A vocação d'Ibrahim

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A vocação d'Ibrahim
por António Feijó


A Aristides da Motta


Outros a quem impugna Genebrado, in Chronologia dizen que fue
Abraham Idolatra como su padre, y le ayudava a su padre Thare a
hazer Idolos de barro, y San Clemente Alexandrino, en el lib. I
recognitionem, y Suydas, in verbo Abrahan: dizem que fue primero
infiel empero que fue tan eminente en el Astrologia, que por el
conocimiento natural de las estrellas conveiò al verdadero Dios.

Prosapia de Christo, por el L.^{do} Diego Matute de Penafiel,
fol. 109.


Vendo, mudos á Dor, os Idolos grosseiros,
Que o oleiro antigo e rude em barro modelava,
Ibrahim despedaça os Deuses derradeiros,
E as terras de Ur, familia e patria, abandonava.

Só, na noite profunda e num amplo deserto,
Sem que o sitio onde está e a estrada reconheça,
— Numa nesga de ceu quasi todo encoberto,--
Viu um Astro a luzir sobre a sua cabeça.

E absorto nessa luz que do alto cahia,
Como um pressentimento augusto a illuminá-lo,
Bradou, cheio da paz que sôbre elle descia:
— «Eis o Deus verdadeiro!»--e prostrou-se a adorá-lo.

Mas o Astro immergiu na curva em que fluctua,
Quando o Luar rompeu como um vasto luzeiro;
E attonito, Ibrahim pensava, olhando a Lua:
— «Deus não pode esconder-se! Eis o Deus verdadeiro!»

E outra vez, como chuva em calcinada areia,
A paz, ao seu turbado espirito baixara;
Parecia-lhe agora, esse luar da Chaldeia,
Que tinha uma outra luz, mais ardente e mais clara.

Mas a Lua descreve a orbita marcada
E some-se ao primeiro esplendor do arrebol;
Borda todo o horizonte uma fimbria doirada,
E entre nuvens a arder surge o orbe do Sol.

Como o homem que sae d'um longinquo desterro,
E de subito encontra o lar e encontra os seus,
Ibrahim mede o abysmo enorme do seu erro,
E de joelhos proclama:--«Eis o unico Deus!»--

Mas a tarde descia, e Elle, sempre de rastros,
Perdido na abstracção do seu culto fervente,
Quando os olhos ergueu já luziam os astros,
E do Sol mal se via um clarão no occidente.

Então, no seu assombro, o espirito perplexo,
Exalta-se, e da immensa altura a que ascendeu
Viu em tudo o que existe apenas o reflexo
D'um invisivel Ser que fez a Terra e o Ceu...