A maçã e a polícia

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A maçã e a polícia
por Lima Barreto
Crônica agrupada posteriormente e publicada em Marginália


Noticiam os jornais que a polícia por intermédio de seus agentes e prepotentes, anda a vigiar a A Maçã, semanário que o ilustre poeta Humberto de Campos publica com um sal que, se não é de azedas, deve ser ático.

Sou escritor e, se mérito outro não tenho, me gabo de ser independente.

Sendo assim, não admito críticas a meus livros e aos meus escritos senão aquelas provindas de escritores que como eu não dispõem de força, nem de chanfalho. Admitir que um simples delegado de polícia ou uma praça de pré do meu amigo coronel Badaró esteja nos casos de julgar os meus escritos, é abdicar do meu esforço silencioso e doloroso durante vinte anos, para dizer o meu pensamento sincero - o que julgo essencial em ajuda da maior felicidade da comunhão humana.

A polícia, pela sua feição própria, é incapaz desse papel de censura de qualquer manifestação de pensamento.

Ela é uma emanação do governo; e é da natureza dos governos não admitirem crítica. Quando se os critica, ela apela para a ordem e para a moralidade. Dai o perigo que há em se entregar à polícia, qualquer poder que incida sobre a liberdade de pensamento. Fazendo-a, ela faz obra dos governos e em qualquer trecho do escrito, ela encontra atentados à moral. Perguntarei aos policiais: o que é moral? Eles não saberão dizer; e, se o souberem, dirão que é a homenagem que o vício presta à virtude, disfarçando-se e escondendo-se.

O que o Sr. Humberto de Campos escreve na sua revista é do conhecimento de todos nós, inclusive do da polícia; e, se ele edita o que edita, embora eu fosse incapaz de fazer o mesmo, a responsabilidade dele não pode ser diante de simples apitos de polícia e delegados, cuja competência em tal assunto não tem nenhuma base na lei e nos costumes.

Polícia foi feita para prender gatunos e assassinos e nunca para fazer crítica literária, sob qualquer ponto de vista. Que "pataqueiros", fabricantes de "revistas" e "peças" de duvidoso mérito a ela se sujeitem, admito; mas, um escritor celebrizado, que usa da liberdade de crítica que as leis lhe facultam, o faça, não posso conceber.

Conforme se diz em estilo diplomático, eu protesto contra a censura policial feita à revista de Humberto de Campos, em nome da liberdade de pensamento e tendo em vista a incompetência literária da polícia para fazer censura de escritos e a sua falta de autoridade moral.

Careta, 1 1-3-1922.