As minas do rei Salomão/III

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As minas do rei Salomão por Henry Rider Haggard, traduzido por Eça de Queirós
Capítulo III: O homem chamado Umbopa


Durante o resto da jornada, pensei constantemente na proposta do barão. Mas nem eu nem ele voltamos a falar de Neville ou da travessia para as minas. Na tolda e no beliche as nossas conversas rolavam todas sobre caça, sobre aventuras de caça na África. Os dous, homens de grande sport, não se fartavam de escutar. E eu, velho palrador, cheio de memórias e já anedótico, não me fartava de contar.

Finalmente, numa esplêndida tarde de janeiro (que é aqui o mês mais quente do ano) avistamos a costa de Natal - com a esperança de dobrar a ponta de Durban ao sol posto. Toda esta costa é adorável, com as suas longas dunas avermelhadas, os ricos tapetes de verdura clara, as alegres arrogas dos cafres espalhadas aqui e além, e a orla espumosa e alva do mar que rebenta nas rochas. Mas, justamente perto de Durban, a região toma incomparável riqueza de tons. Nas ravinas, cavadas pelas enxurradas de séculos, faíscam riachos inumeráveis; o verde do mato é mais intenso; os outros verdes de jardins entremeiam-se com as plantações de açúcar; e a espaços uma casa muito branca, sorrindo para a azul placidez do mar, põe uma linda nota, humana e doméstica, na vastidão da paisagem.

Como disse, contávamos dobrar, antes do sol posto, a ponta de Durban. Mas quando deitamos âncora já era crepúsculo cerrado, tarde demais para entrar a barra. Tínhamos ainda essa noite a bordo; e descemos ao salão, para um jantar quieto em águas serenas, depois de ver o salva-vidas remar para terra com as malas do correio.

Quando voltamos à tolda, a lua ia alta, e tão brilhante sobre mar e praia, que quase ofuscava os lampejos largos do farol. De terra vinham, através do ar calmo, aqueles picantes e

doces aromas de especiarias, que, não sei por que, me fazem sempre lembrar hinos de igreja e missionários. O bairro de Bereia parecia em festa, com todas as varandas alumiadas. Num grande brigue, ancorado ao lado, os marinheiros estavam cantando, ao som do banjo. Era uma noite de encanto, como só as há neste abençoado sul da África, que lançava sobre a alma uma infinita paz, infinita e suave como a luz que derramava a lua cheia. Até o bull-dog de um passageiro irlandês, que não cessara de rosnar ferozmente durante toda a jornada, cedera enfim às pacificadoras influências do sul, e dormia, estirado no convés, com um ar de trégua e de perdão aos homens.

O barão, o Capitão John e eu, estávamos sentados junto à roda do leme, olhando e fumando em silêncio.

— Então, Senhor Quartelmar? - exclamou de repente o barão, sorrindo. - Aqui estamos em Durban... Pensou nas nossas propostas?

— Vamos ou não vamos de companhia à busca do Senhor Neville? - ecoou do lado o amigo John.

Não tugi. Mas ergui-me, e fui, devagar, sacudir para fora da amurada a cinza do meu cachimbo. A verdade é que, depois de muito matutar, eu ainda não tomara uma resolução, - ou antes a minha resolução permanecia vaga, informe, mal assente, necessitando um pequeno impulso exterior que a definisse e a fixasse. E foi justamente aquela exclamação risonha dos dous, o movimento de me erguer e de me abeirar da amurada, que tudo fixou e definiu no meu ânimo. Ainda a cinza não caíra na água e já eu estava resolvido a partir.

— Pensei e vou! - declarei, voltando a sentar-me. - E se os cavalheiros me dão licença, direi as razões por que, e as condições com quê.

Expus logo as condições, muito claramente:

O barão, em primeiro lugar, corria com todas as despesas; e qualquer achado de valor, diamantes, ouro ou marfim, feito durante a expedição, seria irmãmente dividido entre mim e o Capitão John. Em segundo lugar, o barão pagar-me-ia em dinheiro de contado, antes de partirmos, quinhentas libras, comprometendo-me eu a acompanhá-lo e fielmente servi-lo até que a jornada terminasse ou por um triunfo, ou por um desastre, ou simplesmente por se reconhecer a sua inutilidade. Em terceiro lugar, o barão obrigar-se-ia, por uma escritura,. a dar anualmente a meu filho, em quanto durassem os seus estudos, uma pensão de duzentas libras, no caso de eu morrer ou ficar inutilizado...

Ainda eu não findara, já o barão aceitara tudo, largamente, alegremente! "O que eu quero, seja por que preço for (dizia ele), é a sua companhia, Senhor Quartelmar, é o socorro da sua experiência!"

— Muito bem. Pois agora, depois de dizer as condições em que vou, quero dizer as razões por que vou. É porque se nós tentarmos atravessar as serras de Suliman, não voltamos de lá vivos! O que sucedeu ao velho Silveira, ao que tinha Dom, há trezentos anos; o que sucedeu ao outro, ao que não tinha Dom, aqui há vinte; o que sucedeu naturalmente ao Senhor Neville, é o que nos vai suceder a nós! Não saímos de lá vivos. Olhei atentamente para os dous homens. O amigo John arrepiou um bocado a face. O barão ficou impassível, murmurando apenas: - "Corremos-lhe o risco!" Eu prossegui:

— Agora dirão os cavalheiros: "Se julgas que não sais de lá vivo, para que vais lá?" Em primeiro lugar, porque sou fatalista. Se Deus já decidiu que eu hei de morrer nas montanhas de

Suliman, nas montanhas de Suliman hei de morrer ainda que lá não vá. E se Deus decidiu já o contrário, posso lá ir impunemente e de cara alegre. Isto é claro. Em segundo lugar, estou velho, e já vivi três vezes mais do que costuma viver na África um caçador de elefantes. De sorte que, continuando nesta carreira, e, desgraçadamente, não tenho outra, que posso eu durar ainda? Uns anos. Ora se morresse agora, com as dívidas que me pesam em cima, o meu pobre rapaz ficava numa situação má, coitado dele! Em quanto que assim, com quinhentas libras soantes, saldo as dívidas; e se estourar, o meu rapaz tem diante de si duzentas libras por ano para acabar o curso e para se estabelecer. Ora aqui têm os cavalheiros a cousa em duas palavras.

O barão ergueu-se, excelente homem! e apertou-me as mãos com efusão. - Essas razões, a última sobretudo, fazem-lhe imensa honra, Senhor Quartelmar. Imensa honra! Em quanto a sairmos vivos ou não da aventura, o tempo dirá. Eu, por mim, estou decidido a ir até ao cabo, seja qual for, triunfo ou morte! Em todo o caso, se temos assim de morrer tão cedo, não me parecia mau que antes disso, pelo caminho, arranjássemos uma batida aos elefantes. Sempre desejei caçar o elefante, e com a perspectiva de deixar assim os ossos nas serras de Suliman, é prudente que me apresse... Não é verdade, John?

— Com certeza!... De resto, todos nós vimos já muitas vezes a morte diante dos olhos. É um detalhe; para que se há de insistir nele? Viemos à África com certo fim. Há perigos?

Acabou-se. Deus é grande.

— Está tudo, portanto, decidido - concluí eu - e parece-me que chegou a ocasião de um grogue.

Fomos ao grogue.

No dia seguinte desembarcamos. Alojei os meus amigos numa "barraca" que possuo na Bereia, e a que chamo, em dias de orgulho, "a minha casa". É construída de tijolo, com um telhado de zinco que abriga três quartos e uma cozinha. Em redor, porém, está plantado um bom jardim, com esplêndidas árvores e flores, que um dos meus caçadores, chamado Jack, traz lindamente tratadas. É um pobre homem a quem um búfalo esmigalhou a perna na terra dos sicucunes. Já não pode seguir a caça; mas, na sua qualidade de Griqua, jardina bem - cousa que um zulu nunca faria decentemente. O zulu tem horror às artes da paz.

O barão e o seu amigo dormiram numa tenda que lhes armei no jardim (dentro de casa não havia espaço), no meio do laranjal. Aqui, em Durban, as laranjeiras têm ao mesmo tempo a flor e o fruto; de sorte que, com o perfume todo em torno, e o' brilho das laranjas cor de ouro, e o murmúrio de águas correntes, o sítio era aprazível e grato. Há pior na Europa. Logo no dia seguinte, sem mais tardança, começamos os preparativos. Antes de tudo fomos ao tabelião lavrar a escritura, em que o barão se obrigava a pensionar o meu rapaz; houve dificuldade, por jazerem em Inglaterra as propriedades do barão: mas arranjou-se uma "tangente", e, segura, graças às artes de um advogado que, pelos seus serviços, apresentou a conta infame de vinte libras! Depois recebi o meu cheque de quinhentas libras. Satisfeita assim a prudência, passamos a comprar o carrão e as juntas de bois. Descobrimos um carrão excelente, com eixo de ferro, sólido e leve, que j á fizera uma excursão a Lourenço Marques - o que garantia a firmeza e resistência das madeiras. Era um carrão dos que chamamos de meia-tenda - isto é, toldado somente até ao meio, e aberto em frente para as bagagens. Sob o toldo tinha almofadões onde podiam dormir bem duas pessoas; além disso suspensões para as espingardas e bolsos de guardar roupa. Custou-nos cento e vinte e cinco libras, e saiu barato. As juntas de bois eram dez, magníficas. Ordinariamente para uma jornada atrelam-se oito juntas; mas para uma aventura destas, vinte bois não vão demais. Todos eram de raça zulu; a mais pequena da África, mas a melhor; e todos eles salgados. Chamamos aqui salgados aos bois já muito jornadeados pelo sul da África, e à prova, portanto, da "água vermelha" - que destrói às vezes todas as juntas de um carrão. Além disso, todos tinham sido vacinados contra a maleita de pulmões, forma horrível de pneumonia, que é nestas terras um flagelo para o gado.

Em seguida organizamos provisões e remédios. Este detalhe demandava ciência e cuidado, porque convinha, numa empresa tão acidentada, que nem faltasse o necessário, nem o carrão partisse abarrotado e carregado em demasia. Para os remédios foi-nos de grande utilidade o Capitão John, que em tempos estudara para médico da Armada, e que (além de possuir, muito a propósito para nós, um estojo de cirurgia e uma farmácia de viagem), conservara conhecimentos genéricos e uma tolerável prática. Durante a nossa estada em Durban cortou ele o dedo polegar a um cafre com uma maestria - que fazia apetite ver! O que o perturbou foi o cafre (que observara a operação em perfeita impassibilidade) pedir-lhe depois para lhe pôr outro dedo novo.

Restava, enfim, a importante questão de criados e armas. Armas tínhamos por onde as escolher - entre as que eu possuía e a coleção esplêndida que o barão trouxera de Inglaterra. Sete espingardas de dous canos para diferentes caças, três carabinas Winchester, três revólveres Colts - assim ficou constituído o nosso armamento. Em quanto a criados, depois de muita consulta e reflexão, decidimos limitar o número a cinco - um guia, um boieiro, e três serviçais. Boieiro e guia achamos nós facilmente em dous zulus, que se chamavam - um Gôza e outro Tom. Mas os serviçais eram de mais difícil e delicada escolha. Da paciência, da fidelidade, da coragem dos serviçais poderiam muitas vezes depender as nossas pobres vidas nesta aventura igual.

Finalmente, arranjei dous: um hotentote chamado Venvogel, e um rapazito zulu, de nome Quiva, que tinha o mérito (considerável para os meus companheiros) de falar inglês com fluência. O hotentote já eu conhecia. Era um dos melhores "farejadores de caça" de toda a África. Ninguém mais rijo nem mais resistente. O seu defeito sério consistia na bebida. Mas como íamos para região onde não há "águas ardentes" nem quase águas correntes, pouco importava esta fragilidade do digno Venvogel.

Tínhamos, pois, dous serviçais. O terceiro parecia impossível descortinar. Tentei, tentei - até que resolvemos partir sem ele, esperando encontrar, antes de metermos para o deserto, algum homem aproveitável entre Iniati e Zucanga. Na véspera, porém, da nossa partida estávamos jantando, quando Quiva, o rapaz zulu, veio anunciar que um homem se viera sentar no meu portal, à minha espera. Mandei entrar. Apareceu um rapagão muito esbelto, robusto, magnífico, aparentando trinta anos, e claro de mais para zulu. Floreou no ar o cajado à maneira de saudação, encruzou-se sobre o soalho, a um canto, e ficou calado com singular dignidade. Não lhe dei atenção. Assim se deve proceder com os zulus. Se o branco lhes fala com prontidão e agrado, o zulu conclui imediatamente que está tratando com pessoa de pouco comando. Observei, no entanto, que este homem era um hesita um homem-de-anel - isto é, que trazia na cabeça aquela espécie de rodilha, feita de goma, e toda lustrosa de sebo, que eles entremeiam na grenha e usam, quando chegam a uma idade de respeito, ou atingem nas suas aringas uma posição superior. Também me pareceu reconhecer aquela cara - realmente bela.

— Bem - disse por fim - como te chamas?

— Umbopa - respondeu o homem numa voz lenta e grave.

— Estou a pensar que já te vi algures.

— Já, Macumazã!

Macumazã é o meu nome cafre - e significa aquele que se levanta pelo meio da noite para vigiar; ou antes, aquele que conserva sempre os olhos bem abertos.

— Macumazã - continuou o zulu - viu-me em Izandluana, na véspera da batalha...

Lembrei-me então completamente. Eu fui um dos guias de Lorde Chelmsford, na desgraçada guerra com os zulus. Por acaso, na véspera da Batalha de Izand-luana, que consumou o desastre das tropas inglesas, fui mandado levar para fora do acampamento uns poucos de carrões de bagagens. Quando se estava atrelando o gado, este homem (que comandava um troço de cafres, dos indígenas auxiliares) veio para mim, dizendo que o acampamento não estava seguro, que era certa uma surpresa, e que o vento trazia cheiro de inimigo. Respondi-lhe que "dobrasse a língua", e deixasse a segurança do acampamento a melhores cabeças que a dele. Pois grande razão tinha o zulu!

Logo nessa noite o acampamento foi terrivelmente assaltado...

Tudo isso, porém, vem na história.

— Que queres tu? - perguntei. - Lembro-me perfeitamente de ti. Dize o que queres.

— Quero isto. Correu aqui voz que Macumazã vai para o norte, numa grande expedição, com os chefes brancos que vieram de além-mar. É verdadeira a voz?

— Verdadeira.

— Correu aqui também voz que Macumazã e os chefes iam para o lado do Rio Lucanga, que fica a um bom quarto de lua de jornada do distrito de Manica. É verdade? Franzi o sobrolho, descontente de ver assim tão conhecido o roteiro da nossa expedição.

— Para que queres tu saber? Que tens com isso?

— Tenho isto, oh brancos! Que se ides assim para tão longe, eu quereria ir convosco.

Havia uma altivez nas maneiras deste homem, e especialmente no seu emprego da expressão "oh brancos" em lugar de "oh inkosis" (chefes), que me surpreendeu grandemente.

— Estás esquecendo a quem falas! - repliquei. - As palavras saem-te demasiadas e imprudentes. Como é o teu nome?

Onde é a tua aringa? É necessário saber quem temos diante de nós!

— O meu nome é Umbopa. Sou da raça dos zulus, mas não sou zulu. O sítio da minha tribo é muito longe, para o norte; os meus ficaram lá quando os zulus desceram para aqui, há muito, há mais de mil anos, antes de Chaca ser rei. Não tenho ,'aringa. Muitos anos vão que ando errante. Quando vim do norte era criança. Depois fui dos homens de Cetevaio no regimento de Nomabacosi. Por fim fugi dos zulus e vim para o Natal para ver as artes dos brancos. Foi então que servi na guerra contra Cetevaio, e que te encorarei, Macumazã! Agora tenho trabalho no Natal. Mas estou farto, quero ir para o norte. O meu lugar não é aqui. Não peço soldada, mas sou valente, e valho bem o pão que comer. Eis as palavras que tinha a dizer.

Este homem e a sua grande maneira de falar - intrigavam-me singularmente. Era certo para mim que só dirá a verdade; mas na cor, nos modos, diferia muito o zulu ordinário; e a sua oferta de vir conosco sem soldada, extraordinária num africano, enchia-me de desconfiança. Na dúvida, traduzi as estranhas falas aos meus amigos, solicitei-lhes conselho. O barão pediu-me que mandasse pôr o homem de pé. Umbopa ergueu-se, deixando escorregar ao mesmo tempo o vasto casacão militar que o envolvia, e ficou diante de nós, mudo, erecto, soberbo, todo nu, com um simples pedaço de pano em torno dos rins e um fio de garras de leão enrolado ao pescoço. Era, realmente, um esplêndido homem! Tinha mais de dous metros de altura, e largo em proporção, ágil admirável de formas. Na luz da sala em que estávamos, a pele parecia apenas muito trigueira, como a de um árabe.

Aqui e além, pelo corpo, conservava cicatrizes terríveis de antigos golpes de azagaia.

O barão foi direito a ele, e cravou-lhe os olhos nos olhos, que se não baixaram, e que rebrilharam:

— Gosto de ti Umbopa - disse em inglês - e tomo-te ao meu serviço. Umbopa evidentemente compreendeu, porque murmurou em zulu:

— Está bem.

— Depois, atirando um olhar para a grande estatura e força do branco, acrescentou:

— Somos dous homens, tu e eu!