Anarda sangrada

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Anarda sangrada
por Manuel Botelho de Oliveira


É bem que desate Anarda
De tanto sangue os embargos;
Sendo o sangue rio alegre,
Sendo Anarda Abril galhardo.

Ensina no braço, e sangue
Com branco, e purpúreo ensaio,
A ser neve à mesma neve,
A ser cravo ao mesmo cravo.

Se bem num, e noutro efeito,
Faz Amor milagre raro;
Pois a neves une rosas,
Pois Dezembros une a Maios.

Se Anarda é vida de todos,
E o sangue à vida comparo:
Tantas vidas vai perdendo,
Quantos corais vai brotando.

Pára um pouco, e como teme
De haver dado morte a tantos,
Ficava presa à corrente,
Ficava sem sangue o braço.

E não mata a sangue frio,
Se com sangue está matando;
Pois aviva mil ardores,
Pois abrasa mil cuidados.

A sangue, e fogo publica
Guerra a meu peito abrasado;
A sangue em corais vertidos,
A fogo em olhos tiranos.

Corre o sangue, porque dizem
Que está corrido, admirando
Do rosto o carmim confuso,
Da boca o nácar rasgado.