Anarda doente

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Anarda doente
por Manuel Botelho de Oliveira


Anarda enferma flutua,
E quando flutua enferma,
Jaz doente a fermosura,
Está fermosa a doença.

Se nela a doença triste
Bela está, que será nela
De tanta graça o donaire!
De tanta luz a beleza!

Se o mal é sombra, ou eclipse,
É pensão das luzes certa,
Que ao Céu uma sombra aspire,
Que ao Sol um eclipse ofenda.

Cruéis prognósticos vejo,
Pois são ameaças feras,
O Sol entre eclipses pardos,
O Céu entre nuvens densas.

Quando as belas flores sentem
De Anarda a grave tristeza,
Digam-no as rosas na face,
Digam-no os jasmins na testa.

Faltam flores, faltam luzes,
Pois ensina Anarda bela
Lições de flores ao Maio,
E leis de luzes à Esfera.

As almas se admiram todas
Em repugnâncias austeras,
Vendo enferma a mesma vida,
Vendo triste a glória mesma.

Desdenhado Amor se vinga,
Se n'ânsia a febre a condena;
Pois qual ânsia amor se forja,
Pois qual febre amor se gera.

Basta já, Frecheiro alado,
Bate as asas, solta a venda;
Do rosto o suor lhe alimpa,
Do peito o ardor refresca.

Vem depressa, Amor piedoso
Que te importa, pois sem ela
Em vão excitas as chamas,
Em vão despedes as setas.

Mas não teme a morte Anarda,
Que se ũa morte a cometa,
Com mil almas se defende,
Com mil corações se alenta.

De mais sim que nunca a Parca
Contra Anarda se atrevera,
Que contra as frechas da Morte
Fulmina de Amor as frechas.