A psicologia da ocupação

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A psicologia da ocupação
por John Dewey


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Obs. Inicial: ao invés de “ocupação”, usa-se hoje o termo “transacional”, terminologia que se auto-define, posto que sem outra significação em português. Como Dewey não criou um neologismo, julgamos oportuno, e mais claro, utilizar o termo ‘ocupação’ ao invés daqueloutro, sem outro sentido de ser, que não o de tornar menos claro o texto.(N.T.)

Por ocupação não entendemos que signifique “ocupar com trabalho” ou mesmo exercícios que sejam ministrados a uma criança para que esta fique concentrada em sua mesa de estudos, longe das distrações ou do ócio. Quando falo em ocupação quero me referir a um modo em que a criança reproduz uma atividade profissional, ou dirige-se paralelamente a ela, que possa continuar a ser desenvolvida depois, na vida social. Na escola elementar (University Elementary School) esta ocupação é representada pelo trabalho em madeira e uso de ferramentas, e ainda cozinha, costura e o trabalho têxtil.

O ponto fundamental da psicologia da ocupação é manter um equilíbrio entre a atividade intelectual e as fases práticas do aprendizado (experiência prática). Com a ocupação é atividade ou movimento – que encontra sua expressão pelos órgãos físicos (olhos, mãos, etc.), mas também envolve observação ininterrupta do objeto, planejamento continuado e reflexão, para que o lado prático ou de execução possa evoluir. Portanto, a ocupação, como concebemos, deve ser distinguida do trabalho de aprendiz de uma profissão. Distingue-se, pois seu fim está em si mesmo; no crescimento que há com a interação ininterrupta das idéias e sua aplicação na própria atividade – e não visando uma utilidade exterior.

É possível utilizar-se este tipo de trabalho nas diversas escolas profissionalizantes, de forma a diminuir o desinteresse pelo trabalho manual, ou corporal. Em tais cursos o trabalho fica reduzido a mera rotina ou hábito, perdendo o valor educacional. Isto verifica-se de forma inevitável porque, por exemplo no treinamento manual, busca-se o domínio de determinadas ferramentas, ou a produção de certos objetos, que é o fim que se procura conseguir, enquanto à criança não se oferece, na medida do possível, a responsabilidade intelectual para escolher os materiais e instrumentos a que melhor se adapta, nem tampouco se lhe dá a chance de idealizar seus próprios modos de trabalho e produção, perceber seus próprios erros, descobrir como corrigi-los, dentro de sua capacidade. Assim que os resultados externos são obtidos, em vez de ter o desenvolvimento intelectual e moral de crescimento envolvido no processo de alcançar o resultado, o trabalho pode ser chamado de ação (manual), mas não pode ser definido exatamente como ocupação. É claro que haverá a tendência de que se torne um mero hábito, uma rotina, um costume, com ações meramente inconscientes e mecânicas. Já na ocupação busca-se pôr o máximo de consciência em tudo o que se faz. Isto nos permite compreender a tensão da experimentação pessoal, do planejamento, de recriação no trabalho têxtil, e até traçar um paralelo com sua evolução histórica. No primeiro caso a criança é exigida para um aprendizado mental ligeiro e total atenção para que faça seu trabalho externo corretamente. No segundo, há o enriquecimento com o conhecimento do trabalho executado, ao mesmo tempo que são ministrados os valores para a vida social na qual se insere.

A ocupação, assim considerada, fornece ocasiões ideais para desenvolver um senso de treinamento e disciplina do pensamento. A fraqueza das lições ordinárias de observação, calculada para treinar os sentidos, é que elas não tem qualquer utilidade fora da própria atividade treinada, e conseqüente nenhuma motivação. Na vida natural o indivíduo sempre encontra uma razão para desenvolver os sentidos e a observação. Sempre existe um pouco de necessidade, quando se busca um fim a ser alcançado, que faz com que se olhe atentamente para desvendar e selecionar tudo o que poderá ajudar. As sensações normais operam como pistas, como auxílios, como estímulos, direcionando a atividade que se realiza – elas não são um fim em si mesmas. Separadas das reais necessidades e motivos, a atividade treinada torna-se uma mera ginástica e muito facilmente encontram na realização de coisas mais difíceis nada mais do que mera destreza ou repetição da observação, ou então mero exercício dos órgãos dos sentidos.

O mesmo princípio se aplica no pensamento normal. Também não ocorre em sua causa própria, nem termina em si mesmo. Ele surge da necessidade em desvendar alguma dificuldade, reflete sobre como superá-la, e assim leva ao planejamento, a projetar o resultado mentalmente, decidindo os passos necessários e sua ordem de execução. Esta operação lógica concreta de longa ação precede a lógica de pura especulação ou investigação abstrata, e pelos hábitos mentais que forma é o melhor preparo para o futuro.

Outro ponto educacional em que a psicologia ocupacional torna-se útil é tornar o trabalho escolar como um lugar interessante. Uma das objeções que comumente são interpostas contra o trabalho na escola ser alto interessante para a criança é a impossibilidade de se ter bases para uma seleção. A criança, dizem, tem todos os tipos de interesses: bom, ruim, e indiferente. É necessário decidir entre os interesses que são realmente importantes e aqueles que são meramente triviais, entre os que são úteis e aqueles que são nocivos. Entre os que são transitórios ou marcam uma excitação efêmera, e aqueles duradouros e que permanentemente influenciam. Isto parece que temos que ir além do interesse para conseguir usar o próprio interesse.

Ora, não pode haver nenhuma dúvida de que o uso da ocupação com trabalho possui um forte interesse pela criança. Um olhar de relance em qualquer escola onde tal atividade seja desenvolvida dará provas suficientes desta verdade. Fora da escola, uma grande quantidade das brincadeiras infantis nada mais é que a miniatura e a tentativa de reproduzir as ocupações sociais.

Há razões para acreditar que o tipo de interesse que ressalta nestas ocupações é completamente saudável, permanente, e verdadeiramente educativo, e que o uso da ocupação é um excelente, talvez o melhor, modo de atrair espontaneamente a atenção e interesse da criança. E, ao mesmo tempo, garante que não estamos lidando com algo apenas prazeroso, fruto da excitação ou efêmero. Em primeiro lugar, todo interesse surge com um pouco de instinto ou com algum hábito que também se baseia num instinto original. Não se infere disso que todo instinto seja de igual valor, ou que não herdamos muitos instintos que não necessitem de transformação, para que sejam satisfeitos e sejam úteis na vida. Mas a solução consciente dos desafios ligam os instintos, com uso da expressão, com uso da ocupação para ser algo fundamental e permanente. As atividades da vida são dirigidas pela necessidade em trazer os objetos e forças da natureza para sob o controle dos nossos propósitos; para a fabricação dos bens que melhorem a vida. Os homens precisam trabalhar para viver. E foi pelo trabalho que o homem dominou a natureza, protegeu e enriqueceu sua própria condição de vida, despertando para a consciência de seu próprio poder – foi assim levado a inventar, planejar e adquirir habilidades.

A grosso modo, todas as ocupações podem ser classificadas como um ajuntamento das relações fundamentais do homem com o mundo onde mora e em que adquire comida para viver, roupa e abrigo para se proteger e habitar e, assim, finalmente, prover-se de uma moradia permanente na qual todos os seus interesses mais altos e espirituais possam estar centralizados. É irracional supor que este interesse seja decorrente da sorte, do acaso.

Em segundo lugar, estes interesses desenvolvidos pela criança não apenas recapitulam as atividades importantes do ser humano, mas reproduzem para elas o ambiente presente. Elas veem os mais velhos ocupados em tais atividades continuamente. Diariamente veem as coisas que são resultado de tais ocupações. Entra em contato com fatos (objetos prontos) que não têm nenhum significado, muito menos referencia para elas. Retirando estas coisas da vida social presente e verá como bem pouco interesse desperta-se – e isto não apenas do lado material, mas no desenvolvimento intelectual, estético e moral, pois eles crescem com as ocupações. Os interesses instintivos das crianças neste sentido são, então, constantemente reforçados pelo que elas veem, pegam, ouvem habitualmente ao seu redor. Sugestões neste sentido vêm continuamente em suas direções; despertam as motivações; suas energias são convidadas a agir. Novamente, não é irracional que se suponha que aquilo que é tocado, em toda parte, desperte um interesse do tipo bom e permanente.

Em terceiro lugar, está uma das objeções feitas ao princípio do interesse é que esta forma educacional cuida da desconstrução da economia mental, eliminando a continuidade e eficácia. Mas uma ocupação (como a têxtil, que atrás referimos), é necessariamente algo contínuo. Dura, não apenas uns dias, mas meses e anos. Representa, não um uso das energias isoladas e superficiais, mas uma organização bastante fixa, contínua e de uso das energias ao longo de uma meta. O mesmo é válido, obviamente, para a carpintaria, ou a culinária. As ocupações articulam uma ampla variedade de impulsos, ao invés de separá-los ou torná-los espasmódicos, sobre um sólido esqueleto, com uma firme coluna vertebral. Isto pode ser duvidoso, se colocado como uma atividade escolar isolada, inabitual e não progressiva, como caroços espalhados ao longo da escola, mas atenderá ao princípio do “interesse”, se estiver centrado num grande espaço para o trabalho na escola.


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