A idéia (Antero de Quental)

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A idéia
por Antero de Quental
Poema publicado em Odes Modernas, segunda edição.


I


Pois que os deuses antigos e os antigos
Divinos sonhos por esse ar se somem,
E á luz do altar da fé, em Templo ou Dolmen,
A apagaram os ventos inimigos;

Pois que o Sinai se ennubla e os seus pacigos,
Seccos á mingua de agua, se consomem,
E os prophetas d'outrora todos dormem
Esquecidos, em terra sem abrigos;

Pois que o céo se fechou e já não desce
Na escada de Jacob (na de Jesus!)
Um só anjo, que acceite a nossa prece;

É que o lyrio da Fé já não renasce:
Deus tapou com a mão a sua luz
E ante os homens velou a sua face!


II


Pallido Christo, oh conductor divino!
A custo agora a tua mão tão doce
Incerta nos conduz, como se fosse
Teu grande coração perdendo o tino…

A palavra sagrada do Destino
Na bocca dos oraculos seccou-se:
A luz da sarça ardente dissipou-se
Ante os olhos do vago peregrino!

Ante os olhos dos homens—porque o mundo
Desprendido rolou das mãos de Deus,
Como uma cruz das mãos d'um moribundo!

Porque já se não lê seu nome escrito
Entre os astros… e os astros, como atheus,
Já não querem mais lei que o infinito!


III


Força é pois ir buscar outro caminho!
Lançar o arco de outra nova ponte
Por onde a alma passe—e um alto monte
Aonde se abre á luz o nosso ninho.

Se nos negam aqui o pão e o vinho,
Avante! é largo, immenso esse horizonte…
Não, não se fecha o mundo! e além, defronte,
E em toda a parte ha luz, vida e carinho!

Avante! os mortos ficarão sepultos…
Mas os vivos que sigam, sacudindo
Como o pó da estrada os velhos cultos!

Doce e brando era o seio de Jesus…
Que importa? havemos de passar, seguindo,
Se além do seio d'elle houver mais luz!


IV


Conquista pois sósinho o teu futuro,
Já que os celestes guias te hão deixado,
Sobre uma terra ignota abandonado,
Homem—proscrito rei—mendigo escuro!

Se não tens que esperar do céo (tão puro,
Mas tão cruel!) e o coração magoado
Sentes já de illusões desenganado,
Das illusões do antigo amor perjuro:

Ergue-te, então, na magestade estoica
D'uma vontade solitaria e altiva,
N'um esforço supremo de alma heroica!

Faze um templo dos muros da cadeia,
Prendendo a immensidade eterna e viva
No circulo de luz da tua Idea!


V


Mas a Idea quem é? quem foi que a vio,
Jámais, a essa encoberta peregrina?
Quem lhe beijou a sua mão divina?
Com seu olhar de amor quem se vestio?

Pallida imagem, que a agua de algum rio,
Reflectindo, levou… incerta e fina
Luz, que mal bruxulêa pequenina…
Nuvem, que trouxe o ar, e o ar sumio…

Estendei, estendei-lhe os vossos braços,
Magros da febre d'um sonhar profundo,
Vós todos que a seguis n'esses espaços!

E emtanto, oh alma triste, alma chorosa,
Tu não tens outra amante em todo o mundo
Mais que essa fria virgem desdenhosa!


VI


Outra amante não ha! não ha na vida
Sombra a cobrir melhor nossa cabeça,
Nem balsamo mais doce, que adormeça
Em nós a antiga, a secular ferida!

Quer fuja esquiva, ou se offereça erguida,
Como quem sabe amar e amar confessa,
Quer nas nuvens se esconda ou appareça,
Será sempre ella a esposa promettida!

Nossos desejos para ti, oh fria,
Se erguem, bem como os braços do proscrito
Para as bandas da patria, noite e dia.

Podes fugir… nossa alma, delirante,
Seguir-te-ha a travez do infinito,
Até voltar comtigo, triumphante!


VII


Oh! o noivado barbaro! o noivado
Sublime! aonde os céos, os céos ingentes,
Serão leito de amor, tendo pendentes
Os astros por docel e cortinado!

As bodas do Desejo, embriagado
De ventura, a final! visões ferventes
De quem nos braços vae de ideaes ardentes
Por espaços sem termo arrebatado!

Lá, por onde se perde a phantasia
No sonho da belleza: lá, aonde
A noite tem mais luz que o nosso dia;

Lá, no seio da eterna claridade,
Aonde Deus á humana voz responde;
É que te havemos abraçar, Verdade!


VIII


Lá! Mas aonde é ?—Espera,
Coração indomado! o céo, que anceia
A alma fiel, o céo, o céo da Idea.
Em vão o buscas n'essa immensa esphera!

O espaço é mudo: a immensidade austera
De balde noite e dia incendeia…
Em nenhum astro, em nenhum sol se alteia
A rosa ideal da eterna primavera!

O Paraiso e o templo da Verdade,
Oh mundos, astros, sóes, constellações!
Nenhum de vós o tem na immensidade…

A Idea, o summo Bem, o Verbo, a Essencia,
Só se revela aos homens e ás nações
No céo incorruptivel da Consciencia!