Artista sacro

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Artista sacro
por Cruz e Sousa
Texto publicado em Missal

Na catedral, com toda pompa e liturgia, celebras-se a Semana Santa.

Pela Ressurreição, às quatro horas da manhã, há na igreja um ar vago de alvorada, em amarelo cidrento, trazida da rua pela larga e polida vidraçaria que se conserva alerta - ar menos vago, contudo, do que a névoa que turva fora os aspectos, em virtude dos lustres acesos, da variada profusão de luzes e da gala sagrada que enche de resplandecências e solenidades toda a extensa Nave onde os devotados católicos murmurejam num crescendo de mar tormentoso e cavado...

O Altar-Mor está vistosamente ornado, deslumbrante, viçando de flores colocadas em jarras azues e doiradas, numa frescura e colorido cromático de jardim, rodeado de grandes tocheiros arabescados que faíscam, flamejam com chamas ensangüentadas e amarelas.

Em cima, até onde os olhos sobem mais, num trono de luzes, entre uma pesada cortina de damasco vermelho, de tons profundos, caída para os lados em pregas longas e largas, vê-se o Cristo, na alegoria de Redivivo, com a chaga simbólica no flanco direito, tendo numa das mãos um ramo verde.

Nos altares laterais os Santos, como que ainda mostram possuir a auréola triunfal da Aleluia, sorrindo seraficamente, quer os mártires, quer os gloriosos.

Pelo teto abobadado, dentre as melífluas harmonias, as melancólicas sonoridades dos violinos, das flautas, dos violoncelos e do órgão pianíssimo, ecoam majestosas as vozes que irrompem do coro, beatíficas no Kirie Eleison.

Os sacerdotes, festivamente paramentados, com as suas casulas custosas, relampejantes, bordadas a flores de ouro, em alto relevo; de estolas rutilantes e franjadas pendidas no braço ou com as sobrepelizes alvas e rendadas destacando forte na batina preta, curvam-se genuflexos diante do Altar-Mor, erguendo-se após com mesuras graves e medidas, enquanto os acólitos, ao fundo, em linha e reverentes, fazem balançar, cadenciada e ritmamente, turíbulos lavorados, de onde se exalam espiralados incensos...

E o Cerimonial prossegue, na minudência exata, escrupulosa, do Rito romano.

Mas, nas suntuosidades da festa, ressalta de magnificências, esmaltadamente, um esbelto sacerdote novo e formoso talhado em estátua branca, e que ergue no meio das outras vozes, a sua clara voz sonora cheia de unção religiosa como de um sentimento, amoroso e carnal.

Chagado há pouco de Roma é essa a primeira cerimônia de mais estilo em que toma parte com o seu tipo amável, doce e misericordioso, amantíssimo, de São Luiz Gonzaga.

A sua linda cabeça suave, direita, correta, através da vaporosidade incensal, domina pela saúde e pela mocidade, que resplende no rosto liso, escanhoado, onde os olhos brilham com raios místicos...

O seu porte ornamental, que aprece afirmar o poder de uma força divina, conserva-se aprumado, erecto; e, quando a voz se lhe desprende untuosa dos lábios, como que ele paira num esplendor espiritual, vaga num nimbo etéreo, cercado por alas de querubins inefáveis e de arcanjos de asas fulgentes...

De toda essa pessoa clerical como que vêm fluidos magnéticos, que fascinam e prendem certos olhares juvenis femininos, que a seguem, que a buscam em todas as direções, em todos os movimentos, sofregamente, deliciados da sua prodigiosa figura que ali naquele recinto sagrado tão imperiosamente e tão alto se destaca, como que revestida de poderes celestes.

E o sacerdote instintivamente percebe os êxtases, os enlevos que desperta nas mulheres belas, porque então dá mais nitidez às mesuras, requinta nas curvaturas solenes, fica mais excelso e egrégio ainda, deixando escapar com brandura um sorriso paradisíaco, que é talvez a promessa sacrossanta dos dons maravilhosos, das graças, do Perdão infinito que a sua onipotência consegue.

Nas suas mãos aristocráticas, delicadas e níveas como hóstia, sente-se quando ele as eleva no ritmo do Cerimonial, um ligeiro estremecimento amoroso que o embaraça, fazendo com que logo, para apagar essa impressão pecadora, exagere o Rito, afetadamente.

Os olhares femininos, deslumbrados pelo êxito daquelas maneiras evangélicas, não deixam jamais de seguir o airoso sacerdote, as linhas harmoniosas da sua figura, o seu másculo vigor de deus viril e vitorioso, como seguem, no circo, os movimentos ágeis, dúcteis, e a plástica, firme e forte, dos corpos cinzelados acrobatas célebres e atraentes...

Realmente, na sua carne, que os incensos perfumam, circula o sangue em labaredas de instintos sexuais e a sua cabeça primaveril, que a Arte da religião abençoou em Roma, tem o encanto, a fascinação diabólica, satânica, da venenosa Serpe bíblica.

Mas, o decorativo apóstolo, resplandecendo nas vestes talares, imponente, magistral, faz simbolicamente lembrar, assim venerado pelas mulheres, com fervor beatífico, um Sultão em palácio, no Bosforó, como Abdul-Azid, amado por odaliscas e sultanas.

De vez em quanto, no templo, passam fios etéreos de harmonias de instrumentos e cânticos, que ondulam, que flutuam no ar...

E o Eclesiástico, numa volúpia sacra, com toda essa Arte ritual de símbolos, de missais, de eucaristias, de pálios, de pedras de ara, de corporais, de âmbulas de santos óleos, de chamalotes, lavrados e damascos, íris, lhamas de prata e ouro, recebe a opulência, o brilho feérico, o luminoso esplendor de um astro.

De lá, do seu sólio real de aparatosos efeitos, entre sedas, chamas e pedrarias, ele rege, com renomes episcopais, solene e sereno, a sinfonia das eternas Dúlias.

É o ateniense das formas católicaromanas, triunfando no idealismo de um gótico, de um medieval, através de cinzeluras de templos, com refulgências siderais de constelado...

Casto cenobita, recluso nas celas do Cristianismo, ficará, talvez, para sempre com enlanguescimento histérico, na muda contemplação das cismadoras imagens liriais dos hagiológios.

Ou, batido da realidades carnais, sentindo a avidez das paixões terrestres, verá passar, ante os olhos mortificados na marmórea veneração de Jesus, à luz de círios ou de lâmpadas, violentamente, a visão cor-de-rosa das virgens vitais - fina, transparente epiderme da gaze auroral das papoulas.

Então, dirá decerto ao mundo, extasiado por essas vivas expressões carnais que o transfiguram e humanizam, todos os mistérios, todos os inauditos clarões da Eternidade, que Ele, Artista Sacro, transcedentalmente conhece, lendo sempre, para dar mais abstração ao Miraculoso, os arcaicos latins apocalípticos e antifônicos...