Allegros e surdinas

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Allegros e surdinas
Virgílio Várzea e Cruz e Sousa
Texto publicado em Tropos e Fantasias (1885).


A B. Lopes

FOI PELA PRIMAVERA.

A natureza fecunda e prodigiosa, extasiava o raciocínio com as pompas exuberantes, com a fertilização da verdura.

As flores abriam-se, como os risos alegres e vibrantes da terra.

Havia nos espaços, profundamente calmos, a expansibilidade suavíssima das coisas.

Pairava em tudo como que o amor espiritualizado.

Foi pela primavera.

A falange gloriosa dos canários, dos coleiros, dos gaturamos, dos sabiás, rasgava o horizonte, aqui e ali, de risadas apopléticas, que chocalhavam corno guizos, que tiniam, que bimbalhavam como campanários de aldeia.

Toda a floresta tomava a proporção de um deslumbramento equatorial.

As fontes, as cascatas, os ribeiros, sonoros, harmônicos, musicais, faziam coro na grande ópera da Criação.

A vitalidade, a seiva tinha erupções vulcânicas, desde os troncos mais hartos, até as mais frágeis raízes.

Cintilava, cantava o verde florido dos prados e o azul refrigerante dos céus.

Almas e almas vagavam, como silfos, corno asas, como nuvens e nuvens, pelas zonas consoladoras e luminosas do idealismo.

Trinos e trenos, por tudo.

A falange gloriosa dos canários, dos coleiros, dos gaturamos, dos sabiás, rasgava o horizonte, aqui e ali, de risadas apopléticas, que chocalhavam como guizos, que tiniam, que bimbalhavam como campanários de aldeia.

Uma simpatia boa acariciava por fora, a casinha alva, muito alva, encarapitada do cimo da colina.

Dentro, morrera o Gigi, uma criança, um beijo cristalizado, um sonho dos colibris; e as esperanças dos pais, imergiam, pela sombra melancólica das mágoas, como pombas, tristes, tristes...

Morrera o Gigi; a primavera da vida, na primavera da natureza.

E as névoas crepusculares que invadiam a tarde, penumbravam o aposento inteiro...

Nos objetos parecia haver também a reticência da dor.

E quando o foram conduzir para o túmulo, as estradas arenosas tinham aquela gravidade séria dos corações desamparados de crenças.

As lavadeiras, atravessando o caminho, em curvas, cantarolando, com as brancuras honestas de roupas à cabeça, punham tons de uma afabilidade rara no fúnebre trajeto.

Os ciprestes, silenciosos, acompanhavam aquela angústia, chorando as suas compridas lágrimas de orvalho.

Perfumes agrestes, espiralavam-se das matas verdes, fartas de florações viçosas e gastas.

Estendiam-se, para além, nas serras oblongas, alguns mugidos vagos de bois satisfeitos que pastavam deleitosamente.

E na extremidade curvilínea das praias, as ondas claras, espumantes, refletiam os coloridos silforamáticos que o sol produzia, frechando as colinas pedregosas e altanadas, parecendo, à movimentação do globo, resvalar pelo seu ocaso eterno e supremo, numa auréola de fogo.

Uma simpatia boa acariciava por fora, a casinha alva, muito alva, encarapitada no cimo da colina.

Dentro, morrera o Gigi, uma criança, um beijo cristalizado, um sonho dos colibris; e as esperanças dos pais, imergiam, pela sombra melancólica das mágoas, como pombas, pombas tristes, tristes...