Ao ouro

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Ao ouro
por Manuel Botelho de Oliveira


I
Este que em todo o mundo obedecido,
Este que respeitado
Nos subornos mortais de pretendido,
Agravo esquivo, mais que lindo agrado,
Morte se aclama, pois da mesma sorte
É pálido o metal, pálida a Morte.

II
Os Monarcas sustentam poderosos
Neste metal prezado
Impérios, se violentos, generosos;
Porém tendo nos Reis império amado,
(Executando fáceis vitupérios)
Tem império nos Reis, é Rei de Impérios.

III
A justiça corrompe verdadeira;
No Ministro imprudente
Quebra as regras de justa, as leis de inteira;
Pois este forma no interesse ardente
(Não com fiel, mas infiel desprezo)
Da cobiça a balança, do ouro o peso.

IV
Inferno se padece lastimoso,
Não se logra Ouro claro
Nas graves pretensões de cobiçoso,
Nos obséquios solícitos de avaro;
Um o procura, outro não goza dele,
Este Tântalo está, Sísifo aquele.

V
Quando faltava d'ouro a gentileza,
A gente pobre, e rica
Lograva idade de ouro na pobreza.
Mas quando nesta idade se publica
Em contrários motivos de impiedade,
De ferro idade fez, não de ouro idade.

VI
Qual Áspid', que entre flores escondido
Na florida beleza
Brota ao peito o veneno mal sentido,
Assim pois na luzida gentileza
Mata o metal, matando brilhadores
Nos luzimentos um, outro nas flores.

VII
Profanando de Dânae a vã pureza
Em chuvosos amores,
Apesar de engenhosa fortaleza,
Apesar dos cuidados guardadores,
Murchou na chuva de ouro rigorosa
O modesto jasmim, a virgem Rosa.

VIII
Entre o logro da paz solicitada
A guerra determina
Bem que ouro brilha, enjeita a paz dourada;
E quando Márcias confusões afina
A paz compra de sorte, que na terra
Guerra se vê da paz, é paz da guerra.

IX
A Natureza em veias escondidas
Cria o metal oculto,
Quiçá piedosa das mortais feridas:
Mas quando o desentranha humano insulto,
Da mesma veia, donde nasce belo,
Corre logo a ambição, mana o desvelo.

X
O rigor se arma, a guerra se refina,
A cobiça se apura,
A morte contra o peito se fulmina,
O engano contra o peito se conjura
De sorte, que acumula ao peito humano
Rigor, guerra, cobiça, morte, engano.
Canção, suspende já de Euterpe o metro,
Que em Fílis tens para cantar no Pindo
De seu cabelo de ouro, ouro mais lindo.