As Mulheres de Mantilha/XXIX

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As Mulheres de Mantilha por Joaquim Manuel de Macedo
Capítulo XXIX


Satisfeito dos obséquios que recebera, o vice-rei voltara contudo da sua visita preocupado e entregue a pesadas reflexões: o homem da sua confiança era objeto de reprovação geral e Jerônimo Lírio, um tipo de austeridade e honradez, o apontara como criminoso e fatal ao vice-reinado, e, muito mais ainda, assinalara com respeito, mas tão claramente, o desmazelo do chefe do governo da colônia que chegara a prometer o casamento de sua filha, se ele, o vice-rei, vigiando melhor o seu ajudante oficial-de-sala, não conhecesse em dois meses a indignidade deste, e a própria e repreensível cegueira.

O conde duvidava: os velhos são teimosos por vaidade, e aferrados a suas afeições por fraqueza; mas a franqueza nobre de Jerônimo, e o compromisso por este tomado, o obrigava também a vencer, a domar os seus sentimentos de simpatia, favor e confiança que tanto aproveitavam a Alexandre Cardoso no dizer de todos. Disposto, decidido a pôr em ação a mais apurada vigilância e esmerilhado estudo dos negócios, subia as escadas do palácio, quando ouviu o dobre dos sinos, anunciando incêndio, e logo ordenou que de novo lhe trouxessem o mesmo cavalo, em que chegara, ou que imediatamente selassem outro.

Cinco minutos eram apenas passados e o vice-rei ia montar a cavalo apesar da idade e da fadiga; mas um soldado de cavalaria chegou a correr, trazendo uma comunicação verbal de Alexandre Cardoso, segunda qual o incêndio era de pouca importância, devorava uma pequena casa isolada no fim da praia de Santa Luzia, e todas as providências estavam tomadas.

O conde da Cunha, abençoando ainda uma vez a atividade do seu ajudante oficial-de-sala que o poupava a tantos incômodos, tornou a subir as escadas, e despedindo os criados e dispensando a ceia, retirou-se para o seu quarto, sendo apenas acompanhado pelo seu criado particular, o velho soldado que servira em Mazagão, o seguira para Angola, e em seu serviço viera também para o Brasil.

Era, já ficou dito, um homem rude, analfabeto, mas fiel e dedicado, e que apesar dos seus sessenta anos valia dez moços em bravura, e um leão em força. Em Angola escapara milagrosamente a uma febre perniciosa com derramamento cerebral; ficara porém mudo em conseqüência de paralisia da língua.

Germiano, que assim se chamava o criado mudo, apenas chegou ao gabinete do amo, entregou-lhe uma carta.

Conhecido como exclusiva e, por assim dizer, religiosamente dedicado ao conde da Cunha, Germiano era de ordinário o portador escolhido para certas cartas anônimas, que por diversos e variados ardis lhe chegavam às mãos sem que se atraiçoasse ou descobrisse quem as escrevia.

O vice-rei abriu e leu a que acabava de receber, e que dizia o seguinte: "Cego e surdo vice-rei; é força que se antecipe o meu relatório da semana que apenas começa, para dar-te duas notícias e uma prevenção; eis as notícias: Alexandre Cardoso ontem à noite jogou doidamente a banca em má companhia na casa da cortesã audaciosa que por ele governa como vice-rei de toucado e leque. — Às nove horas da noite foi entregue a Alexandre Cardoso na casa imoral uma carta de um dos criados do vice-rei de calções, anunciando-lhe que este recebera em suspeitosa audiência o velho negociante Jerônimo Lírio, e o oficial-de-sala deixou precipitadamente o jogo, e saiu para informar-se miudamente do que se passara. — Limitam-se a estas as minhas noticias do passado que foi ontem: agora receba o cego e surdo vice-rei de calções a prevenção de um crime que se projeta. Na noite de hoje ou em alguma das mais próximas será incendiada a pequena casa do carpinteiro Marcos Fulgêncio na praia de Santa Luzia, e aproveitando a desordem e a confusão que sempre se observam nos incêndios, Alexandre Cardoso ou raptará ou violentará a honesta filha do pobre carpinteiro. — Parabéns ao cego e surdo vice-rei de calções por estas flores do seu vice-reinado. — Post Scriptum: a cortesã, vice-rei de toucado e leque, começa a ressentir-se do arrefecimento da paixão de Alexandre Cardoso, e solícita aproveita a luz do seu ocaso para arranjar os últimos afilhados (que prometem pagar bem) em empregos e em postos dos novos terços criados. — Adeus e até breve, cego e surdo vice-rei. — Alma do outro mundo".

O conde da Cunha amarrotou com raiva a carta insolente, apertando-a na mão; impressionado, porém, pela prévia notícia do incêndio, perguntou ao criado:

— A que horas te deram esta carta?

Germiano levantou a mão direita, estendendo os cinco dedos, e logo a esquerda, estendendo somente três.

— Às oito horas?

O mudo fez com a cabeça sinal afirmativo.

— Foi prévia a notícia, murmurou o vice-rei.

E tendo refletido alguns momentos, disse a Germiano:

— Faze com que se tranquem todas as portas, e que todos se recolham a seus quartos para dormir, e volta.

Um quarto de hora depois Germiano de novo se apresentou.

— Tudo está fechado? perguntou o conde.

O mudo respondeu que sim com o movimento da cabeça.

O vice-rei atirou a Germiano uma capa que podia envolvê-lo todo, cobriu-se com outra igual em dimensões, tomou o chapéu modesto e comum, e disse ao criado:

— Segue-me.

Esquecendo que falava a um mudo, acrescentou:

— Nem uma palavra... silêncio.

Germiano sorriu-se melancolicamente.

O conde da Cunha marchou adiante, atravessou pé por pé uma sala, desceu a uma área interior do palácio, e indo direto a uma porta que se achava trancada, tirou do bolso uma chave, abriu uma porta e saiu seguido por Germiano, tomando a direção da praia de Santa Luzia.

Germiano movia com a cabeça, como se consigo falasse, e parecia dizer:

— Já era tempo.