A mulher cearense/I

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A mulher cearense por Abel Garcia
Parte I


Neste breve ensaio sobre o espirito da mu­lher cearense, expomos apenas o que se nos afigura sufficiente para a elucidação do assumpto e póde ajustar-se à capacidade de um artigo de re­vista.

E’ uma parca contribuição para o estudo da psychologia e do modus vivendi social da mulher ’nesta porção da patria brazileira. Dar-lhe-hemos mais amplo desenvolvimento, accumulando maior material de observacões proprias e pesquizas dire­ctas, em trabalho posterior, de que a presente exposição é simplesmente um escorço.

Embora as affirmações que vamos avançar, parecam um prurido de innovacões, aos esptritos amollecidos pela doçura da inactividade, que deli­ciam-se afogados no nirvana da indifferenca e es­tão sempre prestes a aguçar a ponta do estyleto do desdem contra os portadores de quaesquer verdades, vêm ellas a publico escudadas com o prestigio da sciencia e a força de ideias bem accentuadas.

A critica historica dos acontecimentos huma­nos ’nesta provincia, explicando a sua marcha e as condições de meio em que se produziram, e a observação no actual momento evidenciam a diffrença que ha entre o caracter cearense e a indole dos demais habitantes do paiz. Facilmente se reconhecerá isto com fundamento verdadeiramente scientifico si attender-se à infinita variedade de agentes ou influencias locaes, que têm aqui actuado sobre a vida humana.

Si é certo que as acções do homem são sem­pre influenciadas pelo meio que habita, por seu organismo e por suas aptidões adquiridas hereditariamente, convem explanar o processo pelo qual o typo physico e moral do cearense chegou a differenciar-se das feições caracteristicas dos brazilei­ros em geral.

No Ceará o homem é activo, arrojado e im­pressionavel. As fatalidades do meio deram-lhe às formas da vida a mais forte organisação. Educado na luta, energico pela necessidade, tem mais de uma vez attestado brilhantemente o sentimento profundo de sua força.

Não basta-lhe a placidez da família, a vida in­tima: ha em sua alma uma aspiração mais vigorosa, um apuro de sensibilidade que toca muita vez às raias da febre em que um nada mesmo o lança. Necessite a communhão cearense defender-se da implacabilidade dos elementos naturaes conjurados contra ella ou, cedendo ao movimento da civilisação, ao impulso de novos sentimentos, procure apagar os derradeiros traços de uma instituição antipathica à sua indole democratica como a es­cravaria, elle mostra-se abnegado até o sacrificio. O enthusiasmo vibra em seu ser com a sonoridade do crystal. Então é apaixonado, tempestuoso, deixa-se conduzir nos võos da imaginação vivaz e instavel

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