Artigo de Euclides da Cunha de 4 de setembro de 1897

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Diário de uma expedição
por Euclides da Cunha
Publicado no Estado de São Paulo em 21 de setembro de 1897.


TANQUINHO — São dez horas da noite. Traço rapidamente estas notas sob a ramagem opulenta de um joazeiro, enquanto, em torno, todo o acampamento dorme.

Tanquinho é positivamente um lugar detestável e o viajante que vence as cinco léguas que o separam de Queimadas tem a pior das decepções ante esta lúgubre tapera de duas casas abandonadas e destruídas, quase invadidas pela galhada áspera e inextricável do alecrim dos taboleiros de cujo seio emergem cactos esguios imprimindo à paisagem uma feição monótona e tristíssima.

Chegámos à uma hora da tarde, depois de cinco horas de viagem sob um sol abrazador, através das catingas intermináveis, por uma estrada magnífica, é certo, mas cujo leito arenoso multiplica enormemente os ardores da canícula.

Trouxe longamente sofreiada uma sêde indefinível.

Não se pode avaliar de longe, o que é uma viagem nestas regiões estéreis onde não se encontra o mais exíguo regato, o mais insignificante filete de água. Apenas em raros pontos deparamos com minúsculas lagoas, já numa transição perfeita para pantanos, com a superfície líquida revestida da vegetação caracteristica.

Em uma delas — surgindo como todas nos pontos em que afloram, rompendo as camadas de grez, largas bossas de terreno granitico — aventurei-me a satisfazer a sêde.

Ao desarmar, porém, subsequentemente o filtro Grandjean, fiquei aterrado ante a crosta impura deposta sobre a placa: um microscópio vulgar ali descobriria dez espécies de algas.

Sem exagero — este primeiro dia de viagem — que é um idílio aos que nos aguardam — patentes já todos os tropeços que se antolharam às expedições anteriores. E somos uma comitiva pequena, perfeitamente disposta, ligada pela melhor cordialidade, trazendo todos os recursos, perfeitamente montada.

O marechal Bittencourt e mais alguns companheiros resistem galhardamente; alguns, porém, já se sentem extenuados.

Avistamos o Tanquinho com a íntima satisfação dos que se dirigem para um oásis. Antes seguíssemos porém, a despeito do cansaço e do calor, demandando um ponto mais remoto.

Vou riscar da minha carta o pequeno círculo com que condecorei esse logar maldito e substituí-lo por um ponto imperceptível. Que todos os viandantes fujam destas duas casas velhas e acaçapadas em cuja frente os mandacarús esguios elevantam-se silentes e rígidos, como imensos candelabros implantados no solo, segundo a bela comparação de Humboldt.

Às sete horas da noite, em companhia do comandante do regimento policial da Bahia e dois companheiros do estado-maior, dirigi-me ao tanquinho que batisa o lugar.

Naquele ponto, irrompendo entre possante camada de grez, surge uma apófise do terreno granítico subjacente. O tanquinho tem provavelmente como leito a rocha impermeável. Rodeado de mandacarús (tristes vegetais que são uma obcessão quase para o viajante) dificilmente se pode imaginar a feição lúgubre do lugar naquela hora.

Alguns doentes, que seguem para Queimadas, ali pousavam e, acesas na fogueira em torno das quais passam a noite, formavam à claridade indistinta das chamas — acocorados uns perto do fogo, caminhando outros claudicantes e vagarosos mais longe, projetando sobre a superfície das águas as sombras disformes — um conjunto trágico e interessante.

Ao abeirar-me sequioso da borda do pântano, uma múmia coberta de trapos ergueu-se, tentando fazer a continência militar.

Examinei-o e tive a fraqueza de deixar transparecer, talvez invencível repugnância ao pensar que ia beber no mesmo lugar em que tocaram aqueles lábios gretados pela febre. Atirei porém, corajosamente, na água o tubo do filtro, sugando um líquido que tem saciado a todos os cavalos e lavado a todos os feridos das expedições anteriores.

É uma água pesada que não extingue a vida.

Às 8 horas todo o acampamento dormia.

Consulto o meu aneróide e vejo que estamos a 30 metros sobre Queimadas.

Escritas estas notas, não sei se poderei dormir.

Felizmente um céu fulgurante e amplo é o docel do meu leito rude de soldado — um selim, uma manta e um capote.

Orion fulgura prodigiosamente belo a pequena altura sobre o horizonte, e eu irei afugentar as saudades profundas evocando noções quase apagadas de astronomia, percorrendo numa romaria olímpica os céus — perdido, entre as estrelas...