A janela

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A janela
por Cruz e Sousa
Texto publicado em Missal

Dava para o mar a larga janela verde, em frente às águas também verdes e turbilhonante às vezes, outras limpidamente quietas, num remanso de golfo sereno.

Velas saudosas de navios, enfunadas ao impulso das correntes aéreas; mastreações caprichosas e confusas, misteriosamente interrogando o céu; os montes ao fundo, formando panoramas álacres com seus cabeços azulados e colossais, e a grandeza olímpica das ondas fechadas pela natureza numa extensa área do terreno: tudo gozava e sentia além viver a janela; e, ao longo de indefinida barra dos horizontes esfuminhados, a linha vaga, melancolizada, das imensas distâncias intermináveis.

Dum lado e doutro da janela, subindo-a, galopando-a festivamente em caracóis negligentes, a expansão, a nevrose de folhagens trepidantes que busca em ânsias o ar...

Rosas vermelhas e rosas jaldes alastravam numa primaveril e casta alegria radiosa de Via-Láctea, o quadrado verde da janela, enquanto amorosamente um jasmineiro florido, entrelaçado às rosas, com flores alvas e cheirosas desabrochadas em forma de pequeninas estrelas, punha um encanto romântico e noival de janela de Julieta na larga janela verde que dava para o mar.

E as embarcações, os iates, os navios, os paquetes paravam no mar dormente, lá iam todos afora, - ambulância marinha, dorsos de tritões ferozes e soturnos, vogando na superfície das ondas...

Iam talvez perto: a países meridionais, sob céus elegantes e azues, ou - mundo adentro - às eternas neves glaciais das geleiras do pólo: às regiões setentrionais das flamejantes auroras boreais: a Islândia, a Lapônia, a Noruega, Poe entre as frias e brancas estalactites fulgurantes da lua...

Em frente à janela, eram terrenos desapropriados e planos, que um rente folhedo luxuriante cobria.

Depois era o mar, sempre o mar, todos os dias, a toda hora, a todo instante, cortando, no entanto, com a monotonia do seu aspecto, a agreste monotonia daqueles sítios suaves.

Mas, contudo isso, o mar nenhuma monotonia parecia inspirar, porque dava à janela, àquele original recanto, àquele desconhecido retiro isolado, aberto na parede como o nicho de uma Santa, à recordação de todo o vasto ruído atordoante e culto da vida de longe:os rumorosos cais frementes, as movimentadas cidades alegres, os grandes portos febris da efervescente efusão cosmopolita de mil exemplares de povos.

Pela manhã, aparecia à janela, como um lindo sol feminino, uma bela mulher, forte, alta, loira, de flavos cabelos talhados dum golpe numa quente e perfumosa massa de luz e de sangue, clara da epiderme macia e clara nos rendados vestidos em fofos e folhos que lhe afogavam soberbamente a garanta bourbônica, arrematados por fitas de azul leve e doce, graciosamente enlaçarotadas sobre o sedoso colo oválico.

E logo seus olhos azues como as fitas, da mesma meiga frescura e candidez de hóstia transparente, pareciam adejar, voar, como dois pássaros inquietos e deslumbrados, pela amplidão das vagas verdes e vivas, como se ambos quisessem nelas colher alguma certeza ou derramar alguma esperança.

E o seu perfil, sob o sol, alvorecido na janela, lavado nas frescas essências salitrosas que emanavam do mar, tinha florescimentos, resplandecências, um vivo fulgor d’ouro novo, derramando no ambiente eflúvios de magnólia.

Às vezes ela deixava-se ficar por mais tempo à janela - e era então ali uma deliciosa e cristalina ária de trinados, de matutinos gorjeios de pequenas aves que por entre a viçosa verdura da janela esvoaçavam em ruflos e contentamentos d’asa, em palpitações elétricas de plumagem, cantando para o espaço todo esse sonoro amor infinito dos pássaros que a sua estreita laringe metálica tão maravilhosamente sabe desfolhar em notas, como se essa mulher loira fosse a corporificação da própria aurora que raiasse doirada no acanhado horizonte enquadrado na florida janela verde.

E ficava ali constantemente a olhar, a ver o mar, talvez na esperança de algum sonho de afeto que de repente lhe surgisse e cuja enamorada lembrança lhe vibrasse o coração anelante, fazendo dolentemente o seu colo arfar, agitar-se numa onda nervosa de convulsão e alvoroço, inflado desse tormentoso e vago desejo irresistível do amor, que um dia vertiginou o mundo, e que, quanto mais afastado se está de quem se adora, mais fundo, mais entranhado fere e martiriza.

Pelas noites, quando o hostiário das estrelas abria a sua rendilhada cintilação de prata nos sidérios espaços calmos, ou as finíssimas gazes lácteas da lua flutuavam, velando tudo, ela, virgem noiva, branca e muda como a lua, por lá ficava ainda a viajar na gôndola da imaginação e fantasiosa saudade que a emocionava, através do mar, ao encontro sonhado do seu afeto querido.

E, tonta, magnetizada, narcotizada na emoliente volúpia da lua, na quente exalação dos aspectos, lá adormecidamente ficava a amar, presa na fluida teia luminosa das estrelas e da lua...



Agora um muro enriquecido e alto que o musgo e o limo maciamente vestem de um veludoso verde escuro de tapeçaria, veio para sempre obstar a ampla vista azotada e alegre do edificante panorama do Mar.

Para além, como um gigantesco protesto que a pedra opusesse às jubilosas, triunfantes, águas marinhas, o vai, longo e impenetrável, estendido em pano ríspido de parede socavada e cerrada, que tudo do mar avaramente encobre - levantado da terra como um brusco e bronco biombo de terra à livre expansão da luz.

Austeros homens egoístas, no intuito de edificar, apropriaram-se dos terrenos e para ali ergueram, dividindo-os, semelhante à rija muralha d’imperecível fortaleza, esse imenso muro empedernido, rochoso, como que feito de um só bloco inteiriço de calcárea matéria rude.

Então, sem a perspectiva da alacridade vitoriosa e bizarra das ondas, sem aquela vastidão consoladora, salutar, das águas salgadas, e sem a visão branca dessa mulher, vive agora quase sempre fechada, triste e fria a reluzente vidraça clara eternamente descida, na meia sombra crepuscular da persiana, a idealizada janela verde - a florejante janela que abria, como um desejo vago, para o Mar infinito...