Anarda chorando

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Anarda chorando
por Manuel Botelho de Oliveira


Se o mar da beleza temes,
Alerta, amoroso peito,
Alije-se uma esperança,
Amaine-se um pensamento.

Tempestades lagrimosas
Te provocam os receios;
Pois vejo o dia nublado,
Pois não vejo o Céu sereno.

Porém não temas, covarde,
Que na cor do rosto belo
Navego em maré de rosas,
Em um mar leite navego.

Mas inda naqueles olhos
Fatal prodígio me temo;
Quem viu água em brasas duas?
Quem viu chuva em dois luzeiros?

Não são piedade os suspiros,
Nem seu pranto, pois é certo
Brotar chamas ũa pedra,
Abrir fontes um rochedo.

Se são Astros, que me influem,
Amor, com razão receio
Impiedades nos cuidados,
Infortúnios nos desejos.

Vai a meu peito, e seus olhos
Pelo amor, pelo tormento
Da vida os fios cortando,
Do pranto os fios vertendo.

Naquelas águas Cupido,
Por avaro, e por severo,
Das chamas excita a sede,
Das setas amola o ferro.

E quando as lágrimas param
Nas gentis faces, pondero
Que se faz rubi, parando,
O que era aljofre correndo.