Ao Correr da Pena/I/XXXII

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Ao Correr da Pena por José de Alencar
Parte I, Capítulo XXXII


Rio, 27 de maio

Desculpai-me!

Vou contar-vos uma coisa que me sucedeu ontem: é um dos episódios mais interessantes de minha vida de escritor.

Aposto que nunca viste escrever sem tinta!

Pois lede estas primeiras páginas, compreendereis como aquele milagre é possível no século atual, no século do progresso.

Eis o caso.

Foi ontem, por volta das dez horas. Estava em casa de um amigo, e aí mesmo dispunha-me a escrever a minha revista.

Sentei-me à mesa, e, com todo o desplante de um homem, que não sabe o que tem a dizer, ia dar começo ao meu folhetim, quando...

Talvez não acrediteis.

Tomei a pena e levei-a ao tinteiro; mas ela estremeceu toda, coitadinha, e saiu intata e pura. Não trazia nem uma nulidade de tinta. Fiz nova experiência, e foi debalde.

O caso tornava-se grave, e já ia saindo do meu sério, quando a pena deu um passo, creio que temperou a garganta, e pediu a palavra.

Estava perdido!

Tinha uma pena oradora, tinha discussões parlamentares, discursos de cinco e seis horas. Que elementos para não trabalhar!

Nada; era preciso por um termo a semelhante abuso, e tomar uma resolução pronta e imediata.

Comecei por bater o pé, e passar uma repreensão severa nos meus dois empregados, que assim se esqueciam dos seus deveres.

O meio era bom, e surtiu o desejado efeito como sempre.

Entramos em explicações; e no fim de contas soube a causa dessa dissidência.

A pena se tinha declarado em oposição aberta; o tinteiro era ministerial quand même. E ambos tão decididos nas suas opiniões, que não havia meio de faze-los voltar atrás.

Era impossível, pois, evitar uma discussão; resignei-me a ouvir os prós e os contras deste meu pequeno parlamento.

A pena do meu amigo fez um discurso muito desconchavado, a falar a verdade. Por mais que lho tenha dito, não quer acreditar que a oratória não é o seu forte; tirando-a da mesa e do papel não vae nada.

Enquanto, porém, ela falava, o tinteiro voltava-lhe as costas de uma maneira desdenhosa, o que não achei bonito. Estive quase chamando-o à ordem; mas não me animei.

Chegou finalmente a vez de falar ele, e defendeu-se dizendo que todas as penas faziam oposição aos tinteiros logo que estes lhes recusaram o elemento para trabalhar, e se não lhe davam a tinta necessária para escrever, sem a qual ficavam a seco.

— C'est trop fort! Gritou a pena do meu amigo, que gosta de falar em francês. Quebro os meus bicos antes do que receber uma só gota de tinta em semelhante tinteiro.

E, se o disse, melhor o fez. Não houve forças que a fizessem molhar os bicos no tinteiro e escrever uma só palavra com aquela tinta.

Atirei-a de lado, abri a gaveta, e tomei um maço de penas que aí havia de reserva.

Mesma coisa: todas elas tinham ouvido, todas se julgavam comprometidas a sustentar a dignidade de sua classe.

Por fim, perdi a paciência, zanguei-me, e, como já era mais de meio-dia, larguei-me a toda pressa para a casa, a fim de escrever alguma coisa que pudesse fazer as vezes de um folhetim.

Mas uma nova decepção me esperava.

A minha pena, de ordinário tão alegre e tão travessa, a minha pena, que é sempre a primeira a lançar-se ao meu encontro, a sorri-me a dar-me os bons dias, estava toda amuada, e quase escondidas entre um maço de papéis.

Quanto ao meu tinteiro, o mais pacato e o mais prudente dos tinteiros do mundo, este tinha um certo ar político, um desplante de chefe de maioria, que me gelou de espanto.

Alguma coisa se tinha passado na minha ausência, algum fato desconhecido que viera perturbar a harmonia e a feliz inteligência que existia entre amigos de tanto tempo.

Ora, é preciso que saibam que há completa disparidade entre esses dois companheiros fiéis das minhas vigílias e dos meus trabalhos.

O meu tinteiro é gordo e barrigudo como um capitão-mor de província. A minha pena é esbelta e delicada como uma mocinha de quinze anos.

Um é sisudo, merencóreo e tristonho; a outra é descuidosa, alegre, e às vezes tão travessa que me vejo obrigado a ralhar com ela para faze-la ter modo.

Entretanto, apesar desta diferença de gênios, combinavam-se e viviam perfeitamente. Tinha-os unido o ano passado, e a lua de mel ainda durava. Eram o exemplo dos bem casados.

Façam, portanto, idéia do meu desapontamento quando comecei a perceber que havia entre eles o que quer que fosse.

Era nada menos do que a repetição da primeira cena.

Felizmente não veio acompanhada de discussões parlamentares, mesmo porque na minha mesa de escrever não admito o sistema constitucional.

É o governo absoluto puro. Algumas vezes concedo o direito de petição; no mais, é justiça a Salomão, pronta e imediata.

A minha pena, como as penas do meu amigo, como todas as penas de brio e pundonor, tinha declarado guerra aos tinteiros do mundo.

Não havia, pois, que hesitar.

Lembrei-me que ela me tinha sido confiada há coisa de nove meses pura e cândida, e que assim a devia restituir.

Lembrei-me de muitas outras coisas, e tomei uma resolução inabalável.

Atirei o meu tinteiro pela janela fora.

A pena saltou, de tão alegre e contentinha que ficou. Fez-me mil carícias, sorriu, coqueteou, e por fim, fazendo-me um gestozinho de Charton no Barbeiro de Sevilha, um gestozinho que me mandava esperar, lançou-se sobre o papel e começou a correr.

Escrevia sem tinta.

Quero dizer, desenhava; esgrafiava sobre o papel quadros e cenas que eu me recordava ter visto há pouco tempo; debuxava flores, céus, estrelas, nuvens, sorrisos de mulheres, formas de anjos, tudo de envolta e no meio de uma confusão graciosa.

E eu nem me lembrei mais de escrever, e fiquei horas esquecidas a olhar esses quadros, que decerto não conseguirei pintar-vos.

Recordo-me de um.

Passava-se na segunda-feira, na baia de Botafogo.

A uma hora o tempo fez umas caretas, como para meter susto aos medrosos.

Daí a alguns momentos o sol brilhou, o azul do céu iluminou-se, e uma brisa ligeira correu com os vapores do temporal que ainda toldavam a atmosfera.

Uma bela tarde desceu do seio das nuvens, pura, fresca e suave como uma odalisca, que, roçando as alvas roupagens de seu leito, resvala do seu divã de veludo sobre o macio tapete da Pérsia.

Era realmente uma odalisca, ou antes uma moreninha de nossa terra. Seu hábito perfumado se exalava na aragem que passava; os seus olhos brilhavam nos raios do sol; sua tez morena se refletia na opala dourada que coloria o horizonte.

Tudo sorria, tudo enamorava. As nuvenzinhas brancas que corriam no azul do céu, o vento a brincar com as fitas de um elegante toilette, uma réstia de sol que vinha beijar uma face que enrubescia ao seu contato, tudo isto encantava.

Apenas o mar, como um leão selvagem, eriçava a juba, estorcia-se furioso, e arrojava-se bramindo sobre as areias da praia.

Isto, em bom português, quer dizer que havia uma ressaca insuportável. Mas é necessário recorrer de vez em quando às imagens poéticas, e seguir os preceitos da arte; e foi por isso que dei ao mar a honra de compara-lo a um leão selvagem e indômito.

Na minha opinião, ele não passa de um sujeito muito malcriado, que, apesar de tanta moça bonita que se incomodou para ir vê-lo, pôs-se a fazer bravatas, como se alguém cá da terra tivesse medo dele.

Por isso, os barquinhos zombavam dos seus rompantes e brincavam sobre as ondas, e corriam tão ligeiros, tão graciosos, que era um gosto vê-los saltando nos cimos das vagas, e inclinando-se docemente com o fluxo da ressaca.

Às três horas e meia ouviu-se um tiro de peça e começou o páreo, que durou até cinco horas da tarde. Apesar de todos os contratempos que sobrevieram, havia um prazer e uma animação geral.

Todos os convidados se achavam reunidos no primeiro pavimento da casa do Sr. Teixeira Leite; e aí foi servido um excelente toast que a sociedade fizera preparar.

Sans pain et sans vin, l'amour n'est rien, diz Brillat Savarin, que é autoridade na matéria. Portanto não é de admirar que, depois do toast , todos os rostos se animassem, o sorriso se expandisse nos lábios, e a galanteria se tornasse mais amável e afetuosa.

Enquanto lançava um olhar sobre essas mesas carregadas de flores e de manjares, cercadas de tantas moças bonitas e de talhes tão delicados e tão mimosos, enquanto o Champanha espumava e as luzes cintilavam, fazendo brilhar o rubi líquido que tremia nos copos de cristal, vieram-me umas reflexões de filosofia gastronômica ou de gastronomia filosófica (como quiserem), que me envergonharam.

A minha poesia, a pouca que tenho, aproveitou o primeiro olhar que passou e foi refugiar-se nuns belos olhos que ela conhece, até que passassem as reflexões humorísticas que faziam trabalhar o meu espírito.

E ela tinha razão.

Numa mesa de jantar, a menos que não se tenha perdido a razão, declaro impossível a menor dose de poesia.

Neste lugar tudo se nivela, tudo se iguala. O rei e o mendigo, o rico e o pobre, a moça bonita e a mulher feia, todos têm fome.

Vedes aquela mulher bela e elegante; tem o corpinho tão mimoso, a cintura tão delicada, que julgais alimentar-se de perfumes e de essências do Oriente.

Admirai-lhe os olhos grandes que parecem refletir uma luz divina, os lábios feitos para o sorriso, a cercadura de pérola que ornam a sua boquinha, e que um beijo não ousaria profanar.

É uma flor, uma estrela, um anjo cercado de luz, que vive no meio de uma auréola celeste, uma fada que habita o palácio encantado de vossa imaginação.

Pois bem, chegai-vos a uma mesa bem servida, e olhai a vossa estrela, o anjo dos vossos sonhos.

Os dentes não são mais pérolas, porque mastigam como os vossos e como os de qualquer; os lábios rosados não sorriem, saboreiam tão bem uma iguaria como os de um consumado gastrônomo.

E daí a um momento, quando no meio do cheiro das iguarias e das fumaças do vinho, esta mulher vos disser que jantou bem, se ainda tiverdes um átomo de poesia na vossa alma, podeis gabar-vos de ser o maior poeta do mundo.

E assim como a mulher é tudo o mais.

O estadista profundo, que gasta a sua vida a resolver os grandes problemas sociais e políticos, que joga com as massas e com as nações, como um menino com a sua péla, senta-se à mesa e esgrime-se contra uma asa de peru, da mesma maneira que um estudante esfaimado no dia de um enterro de ossos.

A religião, a ciência, a glória, o amor, a arte, todas essas coisas grandes e sublimes do mundo, tudo num momento dado some-se pelo fundo de um prato, ou pelas bordas de um copo de vinho.

Deixemo-nos, pois, dessas veleidades, desses orgulhos todos e sem fundamento. Todos temos as mesmas misérias, todos saímos do pó, e um dia a ele tornaremos.

Bem razão tinhas tu, meu Brillat Savarin, quando dizias que a cozinha é a primeira e a única ciência deste mundo; e que os homens só se distinguem dos animais, porque estes comem, e nós saboreamos.

Quantas da minha leitoras não terão amarrotado estas páginas e condenado o meu folhetim como a pior das revistas passadas, presentes e futuras?

Entretanto não têm razão; porque, apesar de todas estas reflexões que me assaltavam, tive bastante força de imaginação para não descer do mundo da idealidade.

Quando via um rostinho bonito inclinado sobre a mesa, chamava em meu socorro todas as comparações dos poetas antigos e modernos, e assim conseguia salvar as minhas ilusões.

Então não era uma mulher que via a comer, era uma flor que absorvia os raios de luz e as gotas de orvalho da manhã, era uma falena que libava o mel e o perfume das flores.

E tanto que, depois dessa hora de tortura, tive de acrescentar uma máxima aos aforismos tão conhecidos da Phisiologie du Gout : "O melhor meio de experimentar o amor que se tem a uma mulher é vê-la comer"

É preciso, porém, que advirtam numa coisa, e é que não falo de um jantar a dois, de uma mesa à qual nos sentamos ao lado ou mesmo defronte de uma bela moça.

Não: isto é a quinta essência da poesia.

O que disse referia-se à posição crítica de um sujeito que está morrendo de fome, e que se acha condenado ao suplício de ver comer uma bela mulher: é esse caso especialíssimo que eu digo que o homem que é capaz de conservar as suas ilusões tem uma imaginação que eu respeito.

Voltemos à regata.

À noite improvisou-se um sarau nos salões do Sr. Leite, e todas as pessoas que se achavam na reunião da sociedade foram convidadas e instadas para subirem.

Havia moças, música e flores, esta trindade mística do prazer, e por conseguinte a festa foi soberba; completou-a a afabilidade dos hóspedes e a amabilidade com que todos eram recebidos.

Dançou-se, conversou-se, brincou-se, e às onze horas cada um retirou-se com a alma cheia das agradáveis impressões do dia.

Eu fui ler umas páginas de romance escritas na Revista dos Dois Mundos de 1º de março por...

Adivinhem por quem, senhores ministros presentes e futuros?

Por Guizot.

O grande estadista, o político profundo ainda se julga feliz em poder, depois dos reveses da fortuna, voltar à imprensa e entreter-se com a sua pena a traçar algumas cenas dramáticas e uma história simples do coração humano.

Entretanto no nosso país se diz que a imprensa é venal e corrompida, e se trata de desacreditar essa força civilizadora da sociedade.

Mas que importa?

Porque o homem num momento de humor se revolta contra a chuva, e desespera de apanhar sol, nem por isso os outros deixam de continuar o seu giro, e as estações de seguirem o seu curso regular.

Assim é a imprensa.

Obscura invenção de Gutenberg, simples maquinismo para escrever algumas palavras com pequenas formas de pau, cresceu, desenvolveu-se, foi-se estendendo por toda terra, e hoje está destinada a dominar o mundo, como a maior criação do homem.

Nela se concentram os dois mais poderosos elementos da civilização, os dois grandes agentes que fazem mover o mundo: a inteligência e o vapor.

Que poderá resistir a essa combinação do pensamento com a força, a essa união da palavra com a rapidez?

Tempo virá em que do obscuro gabinete do escritor a pena governará o mundo, como a espada de Napoleão da sua barraca de campanha.

Uma palavra que cair do bico da pena, daí a uma hora correrá o universo por uma rede imensa de caminhos de ferro e de barcos de vapor, falando por milhões de bocas, reproduzindo-se infinitamente como as folhas de uma grande árvore.

Esta árvore é a liberdade; a liberdade de imprensa, que há de existir sempre, porque é a liberdade do pensamento e da consciência, sem a qual o homem não existe; porque é o direito de queixa e defesa, que não se pode recusar a ninguém.

Mas esta bela idéia me levaria muito longe, tenho tanta coisa pequena de que falar, que não sei como me poderei sair desta dificuldade.

O melhor é cortar o nó górdio com a espada de Alexandre, e não falar de mais coisa alguma.

Sirva, pois, a pena de espada, e façamos ponto final.