Ao Redator do Diário

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Ao Redator do Diário
por José de Alencar

12 do janeiro de 1866.


Sua folha, sempre lida com prazer, trouxe-me há dias, grande satisfação.

Não foi produzida pelo esmero da cortesia que recebi; essa é própria do elegante escritor: eu a esperava.

Sinto que me inibisse de a retribuir. Copiosa é a língua portuguesa, especialmente em assunto de galanteria tão culto dos nossos maiores. Sobejou porém a gentileza, que a exauriu na página seleta onde só desmerece o motivo.

Reverter a bizarria com os mesmos termos, seria sobre monótono, sediço. Frequente nas colunas editoriais do Diário sente o público o fino quilate de uma alma de lei, e o brilho de uma inteligência da melhor água.

A satisfação a que aludo, e satisfação íntima, tem outra causa.

Vou confessá-lo em toda ingenuidade. É o receio que de envolta com muita simpatia manifesta o nobre redator de ser eu arrastado pelo desencanto até o absolutismo.

Imagino a aflição de um sacerdote inspirado da liberdade, a pensar que o devoto sincero do mesmo culto sagrado, vacila na fé e resvala já para a apostasia.

Na mesma ocasião em que eram enunciados tão cordiais sentimentos, publicou seu jornal uma carta de S. Paulo. Devo ao hábil correspondente lindos elogios, que por meu mal foram logo rebatidos em praça com usura.

Sou nada menos do que — «o crocodilo feroz do despotismo, disputando a admiração dos poucos crédulos que ainda restam e os tênues almejos do magnânimo coração do rei insonte...»

A reticência não é minha; sim do indignado escritor que some-se por ela e logo após surge para mandar-me literalmente ao diabo sob a conduta de Horácio. Não sabia que eram conhecidos velhos, o lírico latino com o anjo decaído.

Nova dose veio aumentar a minha satisfação na tarde seguinte: esta chegava do norte.

Seu correspondente da Bahia taxa-me de feiticeiro, e naturalmente já se deleita com meu auto de fé. — « Em todos os países os misticismos de Erasmo tem trazido para os espíritos vertigens e desvairamentos. Erasmo reduzindo todo um edifício a pó pretende reedificá-lo? Com que materiais?»

Também nesta carta há anteriormente uma reticência à palavra perigosas... Aí sem dúvida mergulhou o prudente escritor o monstro, que desta vez para guardar a cor local, deve ser algum caramuru. Não o afundou tanto porém, que se não veja ainda a sombra terrível.

Encheu-se a medida ao contentamento que transbordou. É para expandi-lo que dirijo esta carta ao meu sempre generoso adversário, principal redator do Diário.

E já que a palavra outra vez caiu da pena precise-se a intenção em que foi desde o começo empregada. Somos neste momento adversários porque estamos em posições opostas, e temos rumos ponteiros.

O coração entusiasta do nobre redator caminha do presente para o futuro; leva os olhos no horizonte límpido que douram os raios de sua inteligência. Já perlustrei esta senda; desando-a agora.

Venho do futuro para o presente; da aurora para a noite; tudo é triste e árido.

Mas a ambos nos impele a mesma nobre aspiração, a liberdade. O jovem lidador marcha à sua conquista nas regiões encantadas; o desiludido alvanel esforça arrancá-la das ruínas que a obstruem. É natural que o malho do operário alua muito pardieiro, que a arma do campeão perpassa e desdenha.

Desponte a luz porém, onde quer que seja, do seio de suas esperanças, ou do fundo do meu desencanto, ela nos reunirá, espero em Deus. Já não seremos adversários.

Torno à minha satisfação.

Estes ecos da imprensa, partidos de vários pontos e condensados aos surdos rumores que burburinham nos círculos da corte, são indícios de uma crise salutar. Anunciam eles que a pena de Erasmo não fez a autópsia de um cadáver; operou sobre corpo vivo e robusto, onde são prontas as reações.

Nas seis primeiras cartas limitei-me a estereotipar a atualidade. Para que nenhuma consideração me tolhesse desprendi-me da minha individualidade, e de envolta com as outras fundi-a no crisol de uma razão severa.

Se pois ao contemplar o quadro fiel da situação ergue-se ante os olhos de patriotas sinceros um vulto pavoroso, não é da imaginação do escritor que surgiu; mas do seio desta crise que tudo subverte e confunde, até o espírito dos homens bons.

Meus escritos nem são reflexos; apenas esboços. O original, buscai-o em torno; ele aí está, vos toca, envolve e oprime, como fluido deletério que abate os ânimos e entorpece os sentidos.

Pasmosa alucinação é esta que sofrem os povos em épocas decadentes. Assemelha-se à pungente ilusão dos tísicos; doce placidez os enleva, quanto mais se agrava o mal. Não os lastimem, que é irritá-los.

Diariamente saem à praça, se arreganham em público, transitam livremente por vielas e ruas, sucessos que estão de contínuo atestando um deplorável desvio da opinião. Ninguém os contesta; passam incólumes, respeitados, aplaudidos, e entram placidamente no domínio dos fatos consumados, onde são logo condecorados com o título de precedentes.

Um escritor lembra-se de coligir tais acontecimentos e, unindo-os pelo fio que os prende, expô-los no seu complexo à atenção dos homens cordatos. Os que aplaudiram a realidade, revoltam-se contra a imagem. O entusiasmo os deslumbrava então; punge-lhes agora a reflexão.

Muito tempo havia que Roma despedaçara sua constituição livre. Como disse um historiador, a cidade eterna levantara um trono que esperou vago cerca de século por um possuidor. É pertinente lembrar, que foram os Grachos que mataram a república.

Já a liberdade tinha desertado do capitólio, onde nunca mais devia entrar; e o povo romano solicitava um senhor à quem servir! Contudo, o nome de rei ora ainda ali um objeto de aversão e horror, como fora em Atenas o título do tirano.

Aclamavam-se ditadores perpétuos com poderes soberanos; decretavam-se triunfos; erigiam-se estátuas; deferiam-se honras imortais. Mas a lisonja ousada que se atrevia até o sacrilégio, não tentou reunir as três letras execradas para saciar as ambições vaidosas.

César aceitou a estátua que o povo romano colocou no capitólio à par do Júpiter, com a inscrição de semideus: e apesar do seu gênio, não se animou a receber o diadema que em público lhe ofereceu o cônsul Marco Antônio.

Esta página da história antiga é cheia de fundas tristezas e implacáveis lições; é o transe da devassidão do maior povo da terra. Na decrepitude de uma raça, imensa na virtude e imensa no vício, todos os países acham estímulos para a glória, e advertências na miséria.

Nossa felicidade é possuirmos a monarquia para socalcar as ambições afoutas; e na monarquia um príncipe reto, liberal, invulnerável aos assaltos da paixão. Não fossem estas duas guardas que Erasmo em vez da árdua tarefa teria se limitado a escrever na página atual dos anais brasileiros: Fuit libertas!

O absolutismo?... Quem não o vê? Não convive ele conosco?

Onde a minoria subjuga a maioria, aí está a tirania; seja de um, seja de muitos. Repimpado nas poltronas ministeriais, espreguiçando-se nos sofás da assembleia, pedante nas repartições públicas, risonho e sedutor na imprensa, empertigado nos fardões, mostra-se em toda a parte esse Proteu da nossa política.

Só não penetrou ainda o coração daquele à quem devera mais seduzir, e a alma de alguns cidadãos prudentes que há muito sentiram o liso declive por onde resvala o país.

Alguém apareceu que tirou de seu dever coragem para afrontar o delírio. Arrancou o monstro do parlamento, da administração, do jornalismo, da opinião, dos últimos refúgios e o arrastou ante o país para que o contemple em face!

Volta-se toda a cólera contra o imprudente! «Carregue-se este bode emissário com os nossos pecados políticos, e expulsem-no do grêmio; que vá pagar no deserto a culpa do absolutismo!»

Em boa hora venham tais assomos de indignação que, se doem ao escritor por ingratos, prazem ao coração brasileiro! Sim; como na cerimônia hebraica de bom grado me carregarei dos nossos erros passados e comigo arrastarei ao ouvido o ódio e remorso deles. Mas floresça no meu país a liberdade constitucional e restaure-se o império da lei e da moral.

Sobra-me espaço. É mais um momento ao prazer desta prática. Desejo apagar os receios que nutre a meu respeito.

Não vacilo, como supõe; nem sulco em frágil esquife ondas aparceladas. É terra firme e chão sólido que discorro: o campo foi longamente roteado; os rumos aviventados pela experiência. Não se oscila neste terreno que é o das instituições juradas.

A lei e a honra quando não se provoca a nação a assumir a plenitude da soberania, permitia o nobre redator que o afirme, só tem uma acepção; é a constituição executada com probidade; é o direito e a moral; a justiça e a virtude.

Reli com atenção as cartas publicadas, investigando a frase onde o espírito de tão refletido pensador pudera ter sentido meus deslizes para o absolutismo. Cego talvez pela própria obstinação, não a encontrei.

Será na dedicação de Erasmo à pessoa do monarca; na confiança que manifesta pela ação benfazeja da coroa; no apelo à energia da majestade?

Mas é na esfera da constituição que se dilatam essas aspirações liberais. Invoca-se a coroa, para reclamar dela a verdade do sistema.

Avisou com prudência o sisudo jornalista em adiar a discussão para quando tenham as ideias seu completo desenvolvimento. Não me afastarei do acerto; mas prezo entanto sua adesão, que anelo por esboçar-me de uma maneira mais saliente, por isso que mais solta de outras considerações.

Quero a constituição, como foi escrita, não como a aleijaram. Na constituição aparecem bem distintos os três princípios cardeais da monarquia representativa; a coroa, o povo e o elemento intermédio ou misto, que em falta de melhor termo chamo aristocrático.

Estes três princípios se engrazam na vida política, à semelhança de rodas dentadas; não se move uma sem que as outras girem igualmente. Dessas evoluções concertadas nasce a vida representativa, a mais nobre função dos povos livres.

Nosso mecanismo constitucional está inerte; não há quem o desconheça. As molas se oxidaram; os eixos ficaram perros. Para repô-lo, e lhe restituir o movimento, é necessário o impulso pelo menos de uma das três peças: todas a um tempo fora excelente; mas era empresa para forças magnas.

Erasmo tem consciência das suas, mesmo para o mínimo empenho receia que sejam somenos. Cumpria-lhe escolher dos três pontos o mais acessível.

Acredite o nobre redator que a opção não se fez sem pausada reflexão e estudo acurado.

Viu Erasmo o povo ralado por grandes decepções, descrente dos homens que o dirigiam, entorpecido pela ignorância ou indiferença, vexado com as tributações do presente; reconheceu que sua palavra não tinha possança para comover tantos milhões de almas derramados por vasta superfície. E se falhando o intento apenas chegasse ao ponto de conturbar a onda, sem ter o poder de a aplacar e dirigir-lhe o curso?... Não seria tremenda a responsabilidade que pesaria sobre ele?

Erasmo recuou.

A aristocracia?... O elegante escritor há rompido, armado do seu talento, a crosta espessa e glacial, que sopita as ideias neste belo país criado para as magníficas expansões. Conhece o gesto pretensioso, o riso de mofa, o esgar da inveja, que mangram as melhores inspirações.

A classe superior apresenta todos os sintomas de decomposição. A desmoralização obceca uns, e apavora outros. Homens que deviam tomar o passo aos acontecimentos, andam vagos, múrmuros, e mais tímidos, quanto mais elevados: a altura dá vertigens. Muitos a esta hora me supõe possesso de grande cobiça ou estulto delírio.

Erasmo sentiu a impotência de sua palavra para assoberbar esta avalanche aristocrática, assim como a sentira para revolver a onda estagnada da opinião popular.

Restava a coroa.

Ali está a cabeça da nação. Não toldam a lucidez da mente superior sombras que projete a inveja. Sua abnegação e civismo estão provados.

Grato e fácil é o desígnio de convencer uma razão reta quando não se tem outro prol além da verdade. Mais ainda; se a convicção já ali despontou e só aguarda espaço e vez de produzir-se.

Eis por que Erasmo se dirigiu ao trono. Lá está o que o egoísmo e a vaidade lhe recusariam em muita parte. Ouvido benévolo para o escutar; dedicação pronta para o compreender; ilustração magnânima, que não desdenha a ideia, e corrige o erro sem mofa.

É duro, quando se professa como o nobre redator o culto à verdade, sair à praça para esmolar de indolência em indolência óbolos de leitores; e recolher após afanoso lidar, travado de amarguras, com mesquinha coleta.

Para ser lido e meditado pelo imperador, Erasmo não carece de proteção, nem de engodo; basta aparecer. Acordem, os de voz estentórea, a nação; congreguem, os que dispõem da senha mágica, aos capazes. Eu que não fui talhado para esses trabalhos hercúleos, faço muito elevando ao monarca os gemidos da pátria.

Pertinaz visão deve encher os olhos àqueles que enxergam nas minhas cartas o espectro do absolutismo. Não se reclama a constituição para a conspurcar; não se invoca a honra para consumar uma obra de traição e deslealdade; não se ostenta com escandalosa publicidade um plano, cujo sucesso está no mistério, na surpresa, no silêncio.

Quem porventura deseje o absolutismo, dorme placidamente embalado pela corrente, e foge de torvar a veia: segue o curso dos acontecimentos. Mas penso eu que se ilude; o sono do povo brasileiro, confiado na virtude de seu monarca é possível; sua servidão, não acredito.

Na América a liberdade foi contemporânea da terra, disse Chateaubriand. Tudo neste solo tem um cunho de independência. A natureza quebrou aqui os antigos moldes e fundiu cousas desconhecidas. Estes mares rejeitaram durante séculos o domínio do homem. A selva disputa ao lavrador com tenacidade sua conquista.

Enfim foram os Estados Unidos que deram à França o exemplo da liberdade, que dali reverberou por toda a Europa. Escapou um canto na extrema meridional, onde o velho despotismo português repastava. Nós lhe mandamos primeiro aviso em 1789 e segundo em 1817.

Assim a civilização vem da Europa para a virgem América; a liberdade vai da América, onde se refugiara desde a antiguidade para a decrépita Europa.

Acredito que o Brasil, destinado a representar no novo mundo as gloriosas tradições da raça latina, não há de esquecer o que deve à sua origem americana. Mas é certo que a própria opulência o dana. Ele esperdiça a liberdade julgando que nunca lha poderão arrebatar; esbanja o tempo, porque a mocidade se lhe afigura eterna; dissipa sua riqueza, confiado neste solo cujas entranhas de ouro jamais se hão de exaurir.

Se o desbarato das forças continuar, não há vigor que resista. Estamos cercados de exemplos palpitantes dessa extenuação precoce da substância nacional. Aprenda neles o Brasil a zelar os tesouros que a Providência lhe confiou.

É tempo.

Não demos razão a esta palavra de Daniel Webster: — Que as esperanças da liberdade repousam unicamente sobre a inteligência e vigor da raça saxônia!

Erasmo.