Ao Correr da Pena/I/XXXV

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Ao Correr da Pena por José de Alencar
Parte I, Capítulo XXXV

Rio, 17 de junho.

Sexta-feira, por volta de oito horas, ia meu caminho para o Teatro Lírico, assistir à terceira representação da Ana Bolena, quando me entregaram uma carta que me era dirigida!...

Uma carta!...

De todas as espécies de escritos que eu conheço, a carta é sem dúvida a mais interessante, a mais curiosa, e sobretudo a mais necessária.

A carta é um livro numa folha de papel, é uma história em algumas linhas, um poema sem cantos; pode ser um testamento, uma confidência, uma entrevista, um desafio, uma boa notícia, ou o anúncio de uma boa desgraça.

É um pássaro, uma ave de arribação, que voa a longes terras, aos climas mais remotos para levar ao amigo ausente as palavras e os pensamentos da amizade ou do amor.

É uma espécie de fio elétrico que comunica através do espaço e da distância duas almas separadas por uma infinidade de léguas, dois homens que muitas vezes nunca se viram, e que entretanto se conhecem.

Quando deram este nome a esse pequeno paralelogramo de papel, que num minuto pode devorar uma fortuna colossal, foi por analogia que talvez tenha escapado a muita gente.

Como a carta do baralho, a carta escrita produz as mesmas emoções, o mesmo delírio; também ela tem seus lances de fortuna ou de azar no jogo da vida.

Se uma dama, ou um ás, ou um valete que se volta sobre o tapete verde, pode arruinar-vos ou enriquecer-vos, da mesma maneira neste lansquenet do mundo a que se chama a existência, uma carta que se escreve pode trazer-vos o sorriso da ventura ou a alegria do desespero.

A única diferença é que o baralho tem quarenta cartas, e que a vida tem mil alternativas. No mais a semelhança é perfeita, e todas as cartas deste mundo são uma e a mesma coisa.

Deveis ter ouvido falar numa espécie de compromisso político, num salvatério que os governos costumam dar às nações, e a que se chama carta.

Que é isto senão uma carta com a qual os governos e os povos jogam essa partida de écarté político, na qual ganha o parceiro que marca seis pontos, isto é, que nomeia seis ministros?

Por isso nós fizemos bem em trocar o nome pelo de constituição, que é mais expressivo, e que não admite nem sequer esses jogos de palavras.

Tudo isto eram reflexões que me acudiam ao espírito enquanto seguia o meu caminho, e procurava adivinhar pela forma e pela dobra o que continha a tal carta.

Bem sabeis que isto é uma arte preciosa; e que há sujeitinho capaz de adivinhar a mão que escreveu uma carta, e o fim com que a escreveu, somente pela maneira por que se acha dobrada e pelo papel do envelope.

Assim, uma cartinha fina, perfumada, macia, trai sempre a mulher; uma capa elegante mas dobrada às pressas, indica geralmente o homem de Estado, um ministro, um funcionário, enfim, sobre que pesa um trabalho invencível.

Ora, a minha carta não tinha parecença alguma com estas duas espécies descritas; estava fechada simplesmente como qualquer carta que sai do correio.

Por isso, como nada tinha que me interessasse, meti-a no bolso e fui ouvir Ana Bolena, sem mesmo ler-lhe o sobrescrito.

Aí levei a conversar sobre a nova reorganização ministerial; e, quaisquer que fossem as opiniões daqueles com quem falei, a todos ouvi o mesmo pensamento e a mesma idéia sobre o novo ministro, o Sr. Wanderley.

É inegável que este nome dá nova força e novo prestígio ao gabinete, que decerto não podia fazer uma melhor aquisição.

Quanto à necessidade da completa retirada do ministério, isto é questão à parte, e sobre a qual só daqui a algum tempo se poderá emitir um juízo seguro.

Entretanto felicitemo-nos por ver definitivamente reconstituído o governo do pais, que durante os últimos dias deu sinais de uma solução definitiva.

Dizem que muitos não aceitarão a pasta; e por isso será bom cuidarmos desde já em fazer do cargo de ministro uma espécie de guarda nacional ou de juro, a que nenhum cidadão se poderá escusar.

É preciso de vez em quando fazermos um pequeno sacrifício pela pátria, por ela que tantas vezes se sacrifica por nossa causa, por nossos interesses pessoais.

Se não lhe fizermos esses sacrifícios, quem preencherá os lugares de senadores, deputados, presidentes, ministros e bispos de uma e outra igreja?

Além da reconstituição do gabinete, nada mais houve de interessante nos altos domínios da política.

A Câmara dos Deputados esperava e desesperava, conforme os diversos boatos que corriam pelos corredores a cada hora e a cada instante.

O senado (coincidência notável), enquanto o ministério estava em crise, discutia magistralmente uma lei de pescarias.

Esta lei, apesar de muito bem sustentada pelo seu ilustre autor o Sr. Marquês de Abrantes, sofreu no senado grande oposição.

Apesar da consideração que merecem as opiniões opostas ao projeto, cumpre atender à penúria e à escassez de gêneros alimentícios, que quase todos os anos em certa época vai aparecendo no nosso país.

Uma lei de pescarias, sabiamente elaborada, seria não só um importante ramo de comércio e indústria, mas um meio eficaz de suprir no mercado a falta dos gêneros de primeira necessidade.

Ultimamente tem-se falado muito o nome do Sr. Conselheiro Vicente Pires da Mota, que deseja retirar-se do Ceará por incômodos de saúde.

Estamos convencidos que o governo empregará toda a sua solicitude para que o Sr. Pires da Mota continue a dirigir a província, que tão bem tem acolhido a sua administração.

Quando, porém, qualquer mudança se dê, esperamos que o Sr.Marquês de Paraná faça uma escolha acertada, nomeando um homem que tenha como o atual presidente, grande tino administrativo e a energia necessária para vencer exigências absurdas de pequenas influências locais.

É isto pelo menos o que exige a política do atual ministério, e a sua prudência governativa, a fim de não termos de lamentar cenas desagradáveis, e de não retrogradarmos de um estado, que, embora não seja o melhor, é contudo mil vezes preferível ao passado odiento de alguns anos atrás.

Ainda uma palavra.

Temos na nossa administração um empregado de alto merecimento, de qualidades eminentes, de uma inteligência e de um zelo provados por grandes serviços e importantes trabalhos.

Falo do Sr. Dr. Eduardo Olímpio Machado, atual Presidente do Maranhão, que vai dirigir a Província do Amazonas.

Estamos certos que, logo que haja oportunidade, o governo aproveitará melhor este hábil administrador, que uma moléstia cruel impede de continuar a residir nas províncias do norte.

Parece-nos mesmo que, se achando vagas algumas presidências de províncias do sul, se faria a uma delas grande serviço, e ao Dr. Olímpio estrita justiça, nomeando-o para um desses lugares.

Mas lá se ergue o pano, e, como desejo ouvir o terceiro ato sem perder uma nota, deixo a minha conversa, e entrego-me todo à arte, à música.

Mas decididamente estava na noite das distrações.

Apenas a Charton começou a cantar o seu belo romance, o meu pensamento deixou-me, e em menos de um segundo tinha transposto mares e serras.

Andava pela Europa, o brejeiro! Como eu não posso ir, ele mete-me inveja, e leva o tempo a fazer-me figas.

Num minuto passeou pela Itália, viu Emmy la Grua aprontando-se para a sua viagem de além-mar, e depois entrou em Londres, e foi a Convent-Garden ver a Julienne Dejean, que representava a Norma.

Esta é uma moça encantadora, como dizem que é a linda italiana; não é uma Rosina faceira e graciosa como a Charton, é uma mulher talhada para as grandes paixões, para as comoções fortes e violentas.

Sua voz de soprano, ampla, sonora, de uma grande extensão e volume, dizem que tem esses acentos do desespero, esses gritos d'alma, que fazem estremecer como um choque elétrico, que fazem correr pelo corpo um calafrio de emoção.

É uma voz para o ciúme selvagem da Norma, para a vingança e para as paixões de Lucrecia Borgia, para a ambição de Macbeth, para todos esses dramas enfim em que os sentimentos trágicos atingem à sublimidade.

Entretanto esse mesmo timbre de voz torna-se doce, terno, sentimental quando a artista traduz o amor feliz e essas delicadas emoções do coração que se expande.

Por isso afirmam que ela não tem repertório; canta a música italiana de preferência; e executa qualquer ópera de soprano que lhe designem.

Com ela deve vir o tenor Tamberlik, que atualmente goza na Europa da reputação de um dos melhores cantores no seu gênero.

Foi isto que o meu pensamento viu em viagem e que me veio contar, tirando-me assim todas as minhas belas ilusões da noite.

Comecei a refletir sobre o destino das glórias deste mundo.

"Ainda esta noite, pensava eu, a Charton pisa a nossa cena lírica como rainha e como soberana. Algumas reminiscências que nos deixou a Stoltz já estão apagadas. Brilha num céu sem nuvens como o astro das nossas noites, murmura ao ouvido como o eco das harpas eólicas, surge no meio de uma auréola de luz como o anjo da harmonia.

"Daqui a um mês, ou a dois talvez, quem sabe se não lhe arrancarão a sua coroa, e sei de tantos buquês, de tantos aplausos, terá uma flor solitária e um simples monossílabo de admiração, desses que partem espontaneamente do peito?"

Os abissínios foram um povo da antiguidade que, como os judeus, perderam a sua pátria e se espalharam pelo mundo, misturando o seu sangue a todas as raças.

Quando o sol se ergue, todos se levantam; quando ele chega ao ocaso, todos se recolhem, e tratam de dormir.

Há, porém, homens para quem a noite é mais bela do que o dia, para quem uma estrela perdida no azul do céu é mais encantadora do que o astro-rei com todo seu fulgor.

Estes saúdam o sol quando nasce, mas à noite contemplam a estrela fugitiva e a acompanham no seu caminho solitário.

Infelizmente, porém, ninguém neste mundo, depois de ter sido sol, deseja ficar estrela; e este é o grande mal.

De tudo isto nada se conclui.

Esperamos.

O pomo da discórdia está lançado; o banquete lírico se prepara, e o público, como Paris, tem de julgar.

Que julgue bem, porque a luta deve ser gigantesca como os combates da Ilíada e da Odisséia, como as peregrinações da Eneida.

Aposto, porém, que já estais desesperados por saber da carta que recebi quando ia para o teatro.

Chegamos a ela.

Era escrita em francês, e continha versos, versos feitos por mulher!

Devo, porém, prevenir-vos que não acreditei nem um momento na verdade da assinatura; tomei por uma inocente brincadeira de algum amigo desconhecido, e como os versos são bonitos, vo-los ofereço.

Eis a carta:

"13 de junho de 1855

"Monsieur. - Si vous voulez lês proteger, j'aurai lê courage de vous em envoie r d'autres.

A jeudi prochain.

Souffrez que je garde l'anonyme; ce petit air de mystère a um je ne sais quoi, qui me rend plus hardie, ou plutôt moins craintive.

A vous d'amitié,

Elle.

DANS UM ALBUM
185

Dans votre álbum, ou la jeune amitié laisse
Des songes de bonheur, des projets d'avenir.
Pourquoi vouloir, ami, que ma sombre tristesse
Vienne jeter son deuil sur aussi doux loisir?

Vous ne savez donc os que lê rire de m lèvre
Déjà depuis çpngtemps ne va plus à mon coeur;
Et que de ce bonheur dont, hélas, on me sèvre,
Je crains même d'écrire lê nom si séducteur!

Moi aussi, j'ai connu ces jours pleins d'espérance
Quand je croyais à tout, aux promesses, au devoir,
Leur souvenir em moi éveille la souffrance,
Car ils ne m'ont laissé qu'un brulant dèsespoir.

Ce n'est dona pas la froid indifférence
Qui m'empêchait d'écrire um mot de souvenir;
Mais je ne voulais pás, vous dont la vie commence,
Que sitôt vous sussiez que vivre c'est souffrir!

Elle....

Rio de Janeiro

Bem vedes que, se é uma caçoada, é tão delicada e de tão bom gosto, que vale a pena deixar-me enganar, quando mais não fosse, ao menos para dar à vossa curiosidade, minhas belas leitoras, esse lindo tema para sobre ele fantasiardes à vontade.

É realmente uma mulher, uma mulher bonita que escreve lindos versos em francês, que no fundo d'alma o desengano e no lábio o sorriso, como uma flor pálida que nasce entre as ruínas, como essa chama lívida que lampeja um momento entre as cinzas quando o fogo se extingue?

Ou será alguma mocinha tímida que vota à poesia as primícias de sua alma, e que deixa cair sobre o papel, em versos, esses primeiros perfumes de um coração de dezoito anos, essas primeiras flores da mocidade e do amor?

Podeis fazer, como estas, mil outras suposições, e aceitar aquela que mais vos agradar e que mais se harmonizar com o vosso espírito e com os vossos sentimentos.

Quanto a mim, ou porque já estou um pouco cético a respeito dessas dores concentradas e desses sofrimentos mudos que sorriem, ou porque me achasse em más disposições para a poesia, o caso é que, apesar da letra fina e delgada, apesar do pronome da assinatura, nem um instante acreditei que houvesse nisto dedo de mulher.

Vi logo que toda esta história não passava de uma engenhosa invenção de algum sujeito que, ou queria abusar da minha boa-fé, ou se envolvia neste véu poético do mistério, para obter de mim a publicação de seus versos.

Fiquei, pois, firmemente convencido que a tal assinatura de tão misteriosa significação, não era outra coisa mais do que a letra inicial do nome do poeta, escrita por extenso - elle!

Também pode ser que o pronome deva ser lido em português, embora os versos sejam franceses; e então toda a poesia desaparece diante desta transformação de sexo, produzida pela mudança de línguas.

O que sei é que em tudo isto há uns olhos ou bonitos, de homem ou de mulher que estão percorrendo estas linhas, e procurando com ansiedade ver se conseguiram enganar-me; e queira Deus que um sorriso irônico não faça coro com esse olhar curioso.

Agora, minhas belas leitoras, deixo-lhes a decifração do enigma; e só lhes peço que, se acaso acertarem com ela, não se tornem egoístas, e ma comuniquem, para rir-me também da caçoada feita a todos nós.

Entretanto, se a nossa incógnita (incógnita em álgebra é comum de dois), se a nossa incógnita continuar a mandar-me os seus versos, e se eles forem bonitos como os primeiros, continuarei a publicá-los, e a dar-vos assim no meio da minha prosa chilra, algumas flores de poesia.

Conversemos agora a respeito de teatros.

O Ginásio conseguiu fazer a excelente aquisição de uma nova artista, moça de educação fina, e que promete um excelente futuro. É filha de um artista que já teve seus belos dias no nosso teatro.

A nova artista deve estrear segunda-feira, num pequeno papel que lhe foi distribuído para dar-lhe tempo a familiarizar-se com a cena.

O Teatro de São Pedro continua no mesmo estado. Breve, porém, o veremos transformado em uma bela cena lírica, na qual alguns cantores de cartello, que dizem devem chegar da Europa, nos darão noites bem agradáveis e bem animadas.

Com a rivalidade dos dois muito ganharemos na bondade dos espetáculos e no zelo dos empresários.