Anseio

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Anseio
por Augusto dos Anjos


Quem sou eu, neste ergástulo das vidas

Danadamente, a soluçar de dor?!

- Trinta trilhões de células vencidas,

Nutrindo uma efeméride interior.


Branda, entanto, a afagar tantas feridas,

A áurea mão taumatúrgica do Amor

Traça, nas minhas formas carcomidas,

A estrutura de um mundo superior!


Alta noite, esse mundo incoerente

Essa elementaríssima semente

Do que hei de ser, tenta transpor o Ideal...


Grita em meu grito, alarga-se em meu hausto,

E, ai! como eu sinto no esqueleto exausto

Não poder dar-lhe vida material!


(Outras Poesias, 31)