Ao Correr da Pena/II/III

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Ao Correr da Pena por José de Alencar
Parte II, Capítulo III


28 de outubro de 1855

Estava sem inspiração, o que me sucede muita vez.

Abri um livro, nem me lembra que livro era.

A primeira palavra que vi foi em latim; era um provérbio:

Res est magna tacere.

Façam idéia, pois, que impressão podia produzir uma semelhante máxima num espírito que procurava inspirações.

Quando eu desejava um tema para falar, - e falar mais do que uma moça que discute modas, ou um ministro que falta a uma promessa, - salta-me pela frente a sabedoria romana, e manda-me calar da maneira mais impertinente.

Ora para um folhetinista que não quer absolutamente indispor-se com os sábios, não havia remédio senão obedecer.

Resolvi portanto calar-me.

A resolução era a mais prudente, e também a mais cômoda possível mas tinha um inconveniente.

Os meus leitores, e sobretudo as minhas maliciosas leitoras, eram muito capazes de supor que me calava pôr não ter nada que dizer.

Isto seria uma quebra para a minha reputação de folhetinista; seria uma falta imperdoável para aqueles que julgam que o espírito de um escritor de revista deve ser uma esponja que durante a semana se embebeda e sature de idéias, e que ao domingo se esprema no papel, e deite uma chuva de bonitos pensamentos e lembranças graciosas.

Ora, apesar de não pretender a glória desta comparação polipiana, contudo o meu amor-próprio não podia consentir que me visse decaído das boas graças do leitor pôr causa de três palavras latinas.

E três palavras latinas que eram pôr si mesmas uma mentira e uma contradição; porque, se o tal sábio (Salomão ou Sócrates) estivesse bem convencido da utilidade de calar-se, não teria a indiscrição de falar e dizer aquelas palavras: Res est magna tacere.

Mas é que todos os sábios deste mundo são assim; pregam muito boas máximas, excelentes conselhos, e eles são os primeiros que fazem o contrário, e que dão o mau exemplo.

Tudo isto porém nada tem com a questão; o que é verdade é que me achava na mais difícil posição do mundo; pôr um lado a prudência e a sabedoria mandavam que me calasse, pôr outro o leitor e o público exigiam que falasse e escrevesse.

Se houvesse um meio de combinar as duas coisas, e ficar com ambas, seria para mim um salvatério.

Mas ainda estou pouco ao fato destes meios empregados pôr certos jornalistas e certos políticos, novos Janos da civilização que passam pela sociedade, sorrindo para um e outro lado com cada um dos cantos da boca.

Não me restava pois senão um expediente, e foi o que decidi-me a adotar.

Era preciso calar-me, visto que os sábios o ordenavam; mas, calando-me, restava-me o direito de dizer ao menos os assuntos diversos sobre que me calava.

Assim nem incorro na censura de falador, nem também se pode dizer que não tenho matéria sobre que escrever.

Uma das primeiras coisas sobre que eu me calo é sobre a questão atual da farinha de trigo, sobre a questão do pão.

Com efeito, poucas matérias são tão importantes como esta, que afeta geralmente a todos os diversos interesses da sociedade.

Os pobres e os ricos, os empregados, os ministros, os pretendentes, os confeiteiros, os gastrônomos, as senhoras, o país, a colonização, a estatística, enfim tudo tem uma relação imediata com esta grande questão.

Isto exige uma explicação.

Ei-la:

Há diversas espécies de pão: o pão branco e o pão de rala, o pão-de-ló, o pão d'ouro, e muitas outras espécies menos importantes; há igualmente uma espécie indefinida, genérica, ainda não caracterizada, e que se exprime ordinariamente pelo simples termo - o pão.

Esta última espécie é a mais importante; todos trabalham para ganhar o pão; o pobre muitas vezes não tem o pão para a boca; e o operário vê-se obrigado a regar o pão com o suor do seu rosto.

Já se vê que este pão não é feito nos fornos e nem se compõe de fermento, e que pôr conseguinte não é o preço da farinha de trigo ou uma padaria central e privilegiada que o tornarão mais fácil para o pobre.

Este pão é o pão do trabalho, do trabalho ativo, honesto e inteligente a que todo o pobre deve dedicar-se com amor, deixando os hábitos de indolência e os vícios, que quase sempre são a causa única da miséria.

Esta espécie pois exige do governo não só uma proteção à indústria do país, como uma política ativa e regular, com as competentes casas de detenção, necessárias para o trabalho dos velhos e mendigos.

A questão do pão-de-ló tem grande interesse também: este pão é muito saboroso e muito suave ao paladar, mas pôr isso mesmo é um pouco mais caro do que os outros.

Dizem que o pão-de-ló - higienicamente falando - é um pouco indigesto; mas a experiência tem mostrado o contrário: há estômagos que digerem um número extraordinário de boas fatias.

A respeito desta espécie já pusemos em prática o sistema francês da administração municipal da boulangerie parisienne.

Temos uma padaria central ou nacional, e diversas padarias provinciais, onde se fabrica excelente pão-de-ló, que se distribui conforme o estômago de cada um.

Esta organização precisa de uma reforma radical, que demanda longos estudos e muita prudência e reflexão da parte do governo.

Vejam pois que tinha razão quando disse que a questão do pão era uma das de maior vulto da atualidade.

Quanta reforma importante, quanta ciência, quanto estudo e prática não exige esta única palavra?

Que revolução econômica e social não são capazes de produzir estas três linhas juntinhas e cobertas com um til à guisa de chapéu-de-sol?

E ainda isto não é tudo. Disse que o país, as senhoras, as famílias, a população, a estatística, as modas, tudo enfim estava empenhado na questão do pão.

E vou prova-lo.

Mas... agora me lembro que não posso falar, que obriguei-me a calar, em deferência aos provérbios latinos.

Portanto fiquem os leitores em jejum, a menos que algum dos tais impertinentes provérbios não queira falar pôr mim, como pôr exemplo, este: Sine Cerere et Baccho friget Vênus.

A bom entendedor meia palavra basta. Aquele friget que ali está com um ar tão sonso e tão ingênuo é um brejeiro de conta; e se ele quisesse falar mostrar-nos-ia a influência legítima do pão.

Porém é um verbo muito sisudo e discreto, e pôr isso não há meio de arrancar-lhe uma explicação mais clara.

Há ainda outras muitas coisas sobre que podia falar, mas a respeito das quais me calo para cumprir o prometido.

Podia falar da representação da Sapho, e dizer muita coisa bonita e interessante sobre a nossa grega, que inspira com seu canto os nossos poetas, e com os seus olhos os nossos diletantes.

Podia fazer um poema sobre esta história de um amor profundo, que se reproduz entre nós todos os dias, e que acaba sempre pôr um passo de Leucate.

A única diferença que existe é na posição geográfica e na qualidade do passo de Leucate moderno, o que é devido à diferença dos países e à diversidade das idades, dos usos e costumes.

Assim, o passo de Leucate antigo era um rochedo à beira do mar; o da Idade Média era um convento no cimo de uma montanha; o de nossos dias é um casamento de conveniência.

As Saphos de hoje, quando chegam ao triste desenlace de uma história de amor, sobem ao altar e de lá precipitam-se...

Precipitam-se nos braços de um homem que não amam, precipitam-se na monótona e triste existência de um casamento mal sucedido.

Mudados pois os nomes e os lugares, o drama é o mesmo, e as personagens idênticas.

Em continuação deste tema de Sapho moderna, podia falar-vos das Mulheres de mármore, representadas sexta-feira no Ginásio, e pintar-vos uma bela cena da Grécia criada pelo pincel do Bragaldi.

Haveis de saber o admirável efeito que produziu esta representação, a que deveis ir assistir esta noite; lá conversaremos a gosto, e apreciaremos juntos a habilidade com que todos os artistas desempenham os seus papéis.

Sobre o concerto do teatro lírico desta noite, também poderia escrever algumas linhas recomendando-vos o talento da distinta harpista Mme. Belloc, que não foi feliz na concorrência.

Mas a razão, eu a sei: nesta época de tanto s desconcertos era impossível que fosse bem aceito um concerto.

Agora, tendo eu me calado sobre tanta coisa, é justo que converse um pouco com as minhas leitoras.

Tenho de lhes noticiar que se acha criada uma nova ordem - A ordem das violetas ...

Esta ordem é dedicada especialmente à caridade, e teve sua origem no dia do leilão das Belas-Artes, em um bouquet de violetas.

Quem a criou (o que para mim é segredo) teve uma feliz inspiração; tirou o ramo do seio, distribuiu as flores à direita e à esquerda a quem as mereceu pôr caridade; e o sorriso de seus lábios dizia neste momento: - Honni soit que mal y pense.

O caso é que a ordem está criada, e que agora o luxo, o chic, é trazerem os gentlemen na casaca preta a modesta e linda florzinha, que tornou-se o emblema de uma tão santa virtude.

Pôr falar nisto lembro-me que hoje tem lugar o segundo leilão das Belas-Artes.

Quando criaram este edifício, nunca pensaram que ele teria o nobre destino que lhe deram domingo passado, e que o seu nome teria uma outra significação ainda mais apropriada.

Com efeito, que mais belas-artes, do que as artes, as travessuras, os meios engenhosos, que a caridade aí inspirou domingo passado às elegantes peregrinas da Glória?

Mas que há aí de admirar!

Eram brasileiras.

Se não sabeis o que quer dizer isto, ouvi-me.

Vou contar-vos uma história muito linda, um verdadeiro conto de fada.

Não sei se minha pena ainda se lembrará dessas coisas de outro tempo, desses contos árabes tão cheios de poesia oriental.

Mas enfim lá vai.

Foi um dia...

Lancei os olhos sobre uma página solta deste folhetim, e lá vi o meu Cabrion.

Res est magna tacere.

Calo-me pois, e desta vez seriamente; dou um ponto na boca, ou antes, no papel.