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Alice no País das Maravilhas (Trad. Lobato, 8ª edição)/Prefácio

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PREFÁCIO


HÁ SESSENTA e tantos anos um professor de matemática de Oxford, Lewis Carroll, muito amigo das crianças, fêz um passeio de bote pelo Tâmisa com três menininhas. Para diverti-las foi inventando uma história de que elas muito gostaram. Chegando em casa teve a idéia de escrever essa história — e assim nasceu para a biblioteca infantil universal mais uma obra-prima — “Alice in Wonderland.”

Ficou famoso o livro entre os povos de língua inglêsa. Foi traduzido em outros idiomas. Seu autor imortalizou-se.

Hoje aparece em português. Traduzir é sempre difícil. Traduzir uma obra como a de Lewis Carroll, mais que difícil, é dificílimo. Trata-se do sonho duma menina travêssa — sonho em inglês, de coisas inglêsas, com palavras, referências, citações, alusões, versos, humorismo, trocadilhos, tudo inglês, isto é, especial, feito exclusivamente para a mentalidade dos inglesinhos.

O tradutor fêz o que pôde, mas pede aos pequenos leitores que não julguem o original pelo arremêdo. Vai de diferenças a diferença das duas línguas e a diferença das duas mentalidades, a inglêsa e a brasileira.

Há dois anos o original manuscrito de “Alice in Wonderland”, do próprio punho do autor, apareceu num leilão de

livros velhos em Londres. Vários pretendentes o disputaram, entre êles o Museu Britânico, que havia destinado para a sua aquisição uma verba de 12.500 libras esterlinas. Essa verba foi insuficiente. Um americano apareceu, que lançou mais e afinal ficou com o manuscrito pela quantia de 15.400 libras, ou 75.259 dólares. Qualquer cousa como um milhão e quinhentos mil cruzeiros ao câmbio de hoje. Isto mostra o alto grau de aprêço em que em certos países é tida a obra literária.

As crianças brasileiras vão ler a história de Alice por artes de Narizinho. Tanto insistiu esta menina em vê-la em português (Narizinho ainda não sabe inglês), que não houve remédio, apesar de ser, como dissemos, uma obra intraduzível.

— Serve assim mesmo, disse ela ao ler a tradução da primeira parte hoje publicada (a segunda “Through The Looking Glass”, inda é mais maluca)[1]. Dá uma idéia, embora “muito pálida”, como diz a Emília”...

Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.


Caso seja uma obra publicada pela primeira vez entre 1929 e 1977 certamente não estará em domínio público nos Estados Unidos da América.
  1. Vide o outro volume desta série, Alice no País do Espelho.