Artigo de Euclides da Cunha de 1º de outubro de 1897

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Diário de uma expedição
por Euclides da Cunha
Publicado no Estado de São Paulo em 25 de outubro de 1897.


Não há manhãs que se comparem às de Canudos; nem as manhãs sul-mineiras, nem as manhãs douradas do planalto central de S.Paulo se equiparam as que aqui se expandem num firmamento puríssimo, com irradiações fantásticas de apoteose. Douram-se primeiro as cristas altas de Cocorobó. Paço de Cima e Canabrava e a onda luminosa do dia sulca-lhes, lentamente ascendendo, os flancos abrutos e ásperos semelhando uma queimada longínqua, nas serras. A orla iluminada amplia-se, vagarosamente, descendo pelos contrafortes e gargantas das montanhas fimbradas de centelhas....Depois a pouco e pouco, um raio de sol escapa-se, tangenciando as quebradas mais baixas, e sucedem-se rapidamente outros e vingando logo após a barreira das montanhas o dia desdobra-se deslumbrante sobre a planicie ondulada, iluminando-se repentinamente todas as vertentes das serras do Cambaio, Caipan e Calumbi, até então imersas na penumbra.

E há como que uma harmonia estranha nos ares de uma região da qual fugiram, de há muito, espavoridas, todas as aves. Uma harmonia imperceptível quase e profunda, feita pela expansão íntima da terra ante o beijo ardentíssímo da luz, recordando o fato mitológico da estátua de Mnemon, de Thebas.

Hoje, porém — coincidência bizarra! — observei pela primeira vez uma manhã enevoada e úmida persistentemente varada por uma garôa impertinente e fina; uma manhã de inverno paulista. E quando os primeiros tiros da artilheria ressoaram, dando começo a mais um encontro crudelíssimo com os nossos selvagens adversários, parece-me que mais lúgubre se tornou a manhã, agravada pela fumarada negra e espessa do bombardeio.



Este foi violento, desapiedado, formidável; assistí-o da sede da comissão de engenharia.

Uma a uma, com uma precisão matemática, as granadas estouravam dentro da área reduzida do inimigo, batendo-a em todos os pontos, casa por casa; ricochetando em certos lugares e abrindo um círculo amplíssimo de estragos, suspendendo além, bruscamente, numa explosão enorme, a poeira intensa dos escombros, alevantando mais longe a coma fulva e desgrenhada dos incêndios.

Durante quarenta e oito minutos os canhões da Sete de Setembro, do centro e da direita da linha fulminaram, reviraram, revolveram um trecho do povoado onde repugnava à razão admitir a existência de homens, sobrehumanamente bravos embora. E durante todo esse tempo sob uma avalanche pesadíssima de ferro, nem uma vez se alteou da zona fulminada, imersa toda numa quietude pasmosa, inconceptível quase; nem um vulto correndo estonteando pelas vielas estreitas e tortuosas, nem a mais leve agitação patenteavam a existência de seres, ali dentro.

A artilheria fez estragos incalculáveis nas pequenas casas, repletas todas. Penetrando pelos tetos e pelas paredes as granadas explodiam nos quartos minúsculos despedaçando homens, mulheres e crianças sobre os quais descia, as vezes o pesado teto de argila, pesadamente, como a lagem de um túmulo, completando o estrago. Parece, porém, que os mal feridos mesmo sofreiavam os brados da agonia e os próprios tímidos evitavam a fuga, tal o silêncio, tal a quietude soberana e estranha, que pairavam sobre as ruínas fumegantes, quando, às 6 e 48 minutos, cessou o bombardeio.

Foi determinado o assalto. Dois batalhões de linha, o 4º e o 29º, atravessaram, de armas suspensas, aceleradamente, a marche-marche, o rio; galgaram, rápidos, o barranco empinado da margem esquerda e surgiram do baioneta calada em frente da igreja nova.

Um belo movimento heróico executado num minuto.

Nesse momento passou-se um fato extraordinário e inesperado em que pese aos números exemplos de heróica selvatiqueza revelada pelo jagunço.

De todas as casas, há poucos minutos fulminadas, irrompendo de todas as frinchas das paredes e dos tetos, saindo de todos os pontos explodiu uma fuzilaria imensa, retumbante, mortífera e formidável, de armas numerosas rápida e simultaneamente disparadas — e sobre os batalhões assaltantes refluiu a réplica tremenda de uma saraivada, impenetrável, de balas!

Isto logo após o bombardeio, logo depois da agitação da metralha terrível e demolidora que os trucidou, despedaçou e mutilou — mas não destruiu a formatura para o combate...

Sejamos justos — há alguma coisa de grande e solene nessa coragem estoica e incoercível, no heroísmo soberano e forte dos nossos rudes patrícios transviados e cada vez mais acredito que a mais bela vitória, a conquista real consistirá no incorporá-los, amanhãn, em breve, definitivamente, à nossa existência política.

Vi caírem as primeiras vítimas sobre o acervo informe das ruínas da igreja, sobre os grandes, blocos de pedra da fachada disjungida e desmantelada pelas balas. Foram muitas, tantas que a princípio acreditei que, obedientes a um preceito rudimentar de tática, muitos soldados houvesse caído de bruços para atirar com mais segurança e melhor.

O combate prosseguiu vivamente. Ressoaram as cornetas reproduzindo o toque partido da Sete de Setembro onde se achava o general Arthur Oscar.

Ouví nitidamente a ordem para que avançasse o 5º de polícia da Bahia.

O 5º avançou.

Não foi a investida militar, o avançar franco, numa larga exposição do peito aos tiros, do 4º e do 29º; mas um como que serpear rápido e heróico, um cintilar vivíssimo de baionetas ondulantes, traçando uma sinuosa fulgurante de lampejos desde o leito do rio até ás ruínas da igreja.

O mesmo avançar dos jagunços, — célere, serpeante, escapando à trajetória retilínea — num colear indescritível e fantástico quase, como se aqueles duzentos homens fôssem as vertebras imobilíssimas de uma serpente enorme investindo num bote atrevido contra o povoado o envolvendo, numa construção vigorosa, com a cauda de aço flexível e forte, o baluarte sagrado do inimigo.

O 5º de polícia é todo constítuído por sertanejos do interior da Bahia e de outros estados e o seu desassombro no combate e a capacidade singular de adaptar-se às mais duras condições de uma campanha, patenteiam admiravelmente o valor e a tempera resistente dos nossos rudes patrícios dos sertões.

Momentos antes dessa investída, caíra mortalmente ferido o major Queiroz, comandante do 29º. Vi-o, depois, no hospital de sangue. Emoldurado o rosto arroxeado pela barba branca maltratada, o aspecto do digno chefe comovia profundamente. Um ponto negro, de sangue coagulado, na raiz do nariz, indicava a entrada da bala. Um ponto negro, pequeníssímo, imperceptível a dez passos de distância; em compensação, porém a fronte nobre e ampla, sulcada diagonalmente, mostrava o curso do projétil dentro do crânio.

Às 8 horas, era geral o combate em que se empenhavam outros corpos, além da 3ª e 6ª brigadas.

Nessa ocasião uma nova absolutamente inesperada abalou a todos: morrera, atravessado por uma bala, quando observava de binóculo, numa trincheira, o movimento da batalha, o tenente-coronel Tupy Caldas.

Era um oficial de carreira, um militar de raça, um esplêndido general do futuro.

Estatura pequena: magro, seco, nervoso, fisicamente frágil: olhar sem expressão animando-se, porém, repentinamente, nas discussões em que mal sofreiava as expansões de um temperamento apaixonado e forte; a um tempo simples e ávido de renome; modesto, mas tendo, perene, n'alma, o sonho indefinido, a idealisação suprema e absorvente da glória.

Ultimamente atravessava o acampamento arrimado em comprido bordão, com o andar titubeante e incerto dos beribericos.

Rodeava-o a simpatia de todos. Os seus comandados diretos, os soldados do 30º, respeitavam-o como a um pai.

No dia 30, à tarde, quando me dirigia para o acampamento do batalhão paulista, encontrei-o.

Interpelou-me de longe:

— Então, seu doutor, já recebeu o trabuco que lhe mandei?

Uma arma interessante; há de fazer um sucesso enorme em São Paulo.

Agradeci-lhe o presente na véspera enviado e depois de breve troca de palavras, disse-lhe:

— Sabe que o general não concorda que entre amanhã no combate?

—Sei, sei, o Arthur é muito meu camarada e teme pela minha moléstia... Mas não acha que é um contrasenso ficar na minha barraca agora, no fim de tudo, eu, que suporto há tanto tempo este inferno?...

Ficar na cama no fim da festa, justamente quando vão servir os doces... Não! falta só um dia, vou até ao fim.

E faltava-lhe só um dia e foi até ao fim o bravo e dedicado lidador, uma magnífica existência heróica atravessada ao rítimo febril das cargas guerreiras, uma vida que foi um poema de bravura tendo como ponto final uma bala de Mannlicher.

Correu um frêmito, mixto de pavor, de espanto e de cólera pelas fileiras do 30º. Houve um momento de vacilação e depois, como um só homem, mudo, assombrado, terrível, o batalhão saltou sobre a trincheira, transpô-la de um salto, caíu no solo violentamente batido pela fuzilaria e enfrentando a morte precipitou-se sobre o inimigo, marche-marche, sem disparar um tiro, impetuosamente, varrendo-o à baioneta e a coice de armas!

E — fato que teve muitas testemunhas — o soldado ao voltar desta carga tremenda, ferido, mutilado ou chamuscado pelo incêndio, coberto pela poeira dos escombros, exausto e ofegante da luta, vestes despedaçadas nos pugilatos corpo a corpo, indifferente à dor, indiferente à vida que se lhe escapava lentamente pelas artérias rotas, vinha chorando, murmurando com uma veneração estranha o nome do denodado comandante.

Generalisado o combate às 9 horas era difícil conjecturar sequer para que lado propendia a vitória. O inimigo resistia, indomável, dentro de um círculo de fogo.

Dissolveram-se nessa ocasião as névoas da manhã e um sol claríssimo iluminou a batalha..

Observei então que o incêndio lavrava a oeste do arraial, progredindo lentamente para a zona occupada pelo inimigo.

Às 10 horas a victória pairou um minuto sobre as nossas armas, mas desapareceu de pronto. Fora tomada a igreja nova e um cadete do 7º cravara, audaciosamente, no alto da parede destruída do templo a bandeira nacional.

As cornetas tocaram a marcha batida e um viva à República imenso e retumbante saiu de milhares de peitos.

Surpreendidos por esta manifestação estranha, os próprios jagunços cessaram, por momentos, o tiroteio.

Na larga praça das igrejas fervilhavam soldados, atumultuadamente, andando em todas as direções, trocando saudações entusiásticas. Era a vitória, por certo.

Eu estava a cerca de 200 metros apenas da praça, no quartel general do general Barbosa. Desci rapidamente a encosta e entrei na zona do combate. Não gastei dois minutos na travessia. Ao chegar, porém, ouvi, surpreendido, sobre a cabeça, o sibilar incomodo das balas.

Tudo é incompreensível nesta campanha: a batalha continuava mais acesa e mortífera se é possivel.

Abeirei-me de uma trincheira.

Estava ali um batalhão sob o comando do capitão Raymundo Magno da Silva.

Nessa ocasião três estampidos mais fortes que a explosão das granadas fizeram-se ouvir, próximo à latada.

Tinham sido arremessadas três bombas de dinamite sobre os jagunços. Senti o solo estremecer numa vibração rápida e forte de terremoto.

Cessaram os tiros do inimigo e três colunas de fumo, precursoras do incêndio, determinaram os pontos flagelados.

Mas estas não se tinham ainda dissolvido nos ares e a fuzilaria inimiga, restando a refrega, batia outra vez, violentamente, às nossas linhas.

Mais violenta, se é possível, prosseguia a batalha.

Voltei para o meu posto de observação, cautelosamente, desenfiando-me pelas casas e ao atingir o alto da encosta, vi passar, numa rede, agonisante, o capitão Aguiar, assistente do general Carlos Eugenio.

No extremo de um beco estreitissimo, abrigado por uma casa a poucos passos das trincheiras, o malogrado oficial conversava com o tenente-coronel Dantas Barreto e o capitão Abilio, assistente do general Arthur Oscar, quando, ao passar um batalhão que avançava, se afastou dos companheiros para observar, da esquina, a investida. E ao observá-la, vigorosa e impávida, o moço republicano, que era um oficial valente, jovial e bom, tirou o chapéu, agitando-o entusiasticamente e ergueu — febricitante — um viva fervoroso à República.

Essa saudação custou-lhe a vida; a vida fugiu-lhe do peito de envolta nas vibrações de um brado heróico, precisamente na ocasião em que a sua alma sincera anceiava pela existência eterna da República.

Morreu como sabem morrer os imortais, aquele digno, leal e esplêndido companheiro...

Às 10 horas e 52 minutos nos estampidos abalaram os ares e novamente estremeceu a terra em torno de um punhado de valentes transviados; novas bombas de dinamite derramaram a devastação e a norte na zona convulsionada em que lutavam os últimos jagunços. E despedaçados pelas explosões fortíssimas que dispartiam em todas as direções os restos das casas destruídas, sob os escombros fumegantes, sob um chuveiro de balas, apertados num círculo e baionetas e de incêndios, aquela gente estranha não fraqueou sequer na resistência.

As nossas baixas avultavam. As padiolas e redes passavam, incessantemente, inúmeras, como uma procissão lutuosa e triste dos que seguiam a romaria trágica para o túmulo.

No hospital de sangue um quadro lancinante, indefinível.

Sem espaço mais dentro das armas barracas os feridos acumulavam-se, fora, no chão ensanguentado, sob o cáustico abrazado de um sol inclemente e fulgurante, atordoados pelos zumbidos agourentos e incomodos das moscas, fervilhando em numero incalculável.

Quando à 1 hora da tarde contemplei o quadro emocionante e extraordinário, compreendi o gênio sombrio e prodigioso de Dante. Porque uma coisa que só ele soube definir e que eu vi naquela sanga estreitíssima abafada e ardente mais lúgubre que o mais lúgubre vale do Inferno: A blasfêmia orvalhada de lágrimas, rugindo nas boccas simultaneamente com os gemidos da dôr e os soluços extremos da morte.

Feridas de toda a sorte, em todos os lugares, dolorosas todas, gravíssimas muitas, progredindo numa continuidade perfeita dos pontos apenas perceptíveis das Mannlichers, aos circulos maiores impressos pelas comblains, os rombos largos e profundos abertos pelas pontas de chifre, pelos pregos, pelos projéteis grosseiros dos bacamartes e trabucos.

Vibrava no ar um côro sinistro de imprecações, queixas e gemidos. Quase todos contorciam-se sob o íntimo acúleo de dores cruciantes, arrastavam,-se outros disputando um resto de sombra das barracas, quedavam-se muitos, as mãos cruzadas ou espalmadas sobre o rosto, resguardando-o do sol, imóveis, estoicos, numa indiferença mórbida pelo sofrimento e pela vida.

No fundo dos barracões, arrimados sobre os cotovelos ou sentados, os antigos doentes, os feridos dos combates anteriores, olhavam assustados para os novos companheiros de desdita, sócios das mesmas horas de desesperança e martírio.

A um lado,lançados sobre o chão duro, francamente batidos pelo sol, alinhavam-se três cadáveres— o tenente-coronel Tupy, o major Queiroz e o alferes Raposo.

Felizes os que não presenciaram nunca um cenário igual...

Quando eu voltei, percorrendo, sob os ardores da canícula, o vale tortuoso e longo que leva no acampamento, sentia um desapontamento doloroso e acreditei haver deixado muitos ideaís, perdidos, naquela sanga maldita, compartindo o mesmo destino dos que agonisavam manchados de poeira e sangue....



A 1 hora e 45 minutos cheguei à séde da comissão de engenharia e observei o combate.

A situação não mudara.

Dentro de um cumulus ennovelado e pardacento de fumaça agitava-se ainda, doidamente, o encontro. Cinco minutos depois partiu do comando em chefe um toque geral de infantaria avançar sobre as trincheiras. A infantaria avançou sem conseguir torná-las. A estrada, os sulcos profundos abertos pela dinamite eram trancados tenazmente pela fuzilaria.

Impossível formar-se a mais leve idéia sobre a situação. Insistentes, imprimindo em todo aquele tumulto a nota singular de uma monotonia estranha, reproduziam-se em todas as linhas, de minuto em minuto, incessantes, sem variantes, às notas estrídulas das cornetas determinando a carga.

E as cargas realisavam-se, sucessivas, rápidas, constantes, vigorosas, inflexíveis; pelotões, batalhões e brigadas, ondas cintilantes de baionetas feridas pelo sol, rolavam, quebravam-se ruidosamente sobre as trincheiras intransponíveis.

Vi, nessa ocasião, o coronel Sampaio atravessar lentamente, a pé, a praça na direção do combate. Não tirara os galões; encarava serenamente os perigos dentro do alvo tremendo da própria farda, francamente exposto nos tiros do inimigo, que visava de preferência os chefes. Desapareceu com o mesmo andar tranquilo no seio dos combatentes.

À margem esquerda do Vasa-Barris uma linha de baionetas desdobreava-se, extensa, da igreja velha à nova. Era a ala direita do batalhão paulista, correto sempre, severamente subordinado ao dever e pronto a enfrentar os perigos à primeira voz.

A outra ala, dentro de Canudos, sustentava brilhantemente no seio da refrega, as grandes tradições dos soldados do Sul.

Às 2 e 20 uma nova vibração do solo chegou até ao ponto em que eu estava — novas bombas de dinamite eram lançadas sobre o inimigo e um novo incêndio irrompeu, listrando a fumarada com as línguas vermelhas das chamas.

Mais violento e mortífero prosseguia o combate.

E pela encosta acima, defluindo da sanga profunda, dentro da qual se estendia a linha avançada do 25º batalhão, longa, constante, subia sempre a trágica procissão dos mortos e feridos em direção ao hospital de sangue.

Em padiolas uns, carregados outros em redes, ascendiam lentamente a colina escalvada pela longa estrada pontilhada de gotas de sangue.

Alguns subiram sós, a pé, vagarosamente, titubeantes, parando de minuto em minuto, exaustos, resfelegando penosamente, arrimando-se às casas, numa exaustão contínua de forças, arrastando-se num esforço extraordinário, até ao alto.



A verdade é que ninguem poderia prever uma resistência de tal ordem.

O ataque foi lógico, imposto severamente pelas razões mais sólidas e o seu plano, perfeitamente bem concebido, resistirá com vantagem à critica mais robusta.

Tudo, porém, só surpresas nesta campanha original.

À tarde reconheceu-se definitivamente que a situação não mudaria.

Só havia uma providência a tomar — conservar as posições arduamente conquistadas embora não se revistissem de importância que compensasse os sacrifícios feitos.

Reduzira-se, entretanto, de muito, a área occupada pelo inimigo. Esta redução de espaço, porém, parecia haver determinado a condensação da sua energia selvagem.

A noite desceu serenamente sobre a região perturbada do combate e rasgando o seio da noite, caindo, insistentes, sobre todos os pontos da linha do cerco, sibilando em todos os tons sobre o acampamento, inúmeras, constantes, da zona reduzida em que se encontravam os jagunços, irrompiam as balas.