As duas bocas

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As duas bocas
por Luís Delfino
Publicada em Rosas Negras.


Ri-te. — Na mocidade há a ilusão radiosa:
Freme-te ao flanco, deusa, essa primeira alvura
Da aurora augusta, que nasce e tão pouco dura:
Frui, criança: mulher, eis o sol, — canta e goza.

Amanhã... vê, já chega a tarde, e inda é formosa:
Rompe a noite estrelada, inda azul, inda pura,
Enquanto desce ao rosto, e o envolve, e à estrepitosa
Torrente de áurea trança, o luar que cai, fulgura.

A vida é esta sombra eterna e impertinente:
Há quem ainda contra o mal da vida grite?
Vem uma abelha à flor, e outra... e a flor contente!...

Farta-te, velha fome: incha, infame apetite...
Se queres tu contudo um beijo, que não mente,
Prende à boca da cova a tua boca... — Ri-te...