As Mulheres de Mantilha/IV

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As Mulheres de Mantilha por Joaquim Manuel de Macedo
Capítulo IV


A cidade do Rio de Janeiro era naquelles tempos muito differente do que é hoje: o aspecto ainda das melhores casas era triste e indicava a educação clausural das familias: abundavão as casas térreas e de um só pavimento, e essas reservavão as portas e batentes das janellas para se trancarem á noite, mas de dia tinhão os vãos das portas e janellas defendidos aos olhos curiosos por peneiros ou tecidos de palha firmados em um quadrado de sarrafos, que se penduravão, ou se podião mover encaixilhados: as casas de dous ou mais pavimentos, quasi todas uniformemente de tres portas erão de sacadas com grades de madeira mais ou menos completas e sombrias: mais ou menos porque essas grades ou erão da altura de meio corpo do homem, ou tinhão a altura do pé direito do pavimento que sombreavão, de modo que simulavão triste prisão: em regra abrião-se pequenos postigos nesse engradamento, postigos maiores e commodos na altura em que devião ser as janellas, para que as senhoras delles se aproveitassem, olhando a rua, e pequenos postigos rentes ou quasi rentes com o assoalho para que as senhoras ou as escravas debruçando-se vissem menos expostas ao publico, o que se passava na rua ou chamassem os pregoeiros vendedores de quanto podia precisar a mesa da familia.

No seculo passado e ainda no principio do actual havia quitandeiros ambulantes de todos os generos da alimentação geral dos habitantes da cidade: os escravos vindos da Africa, negros e negras corrião as ruas da cidade que hoje se chama velha, apregoando além do peixe e das verduras, o feijão, a farinha, o arroz, o guando, o milho verde e secco, e tudo já medido em taboleiros pyramides, de que erão base a porção avultada e necessaria á familia numerosa, e apice o quinhão de cinco ou dez réis que convinha aos pobres.

Tudo se vendia pelas ruas e até os refrescos utilissimos em paiz de tanto calor: ninguem então se lembrava do gelo, ninguem desejava os sorvetes do nosso tempo; não havia confeitarias; mas era certo o popular aloá, a innocente e refrigerante cerveja do arroz, apregoado nas horas mais calmosas dos dias de verão e em todas as estações.

Os humildes postigos inferiores das casas de sobrado servião pois principalmente ás recatadissimas chefes de familia, e ás suas escravas para chamarem os pregoeiros vendedores de todos esses productos agricolas e do industrial, o rude mas utilíssimo aloá, que muito aproveitavão ás famílias.

Em todos esses costum.es estampava-se o atrazo e a rudeza da sociedade colonial do Rio de Janeiro; mas indisputavelmente se a civilisação tivesse poupado alguns delles, limitando-se á destruir os peneiros, e as grades de páo, e outros semelhantes o povo pobre pelo menos teria mais facilidades na vida.

Ponhamos porém de parte estas inuteis memorias do passado, e no passado sigamos apenas os factos que servem ao romance que nos propuzemos á escrever.

Na rua que agora se chama do Hospicio e que no ultimo seculo se chamava do Alecrim desde o ponto em que é cortada pela rua da Valla até o Campo de Sant'Anna levantava-se uma casa de sobrado com sacadas de grades de páo á meia altura, e que na madrugada de 6 de Janeiro de 1766 se mostrava refulgente de luz e ruidosa de alegria e de festança.

Era a casa de D. Maria de..... notabilidade femenina, que por sua formosura, sua independencia audaciosa, sua natureza ardente e indommavel, suas paixões e seus desvarios faceis desde o conde de Bobadella até o vice-reinado do marquez do Lavradio influio algumas vezes mais do que se póde suppôr no governo da grande colonia portugueza da America.

Maria de..... da mais nobre estirpe luso-brasileira, nobre por seus avós, rica pela opulencia de seus pais tinha direito á pretender esposo da mais alta gerarchia na colonia portugueza: o mais orgulhoso dos nobres mandados ao Brasil seria apenas igual á ella: a natureza lhe dera o encanto de irresistivel formosura; a fortuna sublimisara esse dom natural com a condição da riqueza e da fidalguia da familia.

Infelizmente a bella mulher, que ainda se distinguia pelos encantos do espirito mais cultivado do que então era usual no seu sexo, mentira á educação e aos exemplos dos seus maiores, e nodoára um nome illustre: a vaidade, o impeto das paixões, o desprezo do santo dever do recato a tornarão famosa, como as Lenclos e as Marion Delorme, zombando da reprovação publica e da repugnancia com que a olhava a sociedade.

O primeiro amor de Maria de..... foi o segredo da sua perdição: aos quinze annos deixou-se seduzir por um mancebo pouco mais velho, ou pouco menos creança que ella: um anno tinha já de duração o seu amor secreto e criminoso, quando foi descoberto pela familia que afflictissima se precipitou em imprudente vingança: o amante não foi julgado digno de lavar a mancha pelo casamento; e immediatamente passou a ser preso para assentar praça por ordem do conde de Bobadella, á quem o pai da seduzida dirigira queixa particular sob diversos fundamentos que dissimulavão a deshonra da filha.

Maria era ardente, colerica, arrebatada: sabendo que destino se preparava ao amante não verteu lagrimas inuteis nem protestou em vão no lar domestico: encerrou-se em seu quarto, vestio-se com apuro de elegancia que amava muito por vaidosa, e aproveitando hora opportuna, sahio de casa sósinha, arrostando os costumes do tempo e atrevidamente foi fallar ao governador, conde de Bobadella, que a recebeu e ouvio-lhe a historia da sua paixão e da sua fraqueza, e o formal pedido da sua intervenção para que ella se casasse com o mancebo recrutado.

O conde de Bobadeila tinha todos os prejuizos da aristocracia para não acceder ao empenho da joven fidalga seduzida por mancebo de humilde e despresada condição; mas admirado da affouteza e da energia daquella menina delicada, e ainda mais da sua peregrina belleza assegurou-lhe decidida protecção attenuadora do resentimento de seus pais.

Dentro em pouco tempo o protector se tornou amante: Maria repellida pela familia honestissima, teve casa propria, vida reprovada, mas luxo e riqueza que ostentava sem corar. Ou fosse que só um unico amor, o primeiro, tivesse ella verdadeiramente sentido, e que pelo infortunio desse lhe houvesse ficado o coração endoudecido, ou fosse que envenenado sangue lhe abrazasse a natureza com o fogo da luxuria, Maria não soube ser fiel a amante algum, e a todos atraiçoava menos pela torpeza do interesse, do que pelos delirios do capricho, e pelas inconstancias da sensualidade.

O conde de Bobadella apaixonado e captivo resistio alguns annos aos desatinos da formosa moça; mas por fim quebrou as cadêas que á ella o prendião, deixando-a porém rica, e protegida sempre pelo seu favor até o dia em que morreu.

No vice-reinado do conde da Cunha Maria foi a amante de Alexandre Cardoso: tinha tomado gosto ao amor do chefe do governo da colonia: em falta do vice-rei que era de austeros costumes, contentou-se com o official da sala que era quasi vice-rei pelo poder da sua influencia.

Na noite das cantatas dos reis Alexandre Cardoso e seus companheiros, retirando-se do pateo doconvento da Ajuda depois da inutil desordem que havião feito, tinhão-se dirigido á rua do Alecrim e entrado na casa de Maria de.......