Americanas/Ultima jornada

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Americanas
por Machado de Assis
Ultima jornada
Edição de referência: Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1875. páginas 173-181.

ULTIMA JORNADA[1]


Ils croyent les ames eternelles, et celles
qui ont bien merité des dieux estre logees
à l′endroict du ciel où le soleil se leve; les
mauldictes, du costé de l′occident.

Montaigne, Essais, liv, i c. xxx.



I

E ella se foi n′esse clarão primeiro,
Aquella espôsa misera e ditosa;
E elle se foi o perfido guerreiro.


Ella serena ia subindo e airosa,
Elle á fôrça de incognitos pesares
Dobra a cerviz rebelde e luctuosa.

Iam assim, iam cortando os ares,
Deixando em baixo as fertiles campinas,
E as florestas, e os rios e os palmares.

Oh! candidas lembranças infantinas!
Oh! vida alegre da primeira taba!
Que aurora vos tomou, aves divinas?

Como um tronco do matto que desaba,
Tudo cahiu; lei barbara e funesta:
O mesmo instante cria e o mesmo acaba.

De esperanças tamanhas o que resta?
Uma historia, uma lagryma chorada
Sôbre as últimas ramas da floresta.

A flor do ipê a viu brotar maguada,
E talvez a guardou no seio amigo,
Como lembrança da estação passada.


Agora os dous, deixando o bosque antigo,
E as campinas, e os rios e os palmares,
Para subir ao derradeiro abrigo,
Iam cortando lentamente os ares.



II

E elle clamava á moça que ascendia:
« — Oh! tu que a doce luz eterna levas,
E vas viver na região do dia,

«Ve como rasgam barbaras e sevas
As tristezas mortaes ao que se afunda
Quasi na fria região das trevas!


«Olha esse sol que a creação inunda!
Oh quanta luz, oh quanta doce vida
Deixar-me vae na escuridão profunda!

«Tu ao menos perdoa-me, querida!
Suave espôsa, que eu ganhei roubando,
Perdida agora para mim, perdida!

Ao maldito na morte, ao miserando,
Que mais lhe resta em sua noite impura?
Sequer allivio ao coração nefando.

«Nos olhos trago a tua morte escura.
Foi meu odio cruel que ha decepado,
Ainda em flor, a tua formosura.

«Mensageiro de paz, era enviado
Um dia a taba de teus paes, um dia
-Que melhor fora se não fora nado.
Ali te vi; ali, entre a alegria
De teus fortes guerreiros e donzellas,
Teu doce rosto para mim sorria.


«A mais bella eras tu entre as mais bellas,
Como no ceu a creadora lua
Vence na luz as vívidas estrellas.

«Gentil nasceste por desgraça tua;
Eu covarde nasci; tu me seguiste;
E ardeu a guerra desabrida e crua.

«Um dia o rosto carregado e triste
A taba de teus paes volveste, o rosto
Com que alegre e feliz d′ali fugiste.

«Tinha expirado o passageiro gosto,
Ou o sangue dos teus, correndo a fio,
Em teu seio outro affecto havia posto.

«Mas, ou fôsse remorso, ou ja fastio,
las-te agora leve e descuidada,
Como folha que o vento entrega ao rio.
«Oh! corça minha fugitiva e amada!
Anhangá te guiou por mau caminho,
E a morte poz na minha mão fechada.


«Feriu-me da vingança agudo espinho;
E fiz-te padecer tão cruas penas,
Que inda me doe o coração mesquinho.

«Ao contemplar aquellas tristes scenas,
Aa aves, de piedosas e sentidas,
Chorando foram sacudindo aspennas.

«Não viu o cedro ali correr perdidas
Lagrymas de materno amado seio;
Viu somente morrer a flor das vidas.

«O que mais houve da floresta em meio
O sinistro expectaculo, de certo
Nenhum extranho contemplal-o veiu.

«Mas, se alguem penetrasse no deserto
Vira cahir pesadamente a massa
Do corpo do guerreiro; e o craneo aberto,

«Como se fôra derramada taça,
Pela terra jazer, ali chamando
O feio grasno do urubu que passa.


«Em vão a arma do golpe irão buscando,
Nenhuma houve; nem guerreiro ousado
A tua morte ali foi castigando

«Talvez, talvez Tupan, desconsolado,
A pena contemplou maior do que era
O delicto; e de colera tomado,

«Ao mais alto dos Andes estendera
O forte braço, e da arvore mais forte
A setta e o arco vingador colhera;

«As pontas lhe dobrou, da mesma sorte
Que o junco dobra, sussurrando o vento,
E de um so tiro lhe enviou a morte.»

Ia assim suspirando este lamento,
Quando subitamente a voz lhe cala,
Como se a dor lhe suffocára o alento.

No ar se perdêra a lastimosa falla,
E o infeliz, condemnado à noite escura,
Os dentes range e treme de encontral-a.


Leva os olhos na viva aurora pura
Em que ve penetrar, ja longe, aquella
Doce, mimosa, virginal figura.

Assim no campo a timida gazella
Foge e se perde; assim no azul dos mares
Some-se e morre fugidia vela.

E nada mais se viu fluctuar nos ares;
Que elle, bebendo as lagrymas que chora,
Na noute entrou dos immortaes pesares,
E ella de todo mergulhou na aurora.




Notas[editar]

  1.     Não me recordo de haver lido nos velhos escriptos sôbre os nossos aborigenes a crença que Montaigne lhes attribue acerca das almas boas e más. Este grande moralista tinha informações geralmente exactas a respeito dos indios; e a crença de que tratamos traz certamente um ar de verosmilhança. Não foi so isso o que me induziu a fazer taes versos; mas também o que achei poetico e gracioso na abusão.