Almas agradecidas/I

Wikisource, a biblioteca livre
< Almas agradecidas
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa

I.

 


Havia representação no Ginásio. A peça da moda era então a célebre Dama das camélias. A casa estava cheia. No fim do quarto ato começou a chover um pouco; do meio do quinto ato em diante, a chuva redobrou de violência.

Quando acabou o espetáculo, cada família entrou no seu carro; as poucas que não tinham esperavam uma estiada, e, mediante os guarda-chuvas, lá saíram com as saias arregaçadas.

.............. aos olhos dando,
O que às mãos cobiçosas vão negando.*

Os homens abriam os seus guarda-chuvas; outros chamavam tílburis; e pouco a pouco se foi despejando o saguão, até que só ficaram dois rapazes, um dos quais abotoara até o pescoço o paletó, e esperava maior estiada para sair, porque além de não ter guarda-chuva, não via nenhum tílburi no horizonte. O outro também abotoara o paletó, mas tinha guarda-chuva; não parecia, entretanto, disposto a abri-lo. Olhava de esguelha para o primeiro, que fumava tranqüilamente um charuto. Já o porteiro havia fechado as duas portas laterais e ia fazer o mesmo à porta central, quando o rapaz do guarda-chuva dirigiu ao outro estas palavras: — Para que lado vai? O interpelado compreendeu que o companheiro lhe ia oferecer abrigo e respondeu, com palavras de agradecimento, que morava na Glória. — É muito longe, disse ele, para aceitar o abrigo que naturalmente me quer oferecer. Eu esperarei aqui um tílburi. — Mas a porta vai fechar-se, observou o outro. — Não importa, esperarei do lado de fora. — Não é possível, insistiu o primeiro; a chuva ainda está forte e pode aumentar mais. Não lhe ofereço abrigo até casa porque moro na , onde encontraremos um tílburi. — É verdade, respondeu o rapaz que não tinha guarda-chuva; não me havia ocorrido isto, aceito com prazer. Saíram os dois rapazes e foram até ao Rocio. Nem sombra de tílburi ou caleça. — Não admira, disse o rapaz do guarda-chuva; foram todos com gente do teatro. Daqui a pouco haverá algum de volta... — Mas eu não quisera dar-lhe o incômodo de o reter mais tempo aqui à chuva. — Cinco ou dez minutos, talvez; esperaremos. A chuva veio contrariar estes bons desejos do rapaz, caindo com furor. Mas o desejo de servir tem mil maneiras de se manifestar. O rapaz do guarda-chuva propôs um meio excelente de escapar à chuva e esperar condução: era ir tomar chá ao hotel que mais à mão lhes ficasse. O convite não era mau; tinha só o inconveniente de vir de um desconhecido. Antes de lhe responder, o rapaz sem guarda-chuva deitou um rápido olhar ao seu companheiro, espécie de exame prévio da condição social da pessoa. Parece que a achou boa, porque aceitou o convite. — É levar muito longe a sua bondade, disse ele, mas eu não posso deixar de abusar dela; a noite está inclemente. — Eu também costumo esquecer o guarda-chuva, e amanhã estarei nas suas mesmas circunstâncias. Foram para o hotel e daí a pouco tinham diante de si um excelente pedaço de rosbife frio, acompanhado de não menos excelente chá. — Há de desculpar a minha curiosidade, disse o rapaz sem guarda-chuva; mas eu desejaria saber a quem devo a obsequiosidade com que sou tratado há vinte minutos. — Não somos inteiramente desconhecidos, respondeu o outro; a sua memória é que é menos conservadora do que a minha. — De onde me conhece? — Do colégio. Andamos juntos no colégio Rosa... — Andei lá, é verdade, mas... — Não se lembra do 0liveira? Aquele que trocava as réguas por laranjas? Aquele que desenhava com giz o retrato do mestre nas costas dos outros meninos? — Que me diz? É o senhor? — De carne e osso; eu mesmo. Acha-me mudado, não? — Oh! muito! — Não admira; eu era naquele tempo uma criança rechonchuda e vermelha; hoje como vê, estou quase tão magro como D. Quixote; e não foram trabalhos, porque eu não os tenho tido; nem desgostos, que eu ainda não os experimentei. O senhor, porém, é que não mudou; se não fosse esse pequeno bigode, pareceria o mesmo daquele tempo. — E todavia não me hão faltado desgostos, acudiu o outro; minha vida tem sido atribulada. A natureza tem destas coisas. — Casou? — Não; e o senhor? — Também não. A pouco e pouco começaram as confidências pessoais; cada um narrou aquilo que podia narrar, por maneira que, ao fim da ceia, pareciam tão íntimos como no tempo do colégio. Sabemos destas revelações mútuas, que Oliveira era bacharel em direito, e começava a advogar com pouco êxito. Herdara alguma coisa da avó, última parenta que conservara até então, tendo-lhe morrido os pais antes de entrar na adolescência. Estava com certo desejo de entrar na vida política e contava com a proteção de alguns amigos de seu pai, para ser eleito deputado à Assembléia Provincial fluminense. Magalhães era o nome do outro; não herdara de seus pais dinheiro, nem amigos políticos. Aos 16 anos, achou-se só no mundo; exercera vários empregos de caráter particular, até que conseguira obter uma nomeação para o Arsenal de Guerra, onde estava atualmente. Confessou que esteve a ponto de enriquecer, casando com uma viúva rica; mas não revelou as causas que lhe impediram essa mudança de fortuna. A chuva cessara de todo. Já uma parte do céu se havia descoberto deixando aparecer o rosto da lua cheia, cujos raios pálidos e frios brincavam nas pedras e nos telhados úmidos. Saíram os nossos dois amigos. Magalhães declarou que iria a pé. — Não chove mais, disse ele; ou, pelo menos, nesta meia hora; vou a pé até à Glória. — Pois bem, respondeu Oliveira; já lhe disse o número da minha casa e do meu escritório; apareça lá algumas vezes; folgarei de reatar as nossas relações da meninice. — Também eu; até breve. Despediram-se na esquina da Rua do Lavradio, e Oliveira enfiou pela de S. Jorge. Ambos foram pensando um no outro. — Parece ser um excelente rapaz este Magalhães, dizia o jovem advogado consigo; no colégio, foi sempre um menino sério. Ainda o é agora, e até parece um pouco reservado, mas é natural porque sofreu.