As Asas de um Anjo/Complemento

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As Asas de um Anjo por José de Alencar
Complemento

A representação da minha comédia As asas de um anjo acaba de ser proibida pela polícia; e embora ignore os motivos que deram lugar a essa resolução, não posso deixar de discuti-la: é o meu direito de escritor; é o meu dever de autor de uma obra sobre a qual se pretende lançar o anátema.

Cumpre-me porém declarar que recebi a notícia que transmito ao público sem emoção, sem abalo, com a mais profunda indiferença. Em outra circunstância ela me alegraria, como também deviam alegrar-me as censuras e acusações de imoralidade dirigidas contra a comédia; porque tudo isso não terá outro resultado senão excitar a curiosidade pública, e dar a uma composição sem merecimento o estímulo e o sainete do fruto vedado.

Mas atualmente essa popularidade artificial que a ordem da polícia dará à minha obra, já não me lisonjeia; de volta às minhas lidas de advogado, as veleidades literárias passaram, e o pequeno rumor que elas pudessem fazer não seria capaz de distrair-me de outros estudos; apenas delas me restam as lembranças do prazer que sentia vendo a minha ideia surgir como um gérmen imperceptível, crescer e materializar-se numa criação; paternidade do espírito, gozo supremo da inteligência, que só compreendem aqueles que escrevem.

Não é pois o despeito que me obriga a quebrar o silêncio, e trazer à imprensa, uma discussão literária; não posso ressentir-me de um fato que concorrerá para dar voga, embora efêmera, ao meu livro; mas prezo-me de respeitar a moral pública, não só nas minhas palavras, como nas minhas ações; e custar-me-ia muito deixar pesar sobre mim uma suspeita injusta.

Eis a única razão por que discuto; não desejo a revogação da ordem; não aspiro à representação da minha comédia; se quiser dar-lhe maior publicidade, tenho ainda um meio, a imprensa, que não está sujeita à censura policial.

Ninguém ignora que uma composição dramática qualquer não pode ser levada à cena nos teatros desta corte sem duas formalidades essenciais: a licença do Conservatório, e a permissão da polícia. Ambas estas formalidades foram preenchidas na comédia As Asas de Um Anjo; o despacho do conservatório é de 14 de janeiro, e o visto da polícia de 25 de maio do corrente ano.

A proibição da comédia depois de ter subido três vezes à cena e sem nem uma manifestação reprovadora da parte do público, importa pois não só uma censura muito direta a uma corporação como o Conservatório Dramático, que não é subordinado à polícia; como uma contradição com o ato anterior; pois quando uma autoridade põe o seu visto em qualquer papel, é presumida haver lido e tomado conhecimento do conteúdo.

Deixando porém de parte essa questão acidental, entro na apreciação do fato.

A lei menciona três causas de proibição de uma obra dramática, e são: o ataque às autoridades constituídas, o desrespeito à religião, e a ofensa à moral pública; não havendo na minha comédia nada de relativo às duas primeiras causas, conjecturo que a acusação de imoralidade feita por alguns espectadores demasiadamente escrupulosos foi o único fundamento da ordem policial.

Vamos pois à essa imoralidade que tem feito la chaire de poule a tanta gente.

Quando tive a ideia de escrever As Asas de Um Anjo, hesitei um momento antes de realizar o meu pensamento; interroguei-me sobre a maneira por que o público aceitaria essa tentativa, e só me resolvi depois de refletir que as principais obras dramáticas filhas da chamada escola realista, — a Dama das Camélias, as Mulheres de Mármore, e os Parisienses, têm sido .representadas em nossos teatros; que a Lucrécia Bórgia, e o Rigoleto, transformação do Roi s'amuse de Victor Hugo, eram ouvidas e admiradas no teatro lírico pela melhor sociedade do Rio de Janeiro.

Confiando nestes precedentes, animei-me a acabar a minha obra e a apresentá-la ao público; esqueci-me porém que tinha contra mim um grande defeito, e era ser a comédia produção de um autor brasileiro e sobre costumes nacionais; esqueci-me que o véu que para certas pessoas encobre a chaga da sociedade estrangeira, rompia-se quando se tratava de esboçar a nossa própria sociedade.

Assistindo à Dama das Camélias ou às Mulheres de Mármore, cada um se figura que Margarida Gauthier e Marce são apenas duas moças um tanto loureiras, e acha espírito em tudo quanto elas fazem ou dizem; assistindo às Asas de Um Anjo, o espectador encontra a realidade diante de seus olhos, e espanta-se sem razão de ver no teatro, sobre a cena, o que vê todos os dias à luz do sol, no meio da rua, nos passeios e espetáculos.

Não me admirei, pois, quando apareceram as primeiras censuras de imoralidade: embora Margarida, Marce e Carolina sejam uma mesma mulher, só com a diferença dos sentimentos e da história, a última tinha contra si o não ser francesa, e não ser descrita pelo talento de A. Dumas.

Mas seriam esses escrúpulos que motivaram a ordem da polícia? Seriam essas razões que fizeram taxar de imoral a comédia?

As boas definições trazem as boas discussões, disse V. Hugo. Definindo o que seja imoralidade, é que podemos chegar a uma conclusão lógica sobre o pensamento da obra, e conhecer se ela merecia ser retirada da cena como um incentivo à licença dos costumes.

É imoralidade o ato que a moral reprova; não conheço outra definição mais simples e mais clara; não sei outro meio de verificar a existência de uma imoralidade, senão opondo os preceitos da boa, e da sã moral.

Estabelecido este ponto, pergunto:

Será imoral uma obra que mostra o vício castigado pelo próprio vício; que tomando por base um fato infelizmente muito frequente na sociedade, deduz dele consequências terríveis que servem de punição não só aos seus autores principais, como àqueles que concorreram indiretamente para a sua realização.

A lição que se dá aos pais de família sobre a necessidade de cuidarem da educação moral de seus filhos; a punição do sedutor que acabando por amar a mulher que ele seduziu, vê-se abandonado por ela; o castigo do moço pródigo, que depois de sacrificar toda a sua fortuna à uma amante, encontra nela o desprezo e o escárnio quando se trata de salvá-lo da desonra; a miséria que serve de termo à vida desregrada de uma pobre menina, impelida pela imaginação enferma, que lhe dourava o vício; o horror da filha que, vendo seu pai ébrio estender-lhe os braços lascivos, contempla o profundo abismo de abjeção e vergonha a que se arrojou; e finalmente o suplício de Tântalo de um amor partilhado e não satisfeito, de um amor cheio de remorsos e recordações pungentes, a acusação eterna, constante da consciência; tudo isto será imoral?

E entretanto é esta a ação da minha comédia; são aquelas as teses que me propus desenvolver no meio de um quadro de costumes brasileiros; não há aí uma só personagem que não represente uma ideia social, que não tenha uma missão moralizadora.

Carolina, a protagonista, é um tipo que me esforcei por copiar; não é uma criação minha. Um crítico bastante benévolo chamou-lhe um retrato d'après nature; se assim é consegui o meu intento apresentando a realidade da vida, e descrevendo a luta da mulher que esqueceu os seus deveres contra a sociedade que a despreza.

Esta menina pobre excitada pela leitura de romances e pela imagem do luxo, desdenha o amor puro de seu primo, e é seduzida por um moço rico que lhe acaba de perder a imaginação; desse primeiro erro nascem outros como consequências necessárias e fatais; ela percorre todos os degraus da escala desde a pobreza até ao luxo, desde o luxo até à miséria.

A sua existência torna-se uma punição viva de todos os cúmplices de seu erro; e em uma das cenas do 3.° ato, uma das personagens faz sentir bem claramente aquela circunstância, traçando em algumas palavras a história dessa moça. Eis o que diz Meneses:

“É talvez isto, Carolina, que faz da tua vida um fenômeno moral que eu estudo com toda a curiosidade. Tu és um desses flagelos, não faças caso da palavra, que a Providência às vezes lança sobre a humanidade para puni-la de seus erros. Começaste punindo teus pais que te instruíram e te prendaram, mas não se lembraram da tua educação moral; leste muito romance, e nunca leste o teu coração. Puniste depois o Ribeiro que te seduziu e o Pinheiro que te acabou de perder; ao primeiro que te roubou à tua família deixaste uma filha sem mãe; ao segundo que te enriqueceu, empobreceste. Só me resta ver como te castigarás a ti mesma; se não me engano acabas de revelar-me!”

Essa punição de que fala Meneses é o amor que Carolina tem por Luís, e que ele acaba de descobrir; é a ideia do desfecho da ação que se encontra desenvolvida no epílogo; é esse suplício de Tântalo de que falei; esse sentimento que tem vergonha de si mesmo; essa afeição impossível da mulher que se reconhece indigna; é enfim essa paixão odienta da criatura, que vendo-se pela sua falta, pelo seu passado, pelas leis da sociedade, afastada do abjeto que ama, se revolta contra tudo e contra todos.

Meneses é a razão social encarnada em um homem; ele respeita a sociedade até mesmo nos seus prejuízos e nas suas exigências ridículas; por isso Carolina nos seus arrebatamentos, e nas suas blasfêmias contra a virtude, encontra sempre a palavra severa do jornalista que, às vezes esquecido do lugar em que está e das pessoas que o ouvem, deixa-se levar pelos seus sentimentos de honestidade. Imitação do tipo Desgenais, ele tem uma diferença notável; não procura corrigir a sociedade, não a discute como filósofo ou moralista, defende-a.

Luís, artista pobre, que pelo seu trabalho chega a uma posição elevada, representa, ao contrário de Meneses, a razão absoluta, a razão superior à sociedade; esse sentimento que todos nós temos quando refletimos sobre algum dos prejuízos do mundo, à primeira vista tão injustos. A criação dessa personagem era necessária; ela devia realizar esse casamento que Meneses reprova, e que constitui a última punição de Carolina, mostrando-lhe a impossibilidade do seu amor.

Ribeiro e Pinheiro são dois tipos da nossa sociedade: o primeiro é o sedutor castigado com sua própria falta; o segundo é o pródigo que esbanja a sua riqueza; ambos reconhecem o seu erro e aceitam com resignação nobre a punição que Deus lhes inflige; o primeiro quer reparar, porém já tarde, a desonra de que foi causa; o segundo recorre ao trabalho honesto para viver.

Araújo é uma prova da felicidade que acompanha esses moços trabalhadores, cuja existência tranquila não conhece os desvarios da mocidade; Antônio é um exemplo da fraqueza de certas organizações, que, não sabendo lutar com a desgraça, deixam-se vencer por ela, e entregam-se ao vício para esquecer, mas que no próprio vício acham a lembrança do passado até o dia da lição tremenda; Margarida, boa e carinhosa mãe, expia a falta de zelo com que vigiou a flor de inocência de sua filha e a imprudência com que deixou que a larva da perdição, Helena, se aproximasse da planta mimosa.

Finalmente, Vieirinha e Helena, dualidade monstruosa, que pulula na última sentina da sociedade, têm também a sua missão de moralidade; ambos mostram que o vício é contagioso, e que a criatura, quando partilha a existência de certa classe de gente, identifica-se com ela; ambos são a encarnação da impudência, com a simples diferença dos sexos; para esses, a quem a regeneração não é mais possível, a punição é o riso e o desprezo que acompanham as suas ações; eles formam a parte cômica da obra.

À vista deste esboço das minhas personagens haverá quem duvide da alta, da escrupulosa moralidade das Asas de Um Anjo? Haverá quem reprove as lições terríveis que em cada página, em cada cena fazem o espectador estremecer de horror ou de indignação?

Não creio; um espírito, ainda o mais prevenido, não pode achar imoral a ação da comédia; o vício se apresenta, é verdade, mas para ser corrigido; e como já disse em princípio, não sou eu que o apresento; é a própria sociedade.

Com efeito a virgindade a mais delicada, a inocência a mais susceptível, vendo todos os dias uma dessas criaturas órfãs de pais, de filhos, de família, de parentes e afeições, como uma flor desbotada que a mão de um indiferente arrancou da sua haste e atirou ao pó; não compreende o mistério dessa vida isolada, dessa deserdação da sociedade?

Se pois o mundo nos desvenda o vício a todo o momento, por que razão o teatro, que é uma escola, não o arrastaria sobre a cena cobrindo-o com o ridículo, esmagando-o com o desprezo, para corrigi-lo, e mostrar no meio do tripúdio o anjo da virtude, sempre belo, sempre nobre, ainda mesmo no arrependimento?

Era um contrassenso; e a literatura moderna não podia cometê-lo; o teatro estrangeiro iniciou esta escola, que tem sido aceita na cena brasileira; já falamos dos dramas que todos os dias se representam com o consentimento da polícia, com a permissão do Conservatório, e com os aplausos do público.

Victor Hugo poetizou a perdição na sua Marion Delorme; A. Dumas Filho enobreceu-a na Dama das Camélias; eu moralizei-a nas Asas de Um Anjo; o amor, que é a poesia de Marion, e a regeneração de Margarida, é o martírio de Carolina; eis a única diferença, não falando do que diz respeito à arte, que existe entre aqueles três tipos.

Mas se a imoralidade não está no pensamento da obra, onde se encontra ela? — No estilo? — No jogo cênico?

Quanto ao estilo desafio a quem quer que seja que me apresente uma palavra que não possa ser pronunciada pelos lábios os mais puros, escutada pelos ouvidos os mais castos; conversa-se ali, como se conversa em qualquer sala, e a linguagem serve de véu à ideia.

Se a inteligência do espectador através dessa gaze transparente do espírito descobre o pensamento, não é isso razão para acusar-se de imoral a frase; porque do mesmo modo no fundo das cousas as mais santas e as mais respeitáveis, no casamento, na maternidade, no amor, nós achamos um fato que a decência manda calar, um mistério do pudor que se compreende e se cala.

Entretanto, ninguém ainda proibiu que se falasse em amor e casamento, pelas ideias que essas palavras revelam; é a inocência que deita a sua venda sobre o espírito da moça pura, e não deixa que a sua mente se lance no mundo da fantasia a perscrutar a significação exata, positiva e real de um fato que ela desconhece.

O que pretendo provar com isto é que há em todas as línguas duas ordens de termos, dois dialetos diferentes; um que é usado pela boa sociedade, e forma a linguagem polida e decente; o outro falado pelas classes sem educação, e que ordinariamente se chama linguagem baixa. Ambas essas maneiras de falar exprimem com termos diversos os mesmos objetos, as mesmas necessidades.

Ora, sendo a minha comédia escrita na linguagem fina da sociedade; sendo o seu estilo inteiramente figurado, não é possível que o taxem de imoral; a menos que não exigissem de mim que escrevesse um livro, que, à força de ser metafísico, parecesse antes um tratado de filosofia do que uma obra ao alcance de todas as inteligências como deve ser a comédia.

Chego ao jogo cênico. É neste ponto que se aguçam as iras dos moralistas; é daí que a polícia tirou naturalmente argumentos para a proibição de minha peça.

Estabelecido, como fica, que o pensamento de apresentar o vício no teatro não é imoral, porque a sociedade me dá o exemplo, e o repertório dramático em voga para isso me autorizava; descarnemos a comédia, afastemos os tecidos e nervos que a cobrem, e vejamos se a autópsia moral, à que vou proceder, nos apresenta esse corpo tão corrompido que excite desgosto e repugnância.

Se não me engano, são a penúltima cena do prólogo, quando Ribeiro seduz Carolina, e a cena final do 4.° ato, quando Antônio, abraçando a menina, reconhece sua filha, que servem de pedra de escândalo e fazem arrepiar a mimosa pudica de certas almas escrupulosas.

Que há de imoral na primeira das duas cenas? A sedução? Uma sedução de palavras, onde não aparece nenhuma carícia de amor, nenhum movimento desonesto? Constantemente não vemos representados iguais lances em que o adultério e a desonra triunfam da virtude vacilante?

Aqueles que me censuram por ter apresentado a linguagem brilhante do sedutor, prometendo o luxo e a riqueza, dourando a vergonha, não compreendem que essas palavras são uma das mais úteis lições do meu livro; porque no 1.º ato a moça seduzida, que seu amante pretende desposar, parodia aquelas frases ardentes. O veneno que ele lançara nessa alma outrora pura começa a distilar, e a primeira gota cai no seu próprio seio. Se eu não descrevesse a sedução como ela se faz, Luís não falaria à sua prima a linguagem da razão, e não faria essa espécie de profecia que o desenlace da ação deve realizar; do mesmo modo Carolina não confessaria no 4.º ato como essas palavras de seu primo, apesar do seu desvario, tinham ficado gravadas na sua memória, e a pungiam.

Parece-me que isto é mais moral do que se eu cobrisse a sedução com as flores do amor, e perfumasse essa cena com as emanações de um coração puro, aspirando as primeiras delícias da vida; então não influiria a angústia e a aflição que eu desejava produzir no espectador, vendo a filha abandonar a casa de seus pais.

Quanto a cena do 4.º ato, é a mais moral da minha comédia; é talvez a única que tenha bastante força para fazer estremecer uma alma gasta e insensível às emoções; é o melhor lance do meu drama, e eu não o cortaria sem estragar a obra.

A moça, que tem chegado à última miséria e à última vergonha, lançando com horror os olhos sobre o passado, delirando com a febre que a consome, é despertada de repente por um ébrio que entra e lhe fala; ela o repele, ele quer abraçá-la; a cena esclarece-se, e a filha e o pai se reconhecem.

Nem uma palavra, nem um gesto duvidoso revelam que se vai passar um fato escandaloso; além de que a circunstância de jogar-se a cena à beira da rampa, a descoberto, em face de todos os espectadores, devia tranquilizar aqueles que não julgassem o autor, o empresário e os artistas homens faltos de senso.

Mas o grande argumento resume-se na seguinte interrogação: — O que se ia passar?...

Eu respondo, como responderam todos os que tiverem compreendido a cena; não se ia passar nada. Ou Luís chegasse ou não, o reconhecimento tinha lugar sem nenhum fato escandaloso; porque a embriaguez de Antônio e a febre de Carolina, a alheação do espírito no primeiro, e o arrependimento da segunda, deixam bem ver que aquele encontro efêmero e casual não podia ter nenhuma consequência.

É o pai no seu horror, e a filha na sua humilhação, que exageram naturalmente o fato, a ponto de um enlouquecer, e a outra cair como morta; mas o espectador não pode sentir como sente o ator de um drama; apenas avalia a situação.

Explicada a minha cena que tem sido tão adulterada, tratarei de mostrar que nos nossos teatros já se viram mais fortes; e para servir-me do mesmo argumento que se emprega contra mim, interrogarei os críticos.

Quando no 2.º ato da Linda de Chamounix o marquês entra em casa da moça, e tem uma conversa de roué; quando na Sonâmbula Amina trazida pelo sonho vem deitar-se no leito preparado para o conde; o que se vai passar?

Mudando porém de tempo, e deixando o futuro pelo presente, perguntarei ainda: quando no 3.º ato do Rigoleto os fidalgos impedem o bobo de entrar no aposento onde sua filha sucumbe à sedução; e no 4.º ato o duque recolhe-se ao quarto que lhe prepararam em uma espécie de tasca; — o que se passa, o que o espírito do espectador vê por traz dessas decorações?

Respondam os moralistas, e comparem a minha cena com todas essas afim de julgarem calma e imparcialmente; afim de apreciarem a justiça com que se proíbe a minha comédia em uma cidade onde todos os horrores da escola romântica e todas as verdades do que chamam escola realista, tem sido exibidas.


(Do Diário do Rio de 22 de junho de 1858.)