lisboa. Abusei da minha importância. Insensivelmente recomecei a fazer a côrte a Etelvina. E fôsse por não ter o que fazer, fôsse por aumentar o capricho, o certo é que fui alucinante. Estava onde ela estava, mandava-lhe flôres e mimos desde pela manhã, escrevia-lhe cartas. Espantei mesmo a bengaladas dois apaixonados. Etelvina, entretanto, teimava em fingir tranqùila indiferença. Um dia o Eusébio ensaiador. atacado de gripe não foi ao ensaio. Aproximei-me e disse-lhe quási no fim — « Espero-a à esquina, num coupé fechado ». — « O sr. está doido! » — « Tanto não estou que tenho a certeza de irmos tomar chá ao Tavares. » — « Ao Tavares? » — « Tenho um gabinete reservado. Entramos pela porta dos fundos. Ninguém nos verá ». — « Não vou! » — « Lembre-se de que não responderei pelos meus actos, se não vier! » — « Que fará? » — « Tudo! Até já! » Saí. Aluguei um coupé. Mandei arrear as cortinas. E fiquei a fumar dentro do coupé, certo de que fazia uma tolice e que ela não viria. De facto, a principio assim foi. Passaram artistas, coristas, o velho primeiro cómico, que saía sempre por último, alguns carpinteiros... Já ia mandar o cocheiro tocar quando ela apareceu nervosa, hesitou, olhou para todos os lados, e precipitou-se no trem a chorar convulsivamente...

— Encantador!

— Quis abraçá-la. Recuou. Quis beijá-la. Ameaçou de descer.

Esperei o gabinete vazio do Tavares, onde ninguêm nunca se lembrara de tomar chá às cinco da tarde, mas onde eu pensava dominá-la — com champagne e amor. Ao saltar, Etelvina tremia como uma grande dama honesta na sua primeira entrevista criminosa. Quando no gabinete caí-lhe aos pés e repeti uma ardente declaração sempre de fulminante efeito; ela disse-me, encostada a mesa: — «Mediu bem o que vai fazer?» Respondi que era o seu escravo, incapaz de medir a extensão da minha felicidade. Ela murmurou: — «Bem». Depois sentou-se. Sentei-me tambêm. Um instante rimos porque desastradamente o meu pulso a tremer inundou de espuma de champagne a toalha clara. E rindo, aproximei mais o meu corpo. Etelvina afastou-se um pouco. Insisti. Ela afastou-se mais. Estava à beira da banqueta. Tentei mais um movimento e ela naturalmente pôs-se de pé, para partir. Eu que até então conseguira conter-me, agarrei-a, prendi-lhe a cabeça, beijei-a furiosamente na bôca. Ela debateu-se quási a gritar: — «Não! Não!» E, conseguindo desvencelhar-se, correra ao outro extremo do gabinete — «Etelvina!» — «Deixe-me, ou eu grito!» — «Mas é estúpido!» — «Não posso! Abra a porta. Não posso!» — Esfregava o lenço na bôca como se eu a tivesse maculado. Tive uma dessas cóleras lívidas que se exteriorizam pela pancada ou por um silêncio terrivel. Abri a porta. Ela precipitou-se no estreito corredor, que tem Visto coisas muito piores. Um criado passava. Mandei abrir a outra porta, a da rua. Ela, sem um olhar, correu ao coupé, bateu a portinhola, e o trem rodou a toda a pressa pelo mau piso...

— Calculista a rapariga!

— Pensei exactamente assim. Ao pagar a conta a um criado que sorria, jurei profundo desprêzo por todas as mulheres e por aquela em particular. Estava envergonhado, humilhado, e temendo que alguêm desconfiasse da minha triste aventura, fui ao teatro, conversei nos bastidores, acabei por convidar os dois primeiros cómicos para cear no Imperial uns pratos copiosos, regados a vinhos espêssos. Estávamos em meio da ceia, quando vieram chamar-me. Fora, numa tipóia, esperava por mim, uma senhora. Corri. Era Etelvina. Tinha os olhos vermelhos de chorar. — «Que é isso?» — «Entra!» — «Alguma desgraça. Viram-te?» O meu ódio desaparecia diante daquela dôr. — «Entra!» — «Mas que há?» — «Não posso falar aqui.» — «Para onde queres ir?» — «Para tua casa!» — «Não tenho casa.» — «Para o teu quarto, então.» — «Seja!» Dei a direcção. A tipóia rodou. Ela rompeu em chôro. — «Mas conta, rapariga. Se ninguêm morreu ainda, não há nada perdido. Que há?» Ela olhou-me: — «Gastão, deixei o Eusébio para sempre! Eu não sou mulher que engane o homem com quem está. Eusébio ama-me. Eu já não o amo. Seria entretanto indigna se o enganasse. Depois do seu beijo, ao voltar à casa, não tive mais coragem de o encarar.» — «Mas recusaste o beijo...» — «Sim. É porém superior às minhas fôrças. Não o posso ver. Lutei todo êste tempo em vão. Acabei por escrever-lhe uma carta, contando-lhe tudo! — «Tu fizeste isso?» —«Fiz, fui franca, disse-lhe que vinha para a tua companhia... Amanhã mandarei buscar as malas. Pronto! Esqueçamos ...»

Passou o lenço nos olhos, alisou os cabelos, como quem volta de uma dôr tremenda. — «E tua filha», indaguei atónito. — «Fica com o Eusébio. Se não a quiser, mando-a a viver com a mãe na minha casa do Lumiar, onde estão os outros». — «E o Eusébio?» [ — «]Acabou!...» Encolhido no fundo da tipóia eu não pensava, sentia apenas um Vago horror, uma incompreensão dolorosa. Ela continuou: — «A não ser que a tua simpatia fôsse brincadeira e que receies alguma coisa... — «Eu não receio nada!» — «Nêsse caso, tratarei só da minha vida...»

Senti que qualquer palavra seria inútil. O melhor era crer na fatalidade. Procurei-lhe a cinta. As minhas mãos trémulas tatearam o seu corpo. Ela caíu-me sôbre o peito, com a bôca na minha bôca, de tal modo que quando chegámos à casa onde eu tinha um quarto, os nossos desejos ardiam. Foi ela quem falou, com voz macia e íntima: — «Chegámos. Salta...» Saltei, e ia dar-lhe a mão, quando vi erguer-se da porta um vulto. Pus a mão no revólver. O vulto era Eusébio com uma criança nos braços...

— Puro melodrama, caro Gastão!

— E tão verdade como estas senhoras que entram para o teatro!

— A verdade é sempre inacreditável. Mas, continue...

— A minha surprêsa foi tanta que fiquei sem movimento. O pobre homem falou. — «Atire, se quiser. Pouco me importa a vida. Matar-me será entretanto um crime inútil. Não vim agredir. Vim pedir. Vim com esta criança. O senhor é homem. Talvez não saiba que esta mulher é a mãe de minha filha, a única pessoa que eu amo, a razão de ainda existir êste coitado que vê a chorar. Seja generoso. Eu amo Etelvina. O senhor por enquanto não pode ter senão capricho. Nunca pensei que ela me abandonasse. Tão honesta! Estou perdido, estou desgraçado. Tenha dó de mim. Dê-ma...» Tremia. Grossas lágrimas afundavam-se-lhe pela bigodeira melancólica. E, entre soluços, a sua voz repetia : «Tenha dó...»

Olhei Etelvina, irrevogável e má como um anjo. Que responder? Responder quando não sabia o que devia fazer, quando o meu coração batia de orgulho, de pena, de nojo, de mêdo, quando a minha razão oscilava! Fiz um esfôrço e senti-me hediondamente ridículo a dizer estas breves palavras: — «Como deve saber, não mando na sr.ª D. Etelvina. Ela fará o que entender. Submeto-me à vontade dela». Meti a chave no trinco. Eusébio erguera a petiza, implorando: «Etelvina, olha a tua filha! Vem comigo. Morro se me abandonas...» Etelvina estava de mármore. Apenas, aberta a porta, murmurou: — «Eu não mudo de proceder, Eusébio. Adeus. Amanhã estarás melhor. Agasalha a pequena. Vamos, Gastão...»

A porta fechou-se. Enquanto subíamos as escadas, íamos como pisando nos ais do pobre homem em baixo. — «Etelvina! Etelvina!» gania a criatura. Agarrada a mim, na treva, Etelvina tinha as mãos de gêlo. Desgraçadamente tenho visto comigo, que não sou melhor nem pior que os outros homens, o efeito desastroso do choque dos preconceitos sociais sôbre a nossa animalidade. Eu era abjecto. Aquela criatura que se agarrava a mim era refinadamente miserável. Abandonara a filha, deixara um homem a soluçar, por outro a quem não podia ainda amar e que ainda não a amava. E apesar de tudo, talvez por tudo, o desejo como uma alucinação queimava-nos. No meu quarto era impossível falar. A vizinhança protestaria. Se tivéssemos falado, talvez nos contivéssemos. As palavras fizeram-se para desvirtuar a vida... Calados, ela tremia, eu tremia. Rolámos no leito. Foi a noite de mais exasperado prazer que conheci...

— Cáspitè!

Fiquei prêso. Podia dizer-lhe, para fazer literatura, que ficara no desejo de decifrar o monstro. Não. Tinha vinte quatro anos, idade em que os homens tanto se importam com a psicologia das mulheres como com a sua certidão de idade. Também não era amor. Fiquei simplesmente porque ela se fazia carinho, ternura, o dia inteiro. Fiquei por sensualidade. Nunca lhe vi os filhos e a mãe. Ela achava inútil. Nunca perguntei quantos anos tinha. Obedecia-me de tal modo que eu era muito mais Velho sempre. E quanto à ordem, à dedicação — que dona de casa e que esposa! Falava pouco. Nunca me fez uma scena. Eu era o seu Deus. Esperava-me quando mandava que esperasse; dormia quando não lhe dizia nada. Macia, silenciosa, boa. Para comprar-lhe um vestido, tinha de zangar-me. Ela própria os transformava. Fazíamos economias. Dei-lhe certa Vez um anel. Pois chorou!...

— E o Eusébio?

— Ah! é verdade! O Eusébio... Enquanto existiu, manteve na nossa união um ar de delírio. Imagine você que o Eusébio ia para o teatro com a pequena. O teatro inteiro censurava Etelvina. Etelvina amimava a filha como se amima a filha de um conhecido, e não falava ao Eusébio. Levava de capricho. O pobre diabo exibia de mais a desgraça. Deu mesmo para o fim em ir cear com a pequena, que poderia ter nêsse tempo pouco mais de um ano. Ficava bêbedo debruçado sobre as mesas, enquanto a criancinha dormia nas banquetas. Um horror!

— Isso não os envergonhava?

Exasperava-nos. Era uma raiva... Quando o Eusébio, doente do peito, subiu para a Serra da Estrêla, deixando a filha com a avó, é que notei a normalização da nossa vida. Acordávamos tarde. Almoçávamos. Ela saía para o ensaio. Eu às vezes ia levá-la. De outras ia conversar aos cafés. Voltávamos a jantar. Ríamos, contávamo-nos mutuamente o nosso dia. Era bom. Depois ela ia para o teatro e eu aparecia a buscá-la, indo mesmo cear com camaradas. Passámos assim ano e meio. Devia ser por toda a vida! Ao cabo dessa maravilha de temporada, recebi uma carta anónima, assegurando que Etelvina entrava em francos colóquios com um jovem cómico, o Justino.

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— Desagradável...

— Não sei se era verdade. No momento perdi a cabeça, lembrei o Eusébio, a minha felicidade. Corri ao teatro. A um canto Etelvina justamente conversava com o Justino. Atirei-me vomitando impropérios e ali mesmo espanquei o cómico. Houve pânico, gritaria, sangue, portas fechadas. Toda a companhia berrava, ameaçando-me. Eu sacudia furioso a bengala. Só Etelvina, branca e impassível, assistia à scena. Fiquei louco de ira. Agarreia-a pelo braço, levei-a aos encontrões até à rua, atirei-a num trem que passava, e, durante a corrida, insultei-a. Insultei-a de desespêro, porque ela sem dizer palavra, olhava fixamente a ponta dos botins, distante de mim, cada vez mais distante à proporção que os meus insultos cresciam.

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Ao chegarmos a casa subiu rápida. «Vai fechar-se no quarto e chorar!», pensei. Mas quando cheguei acima, Etelvina estava -na casa de jantar, de luvas, de chapéu, com uma pequena valise na mão.

— «Temos scena?» indaguei colérico.

— «Sabes bem que não faço scenas.

Tomei apenas uma resolução irrevogável». — «Qual?» — «Parto !»— «Estás louca.» — «Cometeste um acto indigno. Desmoralizaste-me diante da companhia». — «Minha querida, nada de farças. O Justino, êsse canalha, já dava que falar até aos anónimos. 0lha esta carta! Conheço-te». — «Deves pois saber que não é meu costume enganar o homem com quem vivo. Quando a harmonia cessa — desapareço». — «Olha que eu não sou o Eusébio.» —«Não, porque o Eusébio nunca me insultou!» — «Etelvina, não me enfuries!» —«Farei o possível. O senhor duvida de mim; o senhor espancou um pobre rapaz; o senhor insultou-me, dando-me nêsse tremendo escândalo como amante de outro. Não podemos viver juntos, para a sua própria dignidade. Seja feliz!» — «Vais ter com êle, como fizeste comigo quando deixaste o Eusébio?». Ela voltou-se lívida: «Juro-lhe que não pensava nêsse homem; juro-lhe que não serei sua amante. Vou de aqui para a casa de minha mãe». Dei uma gargalhada de desafio : — «Pois até à vista!» — «Adeus, Gastão...»

Ao vê-la sair, esperei um instante, por orgulho, por vaidade. Depois, sentindo o desastre, atirei-me com vontade de espancá-la, de pedir-lhe perdão e ao mesmo tempo certo do irremediável. Desci, chamei. Já não estava. Corri ao Lumiar, à casa onde tinha a mãe. Não aparecera. Fui ao teatro, sem saber o que ia fazer. Etelvina representava. A minha entrada tinha sido proibida na caixa e vinham a mim o vice-cônsul do Brasil e um senhor amável. Etelvina reclamara garantias à segurança e mandara um bilhete ao vice-cônsul. Aquele senhor amável era da polícia. O Vice-cônsul aconselhaVa-me ...

Fiz um enorme esforço para conservar uma certa linha de distinção. Como as mulheres humilham! Com que rapidez aquela criatura me reduzia de amante a desordeiro inconveniente. Disse algumas palavras de ironia que as duas autoridades ouviram a sorrir com receosa piedade. O vice-cônsul convidou-me para dormir na sua residência. Era solteiro. Conhecia a vida... Devia ser doloroso ver um lar vazio ...

Fui. Não dormi a noite. Pela manhã, saí. Era evidentemente acompanhado por um polícia secreta. Entrei na minha casa. A impressão foi a de quem revê scenários depois da representação da peça. Estive enojado alguns momentos, — não dela, mas do meu acto. Abri as gavetas, li cartas. Todas as cartas de minha família mostravam o susto pela minha demora. Deixei os criados atónitos, fui de caminho a uma agência de leilões e à agência de Vapores.. Oito dias depois embarcava para o Rio. Antes informara-me dela. Não estava com o Justino. Escrevi-lhe uma carta pedindo-lhe perdão. E até à hora de embarcar esperei a resposta ...

— É sempre triste o fim... Êsse foi lamentável. Tanto mais quanto, perdendo-a, livre da sedução, a curiosidade tornara-se enorme. Eu desejava conhecer o coração daquela mulher, saber ao certo o que ela pensava, o que ela sentia. Há um ano, ela reapareceu no Rio numa companhia de operetas. A pretexto de abraçar os amigos fui a bordo. Etelvina ia desembarcar com o seu novo amante, o segundo tenor, um sujeito bexigoso, que tinha anéis em todos os dedos das mãos. Olhou-me calma. Não me cumprimentou. Era como se nunca nos tivéssemos visto. Fiquei de novo irritado. Mas o procedimento dela fôra de tal ordem que eu, o violento, o estouvado, eu senfiá a timidez de um rapazola, a vergonha de qualquer acto menos polido. Assim, em vez de atacá-la, de ter uma explicação,, voltei a ter uma frisa permanente no teatro, a mandar-lhe diáriamente flcres, a ser de novo o namorado! Quando estava nêsse ridículo, pensava: — «Ela deve ficar agradecida. O meu romantismo sobrepujará o estúpido tenor!» Ela continuava de gêlo. Da sua permanente impassibilidade nasceu a pouco e pouco a minha irritação. Comecei a encarar o tenor com insolência, a rir da sua Voz... O tenor pareceu ter mêdo. Fiquei mais insolente e resolvi ir à caixa. Note Você que não era paixão. Era despeito só talvez...

— Compreendo.

— Não ria. Despeito ou paixão, o certo é que eu ameaçava explodir. E na minha terra não haveria autoridades que obstassem uma campanha desagradável ao pobre tenor e àquela impertinente mulherzinha ... Pois estava eu assim uma noite e entrava na caixa durante o intervalo, quando vi o tenor desaparecer no camarim e a Etelvina Vir a miin com a maior calma: — «Boa noite, Gastão!» Senti-me desarticulado: —«Afinal, falou-me, grande ingrata !» — «Ó homem, não falava porque você não me cumprimentava. Os cavalheiros saúdam sempre primeiro... Depois, julguei que tivesse o pouco senso de não me ter dado razão no nosso rompimento ... — «Não houve rompimento da minha parte.» — «Ainda bem. Foi uma terminação só ...»

Depois, sem transição, levou-me naturalmente pelo fundo do palco, o braço enfiado no meu. E baixo, amigável, carinhosamente:—«Fez você bem em vir cá ao palco- Tenho de lhe falar. É aliás um pedido. Gastão, que brincadeira é essa ? Porque me persegue Você?» —«Eu?» — «Como criançada, creio, já basta! Como cavalheiro, o Gastão nunca teria repetido tal pilhéria, se pensasse no que faz!» — «Ora!» — «Antes, bem. Mas agora, depois de um bom momento que passou e não poderá jámais voltar!...»— «Porquê?» — «Gastão, para que frases inúteis? O -encanto rompeu-se. Sabe bem. Nem eu nem você poderíamos recomeçar senão para mutuamente nos odiarmos. Depois, não- quero, não recomeço nunca. É estupidez querer fazer novo um copo que quebrou ...» Fiquei um momento calado, como criança, teimosa que ainda insiste : — «Mas eu gosto tanto de você ...» — «Estamos a falar sério.» —«Mas podia ser só uma vez: mais ...» — «Que tolice Gastão !»— «Creio que não ama o tenor bexigoso ?» — «Para você basta dizer que o respeito. Quereria, que eu fizesse contra você o que me propõe contra êie? De resto é mesmo a seu respeito que desejaria faiar. O rapaz tem sofrido com os seus modos, Gastão. Isso é tão triste para um homem como Você.. . Pediu-me até para falar-lhe. Conto com um favor seu. Deixe-se de disparates de conquistas, seja camarada de quem nunca lhe deu um desgosto. Ao menos. O que foi, foi, — passou. Nunca, em hipótese alguma, torno a ser sua amante.. Não envenene a minha vida. Seja gentil, seja amigo. Posso contar?.. .» Olhei-a imenso tempo. Depois disse: — «É exquisita a valer.» — «Não, sou honesta.» — «É uma explicação.» — «Não, é a verdade. Eu fui e continuo a ser sempre honesta.» Curvei-me:. — «Será satisfeita, Etelvina ...»

Deixei a caixa e nunca mais voltei ao teatro. Sinto uma sensação indecifrável quando a Vejo. Como não consegui compreendê-la, evito os cumprimentos, o mal estar das saudações. .. Houve um silêncio. O outro cavalheiro perguntou, como continuando:

— Agora, porêm, parece-me que ela não Veio com o tenor?

— Não, está com o se- • cretário da companhia e já esteve com um jornalista.

— Cada Vez mais menina e mais honesta ?...

— Tal qual como comigo, com o Eusébio, os anteriores e de certo os futuros ... O cavalheiro pensou:

— De aí talvez seja um género. Honestidade é uma questão de interpretação. No fundo Etelvina não tem vício porque só ama. um de cada Vez; é digna porque tem a lealdade de não enganar aquele com quem está; é mulher porque não gosta só de um para toda a Vida. Quanlo a honestidade, de facto ninguém pode dizer que não é das mais honestas. Talvez de um modo singular. Honesta por partidas, honesta sucessivamente ... Mas no saguão do teatro as campainhas retiniam. O cava¬ lheiro riu com deleite da sua frase. Quanto a Gastão da Fonseca não riu, talvez por não ter ouvido. Estava preocupado, à procura da cadeira. A honestidade, sucessiva ou absoluta, aparente ou real é das qualidades que na mulher mais interessam ao homem. Porque quando a possui o homem vive na preocupação de Vê-la roubada pelos outros, e quando a Vê com os outros só pensa em corrompê-la...

João do Rio,
da Academia Brasileira de Letras