A honestidade de Etelvina

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
A honestidade de Etelvina
por João do Rio
Conto publicado originalmente na revista Atlântida: mensario artistico, literario e social para Portugal e Brazil, em duas partes: edição número 9, publicada em 15 de julho de 1916 e edição número 10, publicada em 15 de agosto de 1916.


— Por aqui? Temos de certo amor novo?

— Nem velho, meu caro amigo. Vim assistir ao espectáculo, como qualquer mortal. Sem outras intenções...

Era à porta de um teatro cheio de luzes e de gente. O cavalheiro que primeiro falara parecia contente; o outro era um dêsses rapazes em cuja face lemos o estouvamento, a estroinice, a violência impulsiva e que, apesar de tal genio, a viver em paixões, conflitos, desesperos e pândegas, conservam muitos anos depois de homens o mesmo ar de rapazes. A natureza, mantendo essa ilusão, atenua talvez o chocante efeito que tais temperamentos produziriam, se o físico não correspondesse à leviandade barulhenta das opiniões.

— Vem assistir apenas ao espectáculo? Ainda bem. Assistiremos juntos. A melhor maneira de ouvir uma peça sempre foi conversar durante os actos e falar das actrizes nos intervalos.

— Claro!

Mas nesse momento, o rapaz recuou e escondeu-se, positivamente escondeu-se por trás de um grupo de senhoras, que ameaçava a entrada. O cavalheiro voltou-se surprêso e viu que passava a correr a figurinha grácil da pequena actriz Etelvina Santos. Estava de vermelho, de aparência menina, ainda mais menina, — o seu poder definitivo sôbre as platéas de cá e de alêm mar. Na face fina como modelada em porcelana, luziam-lhe os olhos entre sonsos e maliciosos; e ela toda parecia um « biscuit » antigo de Sèvres. Passou, aliás, numa rajada. A criada que a seguia, era levada peia mesma ventania de pressa.

— Mentiroso!

— Porquê?

— Éste Gastão da Fonseca! Então não acabo de vê-lo esconder-se à passagem de Etelvina? Vão recomeçar os escandalosos amores? Compreendo que voltou a paixão!

— Não é verdade. Recuei para evitar cumprimentos.

— Zanga ou mágoa?

— Mal estar apenas. Essa mulher é indecifrável.

— Como todas as mulheres!

— A Etelvina mais que as outras. Vivi com ela dois anos, e, quando a deixei, conhecia-a tanto como a primeira vez em que a vi. A esfinge de Gezireon seria mais confidencial. Foi talvez por isso que ainda tentei uma nova análise. Depois abstenho-me. É desconcertante!

— Francamente...

— Faz outra idéa de Etelvina?

— Meu caro Gastão. Conheço Etelvina há dez anos. Já nesse tempo ela parecia menina e tinha nove filhos. Os jornais comparavam-na a um « biscuit » e Etelvina cantava como um carriço, e fazia-se incompreendida dos apaixonados... Conheço-a! Você não pretende positivamente voltar a amá-la? Pois bem. A minha opinião é que Etelvina não passa de uma idiotinha, cheia de pretenções...

Gastão da Fonseca riu estrepitosamente.

— Era o que eu pensava, mas com êrro! Até hoje não sei o que ela é! Se lhe contasse a nossa vida ficaria como eu...

— Conte, então.

— Perdemos o acto...

— Temos ainda quási um quarto de hora.

Gastão da Fonseca parecia desejoso de contar, porque sem transição continuou.

— Lembra-se do nosso namôro ? Começou aqui no Rio. Mandava-lhe flôres, ia à caixa, beijava-lhe a mão, que tremia. Etelvina estava com o ensaiador, um sujeito de nome Eusébio que também escrevia peças. As informações davam-na sempre fiel aos amantes. Era tão fiel, tão honesta que não só ninguêm se lembrava dos motivos porque mudara várias vezes de cavalheiro como até creio bem ninguêm mais se lembrava dêsses homens. Etelvina era fiel, era honesta, perante os amantes que de secundários passavam a ser apenas o Amante, o mesmo, o geral. Não podia haver mais discussões! Vi que, no meu caso, Etelvina continuaria fiel ao Eusébio. De facto. A companhia partiu, sem que dela obtivesse nem um beijo. Quási esqueci o comêço da aventura, pôsto conservasse pela Etelvina uma ponta de despeito raivoso...

— O Eusébio estava destinado a apanhar de ti algumas bengaladas!

— Não. Nem pensava no Eusebio, que me dera a impressão apagada de um boneco ou de um aio. Mas certa vez a viajar pela Europa, fiquei algum tempo em Lisboa sem relações, — de modo que freqùentava assiduamente os cómicos conhecidos do Rio. Num dos teatros, onde a miúde entrava, era Etelvina quási estrêla. Os cómicos portugueses são muito amáveis para os brasileiros em Lisboa. Abusei da minha importância. Insensivelmente recomecei a fazer a côrte a Etelvina. E fôsse por não ter o que fazer, fôsse por aumentar o capricho, o certo é que fui alucinante. Estava onde ela estava, mandava-lhe flôres e mimos desde pela manhã, escrevia-lhe cartas. Espantei mesmo a bengaladas dois apaixonados. Etelvina, entretanto, teimava em fingir tranqùila indiferença. Um dia o Eusébio ensaiador. atacado de gripe não foi ao ensaio. Aproximei-me e disse-lhe quási no fim — « Espero-a à esquina, num coupé fechado ». — « O sr. está doido! » — « Tanto não estou que tenho a certeza de irmos tomar chá ao Tavares. » — « Ao Tavares? » — « Tenho um gabinete reservado. Entramos pela porta dos fundos. Ninguém nos verá ». — « Não vou! » — « Lembre-se de que não responderei pelos meus actos, se não vier! » — « Que fará? » — « Tudo! Até já! » Saí. Aluguei um coupé. Mandei arrear as cortinas. E fiquei a fumar dentro do coupé, certo de que fazia uma tolice e que ela não viria. De facto, a principio assim foi. Passaram artistas, coristas, o velho primeiro cómico, que saía sempre por último, alguns carpinteiros... Já ia mandar o cocheiro tocar quando ela apareceu nervosa, hesitou, olhou para todos os lados, e precipitou-se no trem a chorar convulsivamente...

— Encantador!

— Quis abraçá-la. Recuou. Quis beijá-la. Ameaçou de descer.

Esperei o gabinete vazio do Tavares, onde ninguêm nunca se lembrara de tomar chá às cinco da tarde, mas onde eu pensava dominá-la — com champagne e amor. Ao saltar, Etelvina tremia como uma grande dama honesta na sua primeira entrevista criminosa. Quando no gabinete caí-lhe aos pés e repeti uma ardente declaração sempre de fulminante efeito; ela disse-me, encostada a mesa: — «Mediu bem o que vai fazer?» Respondi que era o seu escravo, incapaz de medir a extensão da minha felicidade. Ela murmurou: — «Bem». Depois sentou-se. Sentei-me tambêm. Um instante rimos porque desastradamente o meu pulso a tremer inundou de espuma de champagne a toalha clara. E rindo, aproximei mais o meu corpo. Etelvina afastou-se um pouco. Insisti. Ela afastou-se mais. Estava à beira da banqueta. Tentei mais um movimento e ela naturalmente pôs-se de pé, para partir. Eu que até então conseguira conter-me, agarrei-a, prendi-lhe a cabeça, beijei-a furiosamente na bôca. Ela debateu-se quási a gritar: — «Não! Não!» E, conseguindo desvencelhar-se, correra ao outro extremo do gabinete — «Etelvina!» — «Deixe-me, ou eu grito!» — «Mas é estúpido!» — «Não posso! Abra a porta. Não posso!» — Esfregava o lenço na bôca como se eu a tivesse maculado. Tive uma dessas cóleras lívidas que se exteriorizam pela pancada ou por um silêncio terrivel. Abri a porta. Ela precipitou-se no estreito corredor, que tem Visto coisas muito piores. Um criado passava. Mandei abrir a outra porta, a da rua. Ela, sem um olhar, correu ao coupé, bateu a portinhola, e o trem rodou a toda a pressa pelo mau piso...

— Calculista a rapariga!

— Pensei exactamente assim. Ao pagar a conta a um criado que sorria, jurei profundo desprêzo por todas as mulheres e por aquela em particular. Estava envergonhado, humilhado, e temendo que alguêm desconfiasse da minha triste aventura, fui ao teatro, conversei nos bastidores, acabei por convidar os dois primeiros cómicos para cear no Imperial uns pratos copiosos, regados a vinhos espêssos. Estávamos em meio da ceia, quando vieram chamar-me. Fora, numa tipóia, esperava por mim, uma senhora. Corri. Era Etelvina. Tinha os olhos vermelhos de chorar. — «Que é isso?» — «Entra!» — «Alguma desgraça. Viram-te?» O meu ódio desaparecia diante daquela dôr. — «Entra!» — «Mas que há?» — «Não posso falar aqui.» — «Para onde queres ir?» — «Para tua casa!» — «Não tenho casa.» — «Para o teu quarto, então.» — «Seja!» Dei a direcção. A tipóia rodou. Ela rompeu em chôro. — «Mas conta, rapariga. Se ninguêm morreu ainda, não há nada perdido. Que há?» Ela olhou-me: — «Gastão, deixei o Eusébio para sempre! Eu não sou mulher que engane o homem com quem está. Eusébio ama-me. Eu já não o amo. Seria entretanto indigna se o enganasse. Depois do seu beijo, ao voltar à casa, não tive mais coragem de o encarar.» — «Mas recusaste o beijo...» — «Sim. É porém superior às minhas fôrças. Não o posso ver. Lutei todo êste tempo em vão. Acabei por escrever-lhe uma carta, contando-lhe tudo! — «Tu fizeste isso?» —«Fiz, fui franca, disse-lhe que vinha para a tua companhia... Amanhã mandarei buscar as malas. Pronto! Esqueçamos ...»

Passou o lenço nos olhos, alisou os cabelos, como quem volta de uma dôr tremenda. — «E tua filha», indaguei atónito. — «Fica com o Eusébio. Se não a quiser, mando-a a viver com a mãe na minha casa do Lumiar, onde estão os outros». — «E o Eusébio?» [ — «]Acabou!...» Encolhido no fundo da tipóia eu não pensava, sentia apenas um Vago horror, uma incompreensão dolorosa. Ela continuou: — «A não ser que a tua simpatia fôsse brincadeira e que receies alguma coisa... — «Eu não receio nada!» — «Nêsse caso, tratarei só da minha vida...»

Senti que qualquer palavra seria inútil. O melhor era crer na fatalidade. Procurei-lhe a cinta. As minhas mãos trémulas tatearam o seu corpo. Ela caíu-me sôbre o peito, com a bôca na minha bôca, de tal modo que quando chegámos à casa onde eu tinha um quarto, os nossos desejos ardiam. Foi ela quem falou, com voz macia e íntima: — «Chegámos. Salta...» Saltei, e ia dar-lhe a mão, quando vi erguer-se da porta um vulto. Pus a mão no revólver. O vulto era Eusébio com uma criança nos braços...

— Puro melodrama, caro Gastão!

— E tão verdade como estas senhoras que entram para o teatro!

— A verdade é sempre inacreditável. Mas, continue...

— A minha surprêsa foi tanta que fiquei sem movimento. O pobre homem falou. — «Atire, se quiser. Pouco me importa a vida. Matar-me será entretanto um crime inútil. Não vim agredir. Vim pedir. Vim com esta criança. O senhor é homem. Talvez não saiba que esta mulher é a mãe de minha filha, a única pessoa que eu amo, a razão de ainda existir êste coitado que vê a chorar. Seja generoso. Eu amo Etelvina. O senhor por enquanto não pode ter senão capricho. Nunca pensei que ela me abandonasse. Tão honesta! Estou perdido, estou desgraçado. Tenha dó de mim. Dê-ma...» Tremia. Grossas lágrimas afundavam-se-lhe pela bigodeira melancólica. E, entre soluços, a sua voz repetia : «Tenha dó...»

Olhei Etelvina, irrevogável e má como um anjo. Que responder? Responder quando não sabia o que devia fazer, quando o meu coração batia de orgulho, de pena, de nojo, de mêdo, quando a minha razão oscilava! Fiz um esfôrço e senti-me hediondamente ridículo a dizer estas breves palavras: — «Como deve saber, não mando na sr.ª D. Etelvina. Ela fará o que entender. Submeto-me à vontade dela». Meti a chave no trinco. Eusébio erguera a petiza, implorando: «Etelvina, olha a tua filha! Vem comigo. Morro se me abandonas...» Etelvina estava de mármore. Apenas, aberta a porta, murmurou: — «Eu não mudo de proceder, Eusébio. Adeus. Amanhã estarás melhor. Agasalha a pequena. Vamos, Gastão...»