Alto: divino impossível

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Chora o poeta a ultima resolução de seu idolatrado impossivel tam merecedora destes delicados versos.
por Gregório de Matos
Poema agrupado posteriormente e publicado em Crônica do Viver Baiano SeiscentistaA Cidade e seus PícarosÂngela

Alto: divino impossível,
de cuja dificuldade,
formosura, e discrição
qual é maior, não se sabe.
Se impossível pelo estado,
a dificuldade é grande,
pois casada, e a teu gosto
que força há de conquistar-te?
Se impossível na dureza,
a ser pedra incontrastável,
basta ser de lavradora,
para que nunca se lavre.
Se impossível pelo estorvo
da família vigilante
é o impossível maior,
que ao meu coração combate.
Mas se és, divino impossível,
de tão alta divindade,
creio, que esperanças mortas
ressurgirás a milagres.
Se és um milagre composto
de neve incendida em sangue,
e sempre o Céu de tou rosto,
mostra dois astros brilhantes:
As mãos umas maravilhas,
um par de jesmins as faces,
o corpo um garbo vivente.
os pés um vivo donaire:
Se são milagres divinos,
Francelinda, as tuas partes,
para viver, quem te adora,
que farás. senão milagres!
Dá-me por milagre a vida
na esperança de lograr-te,
verás ressurgir com glória
uma esperança cadáver.
E se és enigma escondido,
eu sou segredo inviolável,
pois ouves, e não percebes,
quem te diz, o que não sabes.
De que selve a discrição,
com que o teu nome ilustraste,
sendo a Palas destes tempos,
Minerva destas idades.
Discorre em tuas memórias
os dias, manhãs, e tardes,
que foste emprego de uns olhos,
que mudamente escutaste.
Porque uns olhos, que atrevidos
registam a divindade
são sempre d'alma rendida
emudecidas linguagens.
Lembra-te, que em tua casa,
onde cortês me hospedaste,
não me guardaste o seguro
das leis da hospitalidade.
Por que matando-me entonces
traidoramente suave
me calei eu, por guardar
essas leis, que tu violaste.
Se inda não cais, em quem sou,
porque me estrova explicar-me
de uma parte o teu decoro,
e o meu temor de outra parte.
Terei paciência por ora,
té que me tire os disfarces
Amor, que com se vendar,
me deu lições de vendar-me.
E se penetras, quem sou,
porque já o conjeturaste,
e escolhes de pura ingrata
não crer-me, por não pagar-me:
Recorre à tua beleza,
que sei, que ela há de obrigar-te
a crer, que em minhas finezas
corto por multas verdades.
E pois me toca pesar
as tuas dificuldades,
e a ti tua formosura
e discrição pesar cabe.
Julguemos ambos de dois,
qual dá cuidado mais grande,
formosura, e discrição,
ou tantas dificuldades.