As Mulheres de Mantilha/L

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As Mulheres de Mantilha por Joaquim Manuel de Macedo
Capítulo L


Alexandre Cardoso afetava aos olhos de todos serenidade e segurança; mas, dentro de si, receava talvez bem próxima a sua desgraça, porque também a ele espantava a cega confiança, com que o vice-rei o amparava contra a animadversão geral, apesar da gravidade dos últimos acontecimentos.

Além disso, outras contrariedades o afligiam; o jogo absorvera-lhe quanto dinheiro tinha, e quanto pudera tomar de empréstimo à bolsa dos amigos; a morte de Clélio Írias o privara de uma fonte de recursos, e a recusa do vice-rei à nomeação dos oficiais para o novo terço o deixava em dificílima e triste posição; por último, a sua infeliz paixão pela menina Inês, o mau resultado de sua criminosa tentativa, na noite da serração da velha, enchiam-lhe de fel o coração.

Entretanto, o ajudante oficial-de-sala dissimulava as perturbações do seu ânimo; mas, irritado e desejoso de tirar vingança daquele que principalmente fora a causa de haver abortado o seu plano para o rapto de Inês e já perfeitamente informado de quem era Isidoro e do motivo do seu disfarce, determinara persegui-lo a todo transe, e recrutá-lo para soldado.

Não entrava no seu plano a idéia de que Jerônimo Lírio quisesse para seu genro um jovem sem fortuna e sem futuro, como era Isidoro, que somente se recomendava por alguma educação literária e artística, que os frades franciscanos do convento de vila de Santo Antônio de Sá lhe tinham dado, movidos pelo interesse que lhes inspirava a bela inteligência daquele menino.

Alexandre Cardoso compreendeu que não era prudente, depois do que acontecera, fulminar diretamente com os raios da sua vingança o simpático Isidoro; estudara, pois, e calculara uma providência que compreendesse Isidoro pela regra geral, e dirigiu-se ao conde da Cunha com um bando já redigido, em que eram declarados soldados de linha todos quantos até a data do bando eram solteiros e não tinham ofício ativo, ou estabelecimento próprio e conhecido no comércio, indústria e artes, tendo de dezoito a quarenta anos.

O conde da Cunha leu o bando e disse, mostrando-se satisfeito:

— Eu também tinha pensado nisto, que aliás já está em prática, pois é principalmente na massa dos solteiros e vadios que fazemos recrutar.

— No bando que escrevi, para oferecer à sábia consideração do sr. vice-rei, excluo a idéia do recrutamento arbitrário de que muitos se queixam e proponho uma regra que, por ser geral, agradará ao povo.

— Que temos nós com a gritaria do povo?... Guardo o seu bando, e amanhã ou depois lhe darei outro com uma idéia nova que desejo ensaiar.

O ajudante oficial-de-sala curvou-se.

O vice-rei continuou:

— Quero que seja esplêndida a grande parada que pessoalmente comandarei no dia do nome del-rei, meu senhor; há muitos dias que não visitamos as fortalezas, e delas se devem retirar, para concorrerem à parada, quantas praças se puderem dispensar em suas guarnições; saiamos, pois: o senhor vá às fortalezas, eu irei aos quartéis e ao meu arsenal.

Alexandre Cardoso tornou a curvar-se e saiu.

Pouco depois o conde da Cunha foi visitar os quartéis, onde se informou do número de praças prontas, do estado das armas e do fardamento.

No regimento novo, os soldados doentes tratavam-se todos no competente hospital e no da Santa Casa de Misericórdia; no regimento velho, três soldados doentes não estavam, como outros, nos hospitais.

O vice-rei quis saber a razão dessa exceção.

O major do regimento respondeu:

— Tiveram licença para tratar-se fora.

— E quem os cura?...

— Eu o ignoro, sr. vice-rei.

O conde da Cunha cerrou as sobrancelhas e perguntou:

— E onde se tratam?

O major estremeceu.

— Também o ignora?...Quero sabê-lo.

— Um desses soldados doentes é casado e tanto ele como os dois camaradas, de quem é parente ou amigo, são tratados em casa.

— E onde é essa casa?

— Sr. vice-rei, eu não estava preparado para...

— Devia estar! bradou o conde da Cunha; e se não está, prepare-se já para responder-me; dou-lhe dez minutos.

E o vice-rei tirou o relógio e marcou, em alta voz, a hora que era.

O major, trêmulo e assustado, foi para o interior do quartel e, no fim de três minutos, voltou apressado.

— Preparou-se? perguntou o vice-rei com ironia terrível.

O major disse, a gaguejar de medo:

— A casa é no morro do Desterro, um pouco acima do convento de Santa Teresa... à beira do caminho e à mão esquerda de quem sobe...

O vice-rei voltou as costas ao major e disse aos oficiais que à distância respeitosa se achavam reunidos:

— O tenente-coronel Alexandre Cardoso, obrigado a desempenhar os deveres de meu ajudante oficial-de-sala, tinha o direito de ser mais zelosamente servido pelos seus subordinados no comando do regimento velho; hei de dizer-lhe o que observei aqui, e basta-me isso. O tenente-coronel ainda não mentiu à minha confiança.

E o velho conde da Cunha montou a cavalo, dirigiu-se ao arsenal, onde se demorou até à hora do jantar.

De volta ao palácio, e recolhido ao seu gabinete, consultou apontamentos que tomara, interrogando Isidoro, e leu para si: "penso que feri no ombro o salteador que tentava raptar a menina Inês; com certeza feri no rosto e na ilharga outro salteador, de alta estatura e força descomunal, que esteve a ponto de matar-me; não feri nenhum outro".

O conde da Cunha abriu uma gaveta de segredo e dela tirou uma carta; era ainda um novo relatório semanal da vida e proezas de Alexandre Cardoso, que ele leu ainda para si: "o mandatário do atentado foi Alexandre Cardoso, o fim era o rapto da menina Inês, filha de Jerônimo Lírio; os instrumentos foram soldados do regimento velho, alguns dos quais foram feridos, e estão sendo tratados fora do quartel; ainda não sei onde, e menos o sabe o vice-rei, que faz garbo de tudo ignorar".

O conde da Cunha mandou chamar Germiano, que não tardou a apresentar-se. O vice-rei lhe disse:

— No morro do Desterro, um pouco acima do convento, à beira do caminho, à mão esquerda, de quem o sobe, há uma casa, onde estão em tratamento três doentes, soldados do regimento velho; preciso saber que moléstias sofrem eles, e se estão feridos, como me informam, em que regiões ou pontos do corpo receberam feridas. Vai-te: tens dois dias para desempenhar esta comissão.

O mudo sorriu-se, fez sua vênia e deixou o vice-rei.

Germiano, que sabia tudo quanto se passava e se murmurava na cidade, compreendeu perfeitamente o empenho do vice-rei, e, por amor deste, sendo inimigo de Alexandre Cardoso, esmerou-se em executar prontamente as ordens do seu idolatrado amo: jantou e bebeu em vez de uma, como tinha por costume, três garrafas de vinho ao jantar.

O mudo sabia a sua conta: uma garrafa de vinho era apenas o excitante normal da digestão, duas davam-lhe alegria, três o levavam ao estado duvidoso que precede a embriaguez; quatro tiravam-lhe a consciência.

Germiano bebeu, pois, três garrafas de vinho e saiu a passear; tomou a direção do morro do Desterro e começou a subi-lo, passou além do convento e, reconhecendo, pelas indicações, a casa que procurava, parou diante dela, introduziu na garganta dois dedos para provocar um vômito e desde que conseguiu esse indício da embriaguez, que pretendia simular, deixou-se cair contra a porta da casa e, estirado no chão, pôs-se a gemer pungentemente.

A porta da casa abriu-se, e uma mulher e um soldado, que trazia um lenço atado à cabeça, apareceram.

A mulher disse:

— É um bêbedo.

O soldado curvou-se um pouco, examinando o rosto de Germiano, e exclamou:

— E o cão do vice-rei, é o patife do mundo, que hoje bebeu pelo menos um garrafão de vinho!

— Manda esse maroto para a porta do convento, disse outra voz, que partia do interior da casa.

— Era preciso que o borracho tivesse pernas; aqui não há que hesitar: ou atirar com o cão do vice-rei pela escarpa do morro abaixo, levando a cabeça quebrada e sem miolos, ou recolhê-lo e tratá-lo como amigo; este biltre é cão capaz de morder, e ao cão bravo, ou compra-se a fidelidade, ou mata-se de uma vez.

Isto dizia da porta o soldado que, entrando e conferenciando com os camaradas, voltou com a mulher e ambos carregaram para dentro Germiano, a quem estenderam em uma esteira velha.

O mudo dormiu ou fingiu dormir longas horas, até que, despertando e sentando-se na esteira, olhou espantado em torno de si.

— Estás em casa de amigos, Germiano, disse-lhe o soldado que trazia o lenço à cabeça; tomaste solene bebedeira, como às vezes nos acontece, e o senhor vice-rei não ficará mal contigo por isso.

Germiano pôs-se a custo de joelhos e levou um dedo à boca, pedindo segredo do excesso de vinho que o levara à embriaguez.

— Um dia não são dias, e uma mão lava a outra: tu te embebedaste por exceção e nós te socorremos; toma nota disto, e olha bem para nós a fim de que, lembrando as caras, não esqueças a gratidão.

O mudo tornou a deitar-se e adormeceu.

Só no dia seguinte, pelas dez horas da manhã, Germiano entrou, no palácio; mas apenas entrou, foi direito ao gabinete particular do vice-rei.

— Já sabes tudo? perguntou-lhe o conde.

O mudo fez sinal afirmativo.

— Os soldados estão feridos?.

Igual resposta deu Germiano, acenando com a cabeça.

— Quantos são?

O mudo mostrou três dedos.

— São três, muito bem; e o primeiro, onde foi ferido?

O mudo pôs a mão na cabeça.

— O segundo?

O mudo mostrou o ombro direito.

— Ah! no ombro? Isso mesmo.

— E o terceiro?

O mudo apontou o rosto, e depois a ilharga.

— No rosto e na ilharga?... tal e qual! E esse ferido no rosto e na ilharga, é de baixa estatura?

O mudo fez com a cabeça sinal negativo, e depois encostando-se à parede, levou a mão um palmo acima da sua própria altura.

— Então... um homem gigantesco?

O mudo indicou que sim.

— Tudo como me informam! murmurou o vice-rei.