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Suspiros poéticos e saudades (1865)/A Poesia

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III.
 
A POESIA.
 
Um Deos existe, a Natureza o attesta:A voz do tempo sua gloria entôa,De seus prodigios se accumula o espaço;E esse Deos, que criou milhões de mundos,   Mal queira, n’um minuto,Póde ainda criar mil mundos novos.
Os que nos leves ares esvoaçam,Os que do vasto mar no fundo habitam, Os que se arrastam sobre a dura terra,E o homem que para o céo olhos eleva,Todos humildes seu Auctor adoram.
Todos te adoram, sim, meu Deos, mas como?Este no sol te vê, na lua aquelle,Qual um touro te crê, qual um tyranno;E entre sí disputando a preferencia,Todos ufanos conhecer-te julgam.
No céo rutíla o sol, e sobre a terraCaiem seus raios como chuva de ouro;Mas cada flor, um raio recebendo,De um esmalte diverso se colóra.
Oh tu, qu’eu amo como casta virgem!Sim, tu és como Deos, diva Poesia!Sim, tu és como o sol!.. Por toda parteCultos te rendem de uma zona á outra;   Cada mortal te off’receUm culto igual á força de sua alma;Qual te julga uma virgem do Permessо,   Só de ficções amiga;    Qual da verdade o Anjo,Que tudo vê com olhos luminosos.Tua voz similhante a uma torrenteTudo abala, e comsigo arrasta tudo.
Oh Poesia, oh vida da Natura!   Oh suave perfume   D’alma humana exhalado!Oh vital harmonia do Universo!Tu não és um phantasma da belleza,Fallaz sonho de mente delirante,   E da mentira a deosa;Tu não habitas só da Grecia os montes,Nem só de Phebo a luz te inspira o canto!
De alvo manto coberta, roçagante,La no meio da noite, quando a luaSó para os mortos alvejar parece,Como a lanterna funebre do claustro,Tu, encostada á Cruz do cemiterio,   Como o Anjo da morte,Ao som de uma harpa suspirando exhalasDe quando em quando teus sagrados psalmos. Quando tu pausas, gemebundo o ventoVai tambem entre os lugubres cyprestesTeus ultimos accentos murmurando.
Nas cavas sepulcraes som luctuoso   De tua voz rebôa.Dirías que animados por teu canto,Os myrrados cadaveres se elevam   Do fundo dos jazigos,   E sobre as lousas curvos,Cantam n’um côro o mystico estribilho.
Sobre o bronco alcantil de alpestre fraga,Pelos tufões batida, e pelas ondas,   Que incessantes se entonam,   Tu, sentenda, qual virgem   Do naufragio escapada,O mar contemplas, do infinito imagem;E depois para Deos erguendo os olhos,Teus olhos como dous fanaes accesos,Que dos céos co’as estrellas rivalisam,E ao viajante ao longe o escolho indicam;Ao compasso das vagas gemebundas, Tua angelica voz, como um effluvio,Do mais intimo d’alma a Deos exalças.
Sobre montes de ruínas dos Imperios,Entre reliquias de abatido templo,Ao qual somente o céo de tecto serve,E de lampada a lua, tu vagueas,E te aprazes co’os serios pensamentos,   Que os destroços inspiram.
No campo da batalha, o chão juncadoDe ossos que alvejam, de quebradas armas,Que sublimes lições aos homens dictas!
   Tu és tudo, oh Poesia!   Tu stás na paz, e na guerra,   Nos céos, nos astros, na terra,   No mar, na noite, no dia!
     Oh magico Nume,     Que minha alma adora,     Do céo sacro lume,     Que abrasa, e vigora     O meu coração!
     Tu és o perfume,     E o esmalte das flores,     Dos soes os fulgores,     Dos céos a harmonia,     Do raio o clarão!
     Tu és a alegria     De uma alma piedosa,     E a voz luctuosa,     A voz d’agonia,     Que escapa do peito,     De quem vai do leito     Á terra baixar.     Tu és dos desertos     O som lamentoso,     E o echo choroso     Das vagas do mar.
     Tu és a innocencia,     E o riso da infancia,     Do velho a prudencia,     Do moço o vigor,     Do heróe a clemencia,      Do amor a constancia,     Da bella o pudor.
Tu, que cantaste o hymno da innocencia.Quando immovel ainda repousavaNo berço do Oriente a Humanidade;Tu, que cantando sempre a acompanhasteNos seus dias de dôr, ou de triumpho;Acaso morrerás tambem com ella?Ou sem ti, como um astro em seu eclipse,Se arrastará sem vida a Humanidade,Até toda no tumulo sumir-se?
   Quando o sol, que é tua imagem,   No seu zenith apagar-se,   E tudo outra vez do nada   No escuro golfo abysmar-se:
   Tu, que és a imagem do Eterno,   Terás fim nesse momento?   Ou terás nova existencia   Do Senhor no pensamento?
   Sim; quando tudo extinguir-se,   Guardará Deos na lembrança   De tudo o que agora existe   Uma viva similhança.
   Essa image’ a Deos presente   Serás tu, oh Poesia!   Tu és do Eterno um suspiro,   Que enche o espaço de harmonia.

Veneza, maio de 1835.