Artigo de Euclides da Cunha de 17 de março de 1892

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Diário de uma expedição
por Euclides da Cunha


Sejamos otimistas. É um dever isto para os que envelheceram a mocidade trilhando as ásperas devezas, a abrupta e alcantilada estrada da propaganda democrática. Não vejamos, como os cronistas elegantes da oposição, um fantasma de Napoleão III no Sr. Floriano Peixoto, para fugir ao qual precisamos dum espantoso Sedan de esperanças e antigos ideais...

Quando mesmo, por uma espantosa aberração mental, unicamente admitida numa hipótese ousada, o velho marechal se deslumbrasse a tal ponto pelas magias do poder — nem tudo estaria perdido: restariam inexoráveis e heróicos contra a déspota, os mesmos princípios que o sustentam.

Acostumados a uma espécie singular de revoluções feitas de flores e hinos triunfais, adoráveis revoluções que se desfazem em passeatas e discursos e aonde só há uma coisa assustadora — prurido tribunício dos Desmoulins indígenas — ou os ferventes ditirambos com que se rimam depois os perigos problemáticos da jornada, acostumados a isto, o nosso sentimentalismo doentio e burguês agita-se lamentavelmente ante os atos vigorosos e inexoráveis, que traduzem sempre a marcha desassombrada de uma idéia.

E tudo isto é natural e irremediável.

Supõem por acaso, os nossos intransigentes adversários, que a marcha do sistema social faz-se como a translação dos sistemas invariáveis da mecânica, sob o impulso de leis determinadas e positivas?...

Têm a feliz ingenuidade de acreditar que sejam os artigos da Constituição — leis necessárias e fatais, quando a sociologia, apenas esboçada, não pode realizar a previsão no campo dos fenômenos que estuda?

Não acreditam certamente: antes sabem que a elucidação desse problema vai constituir a mais dura tarefa do futuro.

Demais, a história, a comparação histórica, não nos aponta o fato de um povo que não tenha — em sua organização definitiva — pago um doloroso tributo de sangue e demoradas agitações.

Foram precisos doze anos, doze anos malditos de privações e lutas, aos Estados Unidos para, amparados de um lado pela grande alma de Washington e de outro pelo gênio de Hamilton, formarem a Constituição à qual devem um século de prosperidades.

Ainda assim — à luz de um código fundamental, cujos artigos, lentamente — um a um — foram calcados sobre as necessidades que surgiram — para realizarem mais tarde, através dos horrores da secessão, a reforma abolicionista, foi preciso que ao espírito brilhante de Lincoln se aliasse o brilho da espada de Ulysses Grant.

As sociedades, como os indivíduos da vasta série animal, obedecem a uma grandiosa seleção, para o estudo da qual já se fez preciso que apareça um Darwin ou um Haeckel.

As duas leis fundamentais da adaptação e da hereditariedade atuam sobre elas numa escala maior, mais difícil de perceber-se e o progresso, resultante inevitável das ações simultâneas desses dois fatores, nem sempre, em princípio — se manifesta de modo a satisfazer a mórbida afetividade de quem quer que seja.

Presos, vinculados ainda pela hereditariedade ao passado regímen, toda essa agitação que por aí vai, toda essa luta entre o que éramos ontem e somos hoje — é a luta pela adaptação aos novos princípios, princípios que atingiremos lenta mas fatalmente...

Sejamos otimistas, pois.

Tudo o que por aí tumultua num aparente caos de agitações e revoltas é o reflexo de uma vasta diferenciação, através da qual se opera, majestosa, a seleção do caráter nacional.

A idéia republicana segue sua própria trajetória — fatal e indestrutível como a das estrelas — e bem é que lhe demarque o caminho percorrido a triste ruinaria das coisas e dos homens que não valem nada.