As Mulheres de Mantilha/XXVII

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As Mulheres de Mantilha por Joaquim Manuel de Macedo
Capítulo XXVII


O conde da Cunha chegava a cavalo seguido de uma guarda de soldados de cavalaria, e enquanto as quatro senhoras ficaram imóveis no terreiro e perto da escada do terraço, Jerônimo Lírio avançou alguns passos para segurar no estribo do vice-rei, como de fato assim procedeu.

O ilustre fidalgo e chefe do governo do Brasil-Colônia dignou-se apertar a mão do rico e honrado negociante e foi logo cumprimentar as senhoras, subindo imediatamente a escada e entrando na sala antes de todos, e aí recebeu os primeiros agradecimentos de Jerônimo, que lhe apresentou designadamente sua mulher, suas filhas, e Isidora como sua hóspede.

O conde, tornando-se amável, dispensou palavras agradáveis a cada uma das senhoras, demorando-se alguns momentos mais do que com as outras, quando dirigiu-se à menina Inês, e voltando-se para Jerônimo, disse-lhe:

— Já ouvi gabar a beleza de suas filhas, e contaram-me que o povo da cidade as alcunhou, chamando-as os dois lírios. Desta vez o povo do Rio de Janeiro tem razão.

As meninas, que se atreviam a levantar os olhos, coraram de modéstia e abismaram-se em confusão.

O conde da Cunha, lançando então os olhos em torno de si, viu todas as portas escancaradas, todas as salas patentes, e em frente o gabinete ornado e iluminado, onde o oratório estava aberto e compreendendo a lisonjeira significação do religioso obséquio, dirigiu-se ao gabinete e fez íntima e curta oração ajoelhando-se sobre uma almofada de veludo verde: ajoelhados também rezaram Jerônimo e as senhoras e quando o conde persignava-se para levantar-se, Isidora cantou suavemente um simples hino religioso em ação de graças a Deus pela honra da visita do vice-rei, que, levantando-se, enfim, examinou o oratório e as imagens, e retirou-se, permitindo a Jerônimo que cerrasse as portas do gabinete em respeito às imagens que expostas ficavam ainda.

Depois de conversar algum tempo com a família de Jerônimo, o conde foi ao terraço e encareceu a feliz posição da casa, e a esmerada disposição e o cultivo da chácara, e tornando à sala, recebeu da senhora Inês o pedido de aceitar uma colher de doce.

Um momento depois o vice-rei entrou na sala de jantar e viu diante de si o mais esplêndido e delicado banquete, e fazendo com que as senhoras e Jerônimo se sentassem com ele à mesa, disse sorrindo:

— Eu não tinha conhecimento da existência de um palácio encantado na capital da colônia!

E honrou o banquete de modo a satisfazer os hóspedes que tão galhardamente o recebiam.

Um escravo calçado e trajando libré nova e de luxo servia exclusivamente o conde da Cunha, mudando-lhe os pratos e talheres.

No fim de cerca de meia hora o vice-rei levantou-se da mesa e fez mudamente a oração de graças.

Um outro escravo tão ricamente trajado, como o outro, apresentou-se, finda a oração, ao conde com um jarro e prato de ouro e finíssima toalha.

Enquanto o vice-rei lavava os dedos, Jerônimo tirou do bolso e deu ao primeiro escravo uma folha de papel dobrada em quatro, e quando o vice-rei acabou de enxugar os dedos, Jerônimo tirou do bolso outra folha de papel semelhante e a entregou ao segundo escravo.

O conde da Cunha não compreendeu e teve curiosidade de saber o que significava aquela entrega de folhas de papel.

— Que papéis são esses? perguntou.

— Senhor vice-rei, os escravos que tiveram a honra de servir hoje imediatamente a v. exª, nunca mais servirão como escravos a outra pessoa.

Eram pois dois escravos que ficavam libertos.

O vice-rei saiu comovido da mesa do banquete.

A guarda do vice-rei foi com permissão deste introduzida na sala do jantar deixada pelo nobre senhor, que ao ver entrar os soldados, disse gracejando, o que raramente fazia:

— Invejo aqueles estômagos de tarimba! Mas eu tenho melhor livro do que eles para perpetuar a nota desta visita: eles hão de lembrá-la pelas doze saudades de seu estômago, e eu pela memória grata do coração.

A um sinal de Jerônimo a senhora Inês foi sentar-se ao cravo, e as duas meninas levantaram-se, e ao som da música dançaram com explicável acanhamento, mas com graça natural, merecendo ser abraçadas de leve pelo vice-rei.

Isidora tomou em seguida uma guitarra, e cantou uma balada, e um lundu que era gracioso sem ter a menor inconveniência.

A voz de Isidora era um contralto admirável, e ou fosse o encanto dessa voz, ou talvez a novidade daquele gênero de música para o sempre recolhido e melancólico vice-rei conde da Cunha, certo é que este fez Isidora repetir o seu lundu já cantado, e cantar ainda outros.

Às nove horas da noite marcadas no relógio do conde, disse este:

— Cheguei antes das seis horas, contava estar de volta às sete, e eis-me ainda aqui às nove, em que de costume recolho-me aos maus aposentos!.

Jerônimo curvou-se profundamente.

— O senhor e sua família improvisaram para obsequiar-me uma recepção real, de que jamais me esquecerei. Se alguma destas três meninas, ou se, como desejo, todas se casarem com aprovação de seus pais antes da minha retirada da colônia, quero ser testemunha de seus casamentos, e darei a cada uma delas o seu vestido de noivado: é um favor que peço.

Jerônimo tornou a curvar-se.

O vice-rei estava distribuindo as suas graças.

— Ouvi, continuou ele, a menina Isidora tratar a chefe da família por senhora Inês, esquecendo um título.

— Eu sou humilde plebeu, observou Jerônimo; minha mulher não tem dona.

— Pois terá esse título que vou mandá-lo impetrar, como há de o digno esposo da senhora dona Inês ser cavaleiro da Ordem de Cristo, se ain­da mereço, como suponho, a confiança del-Rei nosso senhor.

Jerônimo respondeu:

— O senhor vice-rei nos confunde com tanta bondade e proteção: nós bendiremos de todas as graças que nos vierem por intervenção tão honrosa; mas a maior honra já a tivemos nesta singular e gloriosa visita.

— Agora, disse o conde, que as senhoras vão descansar do incômodo que lhes dei; antes de retirar-me preciso conversar a sós com o senhor Jerônimo Lírio.

As senhoras levantaram-se e despediram-se do vice-rei, que com elas repartiu obsequiosas amabilidades.

O conde da Cunha ficou na sala com Jerônimo.