As minas do rei Salomão/VII

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As minas do rei Salomão por Henry Rider Haggard, traduzido por Eça de Queirós
Capítulo VII: O rei tuala


Não me dilatarei nos incidentes da nossa jornada até Lu - que nem foram consideráveis nem pitorescos. Durante dous longos dias trilhamos a estrada de Salomão, por entre ricas terras cultivadas, e alegres povoações que nos encantavam pelo seu ar florescente e calmo. A cada instante passavam por nós troços de gente armada, regimentos emplumados marchando também para a cidade, para o grande festival sagrado. No segundo dia, ao pôr do sol, paramos numa colina, que a estrada galgava por entre dous renques de árvores em flor; e embaixo, .numa planície deliciosamente fértil, avistamos enfim Lu, a capital dos cacuanas.

Para cidade da África era enorme, - com seis milhas talvez de circunferência, toda ela defendida por estacadas, e rodeada de pomares e de vastas aringas, onde se aquartelavam tropas. Pelo centro corria um largo e claro rio, vadeado por pontes. Para o norte, a duas milhas, erguia-se uma colina, que oferecia a forma singular de uma ferradura; e, mais longe a umas sessenta milhas, surgiam bruscamente da planície, em triângulo, três serras isoladas, escarpadas, todas cobertas de neve.

— A estrada - explicou Infandós, vendo que contemplávamos com estranheza os três montes - acaba além nessas serras, que se chamam as Três Feiticeiras.

— E por que acaba além, Infandós?

— Quem sabe! - murmurou o velho encolhendo os ombros. - As três montanhas estão todas furadas por cavernas. Há no meio delas uma cova imensa. É lá que se sepultam agora os nossos reis. E era ali que os homens antigos, que sabiam tudo, vinham buscar certas cousas...

— Que cousas, Infandós? - exclamei eu, cravando nele um olhar que o sondava.

O velho sorriu, com uma grossa malícia de negro:

— Os espíritos que vêm das estrelas sabem decerto mais do que um cacuana...

— Com efeito! - acudi eu, num tom ciente e profundo. - E por isso te posso dizer, Infandós, que esses homens antigamente vinham procurar um ferro amarelo que rebrilha, e umas pedras brancas que faíscam.

— Talvez fosse, talvez fosse! - balbuciou Infandós, embaraçado, afastando-se bruscamente para lançar uma ordem aos carregadores da bagagem.

— Acolá - disse eu aos companheiros mostrando as Três Feiticeiras - estão as minas de Salomão!

Todos três, comovidos, ficamos a olhar aqueles montes tãopróximos, onde jaziam ainda talvez (se o velho D. José da Silveira contara a verdade) os mais ricos tesouros da terra... A que prodigioso momento chegara a nossa aventura!

De repente, quando assim pasmávamos, o sol desapareceu - e a noite caiu, sem transição, visivelmente, como uma cousa tangível. Naquelas latitudes não há crepúsculo. A luz acaba como a chama de um bico de gás que se fecha; e, num instante, a terra toda fica envolta numa cortina de treva. Nessa ocasião, porém, durou pouco a escuridão, porque bem cedo a mais larga e esplêndida lua, que me lembro de ter visto, subiu majestosamente ao céu, derramando uma tão sublime refulgência, tão divinamente serena, que, sem saber por que, cada um de nós tirou o chapéu, como num templo, ante uma imagem sagrada.

Infandós, porém, quebrou a nossa contemplação, dando o sinal de descer para a cidade, que, agora, batida de luar, cheia de lumes, parecia infindável através da planície. E daí a uma hora, tendo passado a ponte levadiça, entre piquetes de sentinelas a quem Infandós deu baixo o santo-esenha, seguíamos calados pela rua central de Lu, toda ladeada de sombras de árvores e de senzalas onde se cozinhava. Levou uma hora antes de chegarmos à grade de um pátio redondo, com o chão muito batido e duro, todo caiado de branco. Em volta erguiam-se cubatas espaçosas, cobertas de colmo. Eram ali (segundo declarou Infandós) os nossos "humildes pousos".

Cada um de nós tinha, só para si, uma cubata. Havia dentro um grande asseio. Os leitos eram feitos com peles estendidas sobre enxergões de erva aromática. Uma esteira tapetava o solo. Tripeças pintadas alternavam com frescas vasilhas de água. Não podíamos esperar mais cuidadosa hospedagem! E apenas nos lavamos, sacudimos o pó, apareceu logo um bando de raparigas, das mais belas que até aí encontráramos no país, trazendo leite, carnes assadas e bolos de milho, em vistosos pratos de madeira.

Depois da ceia fizemos reunir todas as quatro camas na maior das cubatas (precaução que encheu de riso as raparigas), - e não tardamos em adormecer com grata tranqüilidade. Acordamos quando o sol ia nado - e a primeira e aprazível impressão que recebemos foi a do bando das raparigas, acocoradas no chão, a um canto, à espera que despertássemos "para nos ajudar a lavar e a vestir".

Quando uma delas, a mais alta (e que figura! que braços!) fez esta amável oferta, o Capitão John teve uma exclamação, um gesto de atroz desespero:

— Vestir! É bom de dizer! Quando uma pessoa não tem senão uma camisa e um par de botas!... E com estas raparigas todas, bonitas raparigas, aí por essa cidade... Não! Isto não pode continuar! Eu não arredo pé daqui da cubata, senão de calças! Quero as calças!

Vi o meu amigo tão decidido, que reclamei as calças. Mas uma das raparigas voltou daí a momentos, declarando que essas sagradas e maravilhosas relíquias, tinham sido já mandadas ao rei!

O furor do nosso John foi imenso. Teve de se contentar em barbear a face direita; porque na esquerda não consentimos nós que ele eliminasse um só pêlo, à farta suíça que já lhe crescera. Aquela cara espantosa, rapada de um lado, barbuda do outro, era uma das evidências da nossa raça sobrenatural. Todos nós, de resto, tínhamos aspectos estranhos. Os cabelos do barão, amarelos e sempre longos, desciam-lhe agora até aos ombros, numa juba rude, que lhe dava o ar de um bárbaro dos tempos do Rei Olof.

O almoço já esperava, fora, no terreiro, em caçoulas que fumegavam. Mas, primeiramente, quisemos tomar o nosso tub, atirar pelas costas alguns frios baldes de água. E o assombro, a desconsolação das raparigas foi considerável, quando lhe pedimos pudicamente que se retirassem, cerrando a porta de vime...

Logo depois do almoço, Infandós apareceu anunciando que El-Rei Tuala nos mandava muito saudar, e esperava a nossa comparência em palácio. Declarei imediatamente, com indiferença e altivez, que ainda nos achávamos cansados, tínhamos ainda um cachimbo a fumar, etc., etc.

Convém sempre, tratando com potentados negros, não mostrar pressa nem respeito. Tomam invariavelmente a polidez por pavor. De sorte que, apesar da nossa ansiedade em ver o terrível Tuala, retardamos nas cubatas uma farta hora, preparando, ao mesmo tempo, os escassos presentes que destinávamos ao rei e à corte: a espingarda do pobre Venvogel, um bocado de seda, alguns fios de contas de vidro. Afinal partimos, guiados por Infandós - e seguidos por Umbopa, que levava as dádivas.

Ao fim de um curto quilômetro, chegamos a um imenso terreiro, com o chão duro e caiado de branco como o das nossas moradas, e cercado por uma estacada baixa. Em redor, fora da estacada, corria uma fileira de cubatas, que (segundo nos informou Infandós) pertenciam às mulheres do rei; e ao fundo, fronteira à porta por onde entráramos, estendia-se uma construção, uma cubata enorme, com varas e plumas espetadas no teto de colmo, que era o palácio real. No recinto não crescia uma árvore; e todo ele estava nesse dia cheio de regimentos em forma, perfilados, imóveis, verdadeiramente magníficos, com os seus altos penachos, os escudos brancos, as lanças a rebrilhar.

Em frente à cubata real ficava um espaço vazio, com uns poucos de escabelos de madeira. A convite do bom Infandós, ocupamos três desses assentos privilegiados, tendo Umbopa por trás, de pé; e assim ficamos à espera, no meio de um silêncio absoluto, sentindo cravados sobre nós oito mil pares de olhos sôfregos. Finalmente, a porta da cubata rangeu - e surgiu dela uma figura gigantesca, com um esplêndido manto de peles de tigre lançado sobre o ombro, e uma azagaia na mão. Atrás dele vinha Escraga e uma outra criatura estranha, equívoca, que nos pareceu uma macaca - uma macaca velhíssima e friorenta, toda embrulhada em peles. A figura gigantesca abateu-se pesadamente sobre uma das tripeças de pau. Escraga permaneceu de pé, por trás, apoiado à lança. A velha macaca arrastou-se para a sombra que lançava a cubata real, e ali se acocorou lentamente.

O mesmo silêncio continuava no entanto opressivo, aflitivo. Então a figura gigantesca arrojou o manto que a envolvia, e ergueu-se, oferecendo às vistas a sua real pessoa, verdadeiramente terrífica! Nunca em minha longa vida encarei um homem mais repulsivo. E ainda às vezes revejo, ante mim, aquela face horrível com os beiços muito grossos, ressudando sensualidade, as ventas enormes e chatas de fera, e o olho único (porque o outro era apenas um buraco negro) atrozmente brilhante, de um brilho frio e cruel. Uma cota de malha reluzente cobria-lhe o corpo formidável. Da cinta pendia-lhe o saião do uniforme, feito de rabos brancos de boi. Ao pescoço trazia uma gargalheira de ouro; e da testa, onde luzia um menor diamante bruto, subia-lhe, ondeando no ar, um tufo esplêndido de plumas de avestruz.

O silêncio ainda pesou, mais profundo, diante daquela presença assustadora! Mas de repente o monstro (que logo compreendemos ser Tuala, o rei) levantou a lança no ar. Oito mil lanças faiscaram ao sol. E de oito mil peitos rompeu, atroando o céu, a grande aclamação real: Krum! Krum! Krum! Depois, no silêncio que recaía, vibrou uma voz, agudíssima, estrídula, horripilante, e que parecia vir da macaca agachada à sombra:

— Treme e adora, oh povo! É o rei!

E oito mil peitos de novo atroaram o céu, bradando:

— É o rei! É o rei! Treme e adora, oh povo!

E tudo de novo emudeceu. Mas quase imediatamente, ao nosso lado, houve um ruído de ferro batendo sobre pedra.

Era um soldado que deixara cair o escudo.

Tuala dardejou logo o olho cruel para o sítio onde o som retinira:

— Avança tu! - berrou, num tom trovejante.

Um soberbo rapagão saiu da fileira, ficou perfilado.

— Cão infernal! - rugiu o rei. - Foste tu que deixaste cair o escudo? Queres que eu, teu chefe, seja escarnecido pelas gentes que vêm das estrelas?

— Foi sem querer, oh mestre das artes negras! - acudiu o rapaz, cuja pele fusca parecia empalidecer.

— Pois, também sem querer, vais morrer!

O soldado baixou a cabeça e murmurou simplesmente:

— Eu sou a rés do rei!

— Escraga! - bramiu Tuala. - Mostra como sabes usar bem a lança. Vara-me aquele cão!

O odioso Escraga deu um passo para diante, com um sorrisinho feroz, e levantou o dardo. O desgraçado tapou a face, e esperou, imóvel. Nós nem respirávamos, petrificados. "Um, dous, três!" Escraga soltou a lança. O soldado atirou os braços ao ar, caiu morto.

Dentre os regimentos saiu então um longo murmúrio que rolou, ondulou, se esvaiu por fim no silêncio.

O barão, lívido de indignação, agarrara a espingarda das mãos de Umbopa. E eu, aflito, tive de o agarrar a ele, lembrar que as nossas vidas estavam à mercê do rei, e que éramos quatro contra todo um reino.

Tuala, no entanto, sorria sinistramente:

— O golpe foi bom. Arrastem para fora o cão morto.

Quatro homens saíram da fileira, levaram o corpo.

E então a mesma voz esganiçada, sibilante, horrível (que evidentemente era da macaca) cortou o ar:

— A palavra do rei foi dita! A vontade do rei foi feita! Treme e adora, oh povo! E cobri bem depressa as manchas de sangue. A palavra foi dita, a vontade foi feita!

Uma rapariga saiu de trás da cubata real com um vaso de louça, e, atirando dele cal às mãos cheias, escondeu as nódoas horríveis. Tuala permanecia imóvel, como um ídolo.

Por fim, lentamente, voltou para nós a face medonha.

— Gente branca! - disse ele. - Gente branca, que vindes não sei de onde, nem sei a quê, sede bem-vinda!

— Bem estejas, rei dos cacuanas! - respondi eu, com dignidade.

Houve um silêncio, através do qual ficamos imóveis, sentados, com os olhos cravados no monstro.

— Gente branca - volveu ele - que vindes vós procurar aqui?

— Vimos do mundo das estrelas, oh rei! Não indagues como, nem paia quê. São cousas muito altas para ti, Tuala.

O rei franziu a face, de um modo inquietador:

— Altas me parecem as vossas palavras, gentes das estrelas!..'. Não esqueçais que as estrelas estão longe e a minha vontade está perto... Pode bem ser que saiais daqui como aquele que agora levaram.

Era necessário ostentar um soberbo desdém da ameaça. Comecei por lançar uma risada, muito cantada (e na verdade muito forçada):

— Oh rei, tem cautela! Não caminhes sobre brasas, que podes escaldar os pés! Toca num só dos nossos cabelos e a tua destruição está certa. Não te disseram estes (e apontei para Infandós e Escraga), que espécie de homens nós somos, e que grandes artes temos? Viste tu alguém como nós, entre os filhos dos homens?

— Nunca vi - murmurou ele.

— Não te contaram esses como nós damos a morte de longe, através de um trovão?

— Não creio! - exclamou Tuala, batendo fortemente o joelho. - Mostrai-me primeiro, vós mesmos, a vossa arte. Matai um desses homens que estão além (apontava uma companhia de soldados magníficos, junto à porta da aringa) e eu prometo acreditar!

Repliquei que não derramávamos nunca sangue de homem, senão em justo castigo. Mas que o rei soltasse um boi para dentro do pátio, através dos soldados, e antes dele correr vinte passos, cairia morto, de chofre. O rei rompeu a rir.

— Um boi! Um boi!... Não, matai um homem para eu acreditar!

— Perfeitamente! - exclamei eu, com tranqüilidade. - Ergue-te tu, oh rei, caminha através do pátio, e antes de chegares ao portal da aringa rolarás morto no chão. Ou, se não queres ir tu mesmo, manda teu filho Escraga.

A isto, Escraga deu um grito, lançou um pulo, e fugiu para dentro da aringa real.

Perante a estranha audácia com que lhe propúnhamos, para mostrar as nossas artes mágicas, matar um príncipe ou um boi, à sua escolha - Tuala ficou esgazeadamente perplexo. O seu olho coruscante ora se pousava em nós, ora no chão.

Depois, num tom surdo:

— Bem, que enxotem uma vaca para dentro do pátio! Dous homens, imediatamente, largaram correndo.

— Barão - disse eu ao nosso amigo - chegou a sua vez. Mate a vaca. Não quero que imaginem que só eu sei fazer as maravilhas.

O barão tomou a carabina Express, e esperou, no fundo silêncio que se alargara. Por fim, à porta da aringa, houve um ruído; e vimos entrar por ela, correndo, enxotada, uma grande vaca ruça. Ao avistar a multidão, o animal estacou, olhou estupidamente, deu uma volta lenta, e mugiu.

— Agora! - gritei ao barão, vendo a vaca de lado e em bom alvo.

Bum! O tiro partiu, a vaca tombou, varada no coração. De toda a enorme soldadesca se exalou um murmúrio de admiração e terror.

— Então menti, Rei Tuala? - exclamei eu, fitando o monstro com altivez.

— Não, é verdade - rosnou ele.

Baixara o olho cruel; parecia atemorizado. Eu continuei, com soberana confiança:

— Escuta, Tuala! Na arte mágica de destruir, ninguém nos vence. Destruímos de longe a vida dos homens, e a vida dos animais... E as próprias armas, os ferros mais duros, reduzimo-los de longe a estilhaços. Escuta! Manda cravar além no chão, com a ponta do ferro voltada para cima, essa lança que tens na mão, a tua própria lança, que nunca foi vencida, oh Tuala! Manda, e eu te mostrarei!

Espantado, o rei cedeu. Um soldado cravou no chão, ao fundo da aringa, a lança real, com a ponta faiscando no ar, sob um raio de sol.

— Bem - disse eu. - Agora, vê em que estilhas vai ficar a tua lança invencível.

Apontei, disparei; a bala bateu na folha da lança e separou-a em bocados. Um sussurro maior, de assombro, rolou através do terreiro.

Dei então um passo para o rei, com a carabina na mão.

— Tuala, este tubo mágico que troveja e destrói, é um presente que te fazemos. Se te mostrares leal conosco, ensinar-teemos o segredo de o usar e de vencer com ele. Mas se descobrirmos traição em ti, esse próprio tubo se voltará contra o teu peito, e serás como a vaca morta ou como a lança partida. Aqui tens.

E estendi-lhe a arma. Ele tomou-a com desconfiança, com uma seca antipatia, e pô-la no chão, aos pés, devagar. Nesse instante, aquela figura estranha que o acompanhara, e que me parecera uma velha macaca, deu um guincho e surgiu da sombra da cubata real, onde permanecera agachada. Muito devagar, muito devagar, vinha caminhando nas quatro patas; mas quando chegou defronte do rei, ergueu-se subitamente, arrojou de si a longa cobertura de peles que a envolvia, e mostrou, aos nossos olhos atônitos, um vulto extraordinariamente sinistro e quase fantástico. Era uma mulher, evidentemente, uma mulher velhíssima, tendo passado todos os limites conhecidos da vida humana. A face que voltou para nós estava reduzida ao tamanho de uma facezinha de criança, de uma criança de um ano, toda em rugas profundas, ressequidas, duras e amarelas, como se fossem entalhadas em marfim. A boca já se não via, de sumida, entre o queixo saído para fora e extremamente agudo - e a testa proeminente, lívida, com duas sobrancelhas ainda espessas e todas brancas. A cabeça, de fato, pareceria a de um cadáver curtido ao sol, se os olhos grandes não refulgissem com intenso fogo e vida. Mas a hediondez principal daquele semblante estava no crânio, todo nu, pelado, liso como uma bola, e a que ela fazia mover e enrugar a pele, como as cobras contraem e movem o capelo.

Não se podia contemplar aquela criatura sem um arrepio de horror. Durante um momento, o estranho monstro permaneceu imóvel - depois estendeu lentamente um braço descarnado, a mão seca de Parca, verdadeira garra armada de unhas longas e recurvas, e começou, numa voz silvante que regelava:

— Rei Tuala, escuta! Povo, escuta! Montes, rios, céus, cousas vivas e cousas mortas, escutai! Escutai, escutai, que o espírito desceu dentro de mim e eu vou profetizar!

As sílabas findaram num uivo longo e triste. Toda a multidão, que enchia a aringa, parecia gelada de terror. E eu mesmo, que vira tantas vezes na África os esgares e as declamações das feiticeiras, senti não sei que peso no coração. A velha era decerto terrífica.

— Som de passos, som de passos que vem! - prosseguiu ela, com a garra trêmula no ar. - São os passos da gente branca que vem de longe! É a terra que treme sob os passos dos brancos. Cheiro a sangue, cheiro a sangue! São rios de sangue que vão correr. Eu já os vejo, já os sinto. Toda a terra está vermelha, todo o céu fica vermelho! Os leões lambem sangue por toda a parte! Os abutres batem as asas de alegria!

Parou um momento. Os olhos rebrilhavam-lhe como lumes. Depois soltou um grito longo, como uma ululação sepulcral.

— Sou velha! Velha! Velha! Tenho visto correr muito sangue. E hei de ver correr muito ainda, e dançar de gozo! Que idade pensais vós que eu tenho? Os vossos pais já me conheceram; e os pais dos vossos pais; e os outros pais que geraram a esses. Tenho visto muitas cousas, aprendi muitas cousas. Já vi o branco, e sei o desejo que ele tem no coração.

Quem fez a grande estrada, que desce dos montes? Quem gravou as figuras nas rochas? Não sabeis. Mas eu sei! Foi um povo branco, que estava aqui antes de vós virdes, que voltará e vos destruirá, e ficará aqui quando vós fordes como a nuvem de pó que passou!

E de repente, deu um passo, com os dous braços, as duas garras recurvas estendidas para nós:

— Que vindes aqui fazer, gente branca? Vindes das estrelas? Das estrelas! Ah, ah! Vindes procurar um como vós? Não está aqui. E o que veio, há muito, há muito, veio só para morrer. São as pedras que brilham que vós procurais? Eu conheço o vil desejo do coração do branco. Procurai, procurai! Talvez as acheis quando o sangue secar. Mas voltareis vós às estrelas ou ficareis aqui comigo?

Depois, com arremesso terrível, voltando-se para Umbopa, que as suas garras estendidas pareciam querer despedaçar:

— E tu, tu que tens a pele escura, quem és, que procuras aqui? Não as pedras que brilham, nem o metal que reluz! Ah, parece-me bem que te conheço! Oh céus! Oh montes! Serás tu?... Eu conheço, eu conheço pelo cheiro o sangue que tens nas veias! Desaperta essa cintura...

Um momento, ficou como esgazeada em face de Umbopa. E subitamente, batendo os braços no ar, caiu no chão, como morta.

Um bando de raparigas surgiu da cubata, levou nos braços a feiticeira. Tuala erguera-se sombriamente. Todo ele tremia. Lançou um gesto; e uns após outros os regimentos começaram a desfilar, até que todo o pátio ficou vazio e rebrilhando ao sol.

Então Tuala voltou-se para nós, com a face pavorosamente franzida:

— Gente branca! Gagula anunciou males estranhos! Está-me a parecer que vos devo matar.

Eu sorri, com superioridade.

— Oh rei, tu viste a vaca. Queres tu ser como a vaca?

— Oh gentes, vós ameaçais o rei! - volveu ele, cerrando os punhos.

— Não ameaço. Digo só que tão fácil é às nossas artes matar uma vaca, como matar um rei. Pensa e treme, Tuala!

O enorme bruto levou os dedos à testa, refletindo. - Ide em paz! - disse por fim. - Esta noite é a Grande Dança. Vireis e vereis. Não tenhais medo que eu vos arme ciladas. E amanhã decidirei.

— Está bem, Tuala - gritei eu, com um grande gesto. E acompanhados por Infandós, recolhemos à nossa aringa. Quando chegamos às cubatas, depus num escabelo o revólver, e voltando-me para Infandós, que entrara conosco:

— O teu rei Tuala é um monstro, Infandós! O velho guerreiro teve um suspiro.

— Ai de mim! Toda a nação geme com as suas crueldades, meu senhor! Vereis esta noite. É a grande caça aos feitiços; vêm Gagula e as suas farejadoras farejar, adivinhar quem são, dentre os guerreiros e o povo, os que meditam ou já cometeram feitiços e malefícios. Se o rei apetece o gado de um vizinho, ou o detesta, ou teme que ele se lhe torne infiel, Gagula ou uma das farejadoras aponta para esse homem, e o homem é logo morto... Quem sabe? Talvez hoje mesmo me chegue a minha vez. Até aqui Tuala tem-me poupado em respeito à minha experiência das armas, e porque os soldados me amam. Mas quem sabe? Tuala é cruel, a terra toda sofre e está cansada dele!

— Mas, pela luz das estrelas, por que não depondes vós ou matais essa fera?

Infandós encolheu os ombros:

— É o rei!... E o filho que lhe sucederia, Escraga, tem ainda o coração mais negro; pesaria sobre nós com mais furor. Se Imotu não tivesse sido morto, e se Ignosi, o filhinho dele, não tivesse acabado também no deserto com a mãe, então havia uma esperança no reino! Mas assim...

De repente (e ainda me parece incrível que eu tivesse assistido a lance tão romanesco, tão semelhante aos que se lêem nos contos de grande enredo) - de repente ergueu-se uma voz da sombra da cubata:

— E quem te diz a ti que Ignosi morreu?

Todos nos voltamos, espantados. Era Umbopa.

— Que queres tu dizer? Que tens tu a falar, rapaz? - gritou Infandós que, como velho chefe de sangue real, detestava familiaridades.

Umbopa deu para nós um passo lento:

— Escuta, Infandós. Não é verdade que o Rei Imotu foi morto, e que a mulher e o filho desapareceram? Não é verdade que correu então voz de ambos se terem perdido e morrido nas montanhas?

Com um gesto, Infandós concordou.

— Escuta! Nem a mãe nem o filho morreram. Galgaram as montanhas, atravessaram as grandes areias guiados por uma turba errante, entraram de novo em terras de relva e água, viajaram durante muitas luas, e foram ter a um povo dos amazulus que é da raça dos cacuanas. Escuta ainda! O filho cresceu, a mãe morreu. O filho cresceu, e serviu nas guerras dos amazulus. Depois foi ao país dos brancos e aprendeu as artes dos brancos; trabalhou com as suas mãos, meditou dentro do seu coração; e sabendo que homens fortes vinham para o norte, tomou serviço com eles, atravessou outra vez as grandes areias, galgou de novo as serras de neve, pisou terra dos cacuanas - e está na tua presença, Infandós!

E subitamente, arrancando a tanga que o cobria, ficou nu diante de nós, com os braços abertos, gritando:

— Sou Ignosi, legítimo rei dos cacuanas!

Infandós precipitara-se sobre ele, com os olhos fora das órbitas, a examinar-lhe o ventre onde corria, numa tatuagem azul, o desenho de uma cobra que lhe dava volta à cinta e juntava a boca com o rabo, logo abaixo do umbigo. Esta tatuagem é a marca, o emblema real, que se grava a tinta azul, logo ao nascer, no legítimo herdeiro do reino. E a evidência lá estava, certamente irrecusável, porque Infandós caiu sobre os joelhos, bradando:

— Krum! Krum! É o filho de Imotu! É o rei! É o rei!

Umbopa acudiu:

— Ergue-te, meu tio Infandós, que ainda não sou rei! Mas com a tua ajuda, e a destes homens fortes com quem vim, posso ser rei! Dize, pois. Queres pôr a tua mão na minha e ser o meu homem? Queres correr comigo os perigos que haja a correr para derrubar Tuala o usurpador, o coração de fera? Dize. O velho Infandós pousou dous dedos na testa e pensou. Depois tornou a ajoelhar diante de Ignosi, pôs a sua larga mão na mão dele, e murmurou, lentamente, como na fórmula de um cerimonial:

— Ignosi, legítimo rei dos cacuanas, ponho a minha mão na tua mão, e até morrer sou teu homem!

Nós, de pé, em redor, ficáramos verdadeiramente atônitos! O barão e o Capitão John só muito vagamente compreendiam o maravilhoso lance. Tive de lhes traduzir, desenrolar os detalhes. E ambos exalavam o seu assombro em exclamações, contemplando Umbopa - quando ele nos interpelou, com um gesto que começava a ser régio:

— E vós, homens brancos de quem comi o pão? Quereis vós ajudar-me também? Nada tenho que vos oferecer em troco do vosso braço forte. Mas essas pedras brancas que reluzem, e que vós amais, se, como rei eu as vier a possuir, podereis levá-las tantas quantas quiserdes... Basta isto?

Traduzi de novo aos meus amigos esta deslumbrante oferta. O barão franziu o sobrolho:

— Quartelmar, diga-lhe que um inglês não se vende por diamantes. Mas de graça, porque sempre o achei leal, porque gosto dele, e porque me apetece derrubar esse monstro de Tuala, estou pronto a ajudar Umbopa com o pouco que posso, que é o meu braço. E tu, John?

O capitão encolheu os ombros:

— Que lhe havemos nós de fazer? Além disso, homem que não briga enferruja. Em todo o caso ponho uma condição: quero as calças.

Comuniquei estas adesões a Umbopa - que apertou ardentemente as mãos dos meus dous amigos.

— E tu, Macumazã, mestre da caça, olho vigilante, mais fino que o búfalo, estarás tu também por mim?

Cocei a cabeça, pensativamente:

— Eu te digo, Umbopa, ou Ignosi, ou o que és; eu não gosto de revoluções... Sou um homem de ordem e demais a mais um cobarde. Escusas de te rir; sei perfeitamente o que digo; sou um cobarde. Por outro lado, tenho por costume ser fiel a quem me foi fiel; e tu, nesta jornada, andaste sempre como um servo dedicado e bravo. Portanto, às ordens! Mas há uma cousa. Eu sou um pobre caçador de elefantes e tenho de ganhar a minha vida. Tu falaste aí nos diamantes. Eu aceito os diamantes. Se lhe pudermos lançar mão, aceito-os, e quantos mais e mais graúdos. melhor! Não é que eu acredite muito neles. Mas, se aparecerem, desde já te prometo que, com licença tua, hei de abarrotar as algibeiras...

— Tantos quantos puderes levar! - exclamou Umbopa radiante. E já se voltava para Infandós, naquele triunfal entusiasmo de pretendente a quem as adesões afluem - quando eu o interrompi vivamente:

— Alto! Temos ainda outra, Ignosi. Nós viemos, como tu sabes perfeitamente, à procura do irmão do Incubu (era a alcunha do barão, em zulu). Quero que me prometas que hás de fazer tudo o que puderes, como rei, para nos ajudar a encontrá-lo...Começa por te informar agora com teu tio Infandós.

Ignosi pousou os olhos em Infandós, com singular majestade:

— Meu tio Infandós, em nome do emblema sagrado que me envolve a cinta, e como teu rei legítimo, intimo-te a que me digas a verdade. Houve já algum homem branco que, antes destes, tivesse vindo à terra dos cacuanas?

— Nunca, meu senhor!

— E poderia algum ter vindo, sem que tu o soubesses?

— Nenhum poderia ter vindo sem que eu o soubesse.

O barão deu um longo suspiro.

— Bem! Bem! - exclamei logo, para lhe não matar de todo a esperança, e cortar os tristes pensamentos. - Quando Ignosi for rei, teremos então mais facilidade de procurar o irmão do Incubu, até aos confins do reino, e nas terras que estão além! Agora vamos ao que urge. Que plano tens tu, Ignosi, para recuperar a coroa? Porque enfim, meu rapaz, é bom ser rei de direito divino, mas...

— Não tenho plano. E tu, meu tio, Infandós?

Infandós pensou um instante, com a barba sobre o peito.

— Esta noite - disse ele por fim - é a caça aos feitiços. Muitos vão morrer, e em muitos outros mais recrescerá o ódio contra Tuala. Depois da dança, falarei a alguns dos grandes chefes que podem dispor de regimentos. É necessário que os chefes te venham ver, Ignosi, se convençam com seus olhos que és rei. E se eles puserem as mãos nas tuas, amanhã tens vinte mil lanças para combater por ti. Porque a guerra é certa. Depois da dança, se eu viver, se todos vivermos, virei aqui, para combinar na escuridão. Mas a guerra é certa! Neste momento houve fora do terreiro um brado, anunciando que se avizinhavam mensageiros do rei. E três homens entraram, cada um deles trazendo erguida nas mãos uma cota de malha, que rebrilhava como prata, e uma magnífica acha de batalha.

Um arauto que os precedia exclamou, batendo no chão com o conto da lança:

— Presente de Tuala, o rei, aos homens que vêm das estrelas!

— Agradecemos ao rei - volvi eu secamente. - Ide!

Apenas os homens partiram, examinamos as cotas com grande interesse. Eram maravilhosas, de uma malha tão fina, tão cerrada, tão elástica e macia, que uma armadura toda podia caber no côncavo das duas mãos. Perguntei a Infandós se eram fabricadas no país.

— Não, meu senhor, são cousas que existem há muito, e que herdamos de pais para filhos. Já muito poucas restam. Só os de sangue real as podem usar. E o rei que as mandou, é que está muito contente ou que está muito assustado. Em todo o caso não há ferro que as atravesse, e bom será, meus senhores, que as useis esta noite na dança.

Quando Infandós saiu, ficamos conversando neste estranho incidente - que transformava a nossa pacífica jornada numa aventura política. Como notou o barão, fora este, decerto, desde a nossa partida do Natal, um dos dias mais ricos de emoções e surpresas.

— Extraordinário - disse o capitão. - Tem de ser registrado no Livro de Bordo.

Chamava ele Livro de Bordo a um almanaque do ano, com folhas .brancas intercaladas, onde costumava assentar os episódios notáveis da nossa espantosa empresa.

— Que dia é hoje? - perguntou ele, sentando-se, com o almanaque sobre o joelho.

— 3 de julho.

O barão e eu voltáramos a examinar as dádivas de Tuala - quando, daí a instantes, o capitão exclamou com os olhos no almanaque:

— É curioso! Amanhã, 4 de julho, há um eclipse total, visível em toda a África! Deve começar às duas e quarenta minutos...

Bom terror vão ter os pretos!

Escassamente demos atenção àquela notícia; e como o capitão findara de escrever, preparamo-nos para partir para a grande dança, porque o sol já descia, e já ia fora um rumor de regimentos passando. Pelo prudente conselho de Infandós envergamos. as cotas de malha, - que achamos confortáveis e leves. A do barão, homem de forte estatura, vestia-o como uma pelica; a do capitão e a minha dançavam-nos sobre as costelas, com pregas pouco marciais.

A lua surgia, magnificamente clara, quando Infandós apareceu, com todas as suas plumagens e armas de gala, acompanhado de vinte guerreiros, para nos escoltar a palácio. Afivelamos os revólveres à cinta, empunhamos as achas de guerra, e largamos - consideravelmente comovidos.

No terreiro, onde estivéramos de manhã, encontramos a mesma formidável parada de regimentos, perfazendo talvez vinte mil homens - mas formados de modo que entre cada companhia ficava um carreiro aberto "para as farejadoras de feiticeiros" (como nos foi explicando Infandós). Não havia outra luz além da lua, cheia e lustrosa, que punha longas fieiras de faíscas nos ferros altos das lanças. Daquela escura massa de homens, do luar, do silêncio, saía uma indefinível impressão de majestade e tristeza.

— Está aqui todo o exército - murmurei eu para Infandós.

— Um terço, não mais, meu senhor. Outro terço ficou nas guarnições. E o outro está fora, em torno a palácio, para o caso de sedição, quando começar a matança...

— Escuta, Infandós! Achas que corremos perigo?

— Não sei; espero que não... Mas não mostreis medo! E se escaparmos com vida esta noite - quem sabe? Talvez amanhã Tuala seja como o raio que feriu e se apagou.

Íamos no entanto caminhando, através dos regimentos mais imóveis que bronzes, para o espaço vazio diante da cubata real, onde havia, como de manhã, uma fila de escabelos de honra. E ao mesmo tempo outro grupo, com um brilho e ruído de armas, saía da aringa real.

— É Tuala - disse baixo Infandós - e Escraga, e Gagula e os homens que matam.

Os "homens que matavam" eram uns doze negros gigantescos, de faces hediondas, com plumagens vermelhas, armados de facalhões e de azagaias pesadas.

— Bem-vindos, gentes das estrelas! - gritou logo Tuala, abatendo-se pesadamente sobre um escabelo. - Sentai, sentai! E não percamos o tempo, que a noite é curta para as grandes cousas que têm de ser feitas. Olhai em roda, e dizei-me se nas estrelas tivestes jamais tantos valentes juntos... Mas vede também como eles já tremem, os que abrigam maldade no seu coração! - Começai! Começai! - ganiu na sua silvante voz Gagula, que se agachara aos pés do rei. - As hienas têm fome de ossos, os abutres têm sede de sangue... Começai! Começai! Houve durante momentos um silêncio lúgubre, que pesava horrivelmente, como um prenúncio de matança e de horror. O rei então agitou a lança. Imediatamente vinte mil pés se ergueram, e três vezes, em cadência, bateram no chão que tremia. Depois, lá ao fundo, dentre as densas e escuras filas de homens, subiu ao ar um canto solitário, arrastado, plangente, infinitamente triste, findando neste estribilho:

— Qual é a sorte, sobre a terra, De quem teve de nascer? E os regimentos todos volviam, numa única, grande e rolante voz:

— Morrer!

Mas pouco a pouco, as companhias, umas após outras, foram entoando uma estrofe da canção, até que toda a vasta multidão armada formava um coro - coro bárbaro, rude, informe, onde todavia, por vezes, distinguíamos como conscientes expressões de sentimentos - notas suaves e lentas de amor, brados triunfais de guerra, cânticos solenes de oração. Depois os cantos vários fundiam-se num lamento único, contínuo, ululado, como de um povo num funeral. De repente tudo estacava. E de novo o lúgubre estribilho gemia no ar:

— Qual é a sorte, sobre a terra, De quem teve de nascer?

E de novo à multidão clamava, num uníssimo desolado:

— Morrer!

O canto por fim findou, um sombrio silêncio caiu, o rei levantou as mãos. Imediatamente, sentimos como o trote ligeiro de pés de gazelas; e, dentre os profundos renques dos soldados, apareceram correndo para nós estranhas e medonhas figuras. Percebi que eram mulheres, quase todas velhas, pelos longos cabelos brancos e soltos que lhes batiam às costas. Traziam as faces pintadas às listas brancas e vermelhas; dos ombros pendiam-lhes esvoaçando, e misturadas às madeixas, longas peles de serpente; em torno à cinta caíam-lhe como berloques de ossos humanos, que chocalhavam sinistramente; e cada uma brandia na mão uma curta forquilha.

Ao chegarem em frente a Gagula pararam, ferindo o chão com as forquilhas. E uma, a mais alta, alargou os braços, gritou:

— Mãe, aqui estamos!

— Bem, bem - ganiu o decrépito monstro. - Tendes hoje os olhos bem claros, Isanusis?

— Bem claros, oh mãe!

— Tendes hoje os ouvidos bem abertos, Isanusis?

— Bem abertos, oh mãe!

— Ide então! Farejai, farejai! Entre esses todos descobri os que querem mal ao seu vizinho, os que possuem o gado indevido, os que tramam contra o rei, os que devem morrer por ordem de "cima"! Farejai! Vede os pensamentos que se não mostram, ouvi as palavras que se não dizem! Ide, meus lindos abutres! Os homens das estrelas têm fome e sede de ver a grande Justiça! Agora! Com uivos horrendos, as sinistras criaturas dispersaram correndo, para todos os lados, através das fileiras armadas. Não as podíamos seguir a todas, na sua obra mortal. De sorte que, por mim, cravei a atenção na que ficou junto de nós, uma velha, esgalgado feixe de ossos, que deitava lume pelos olhos. Quando esta harpia chegou em frente aos soldados, parou farejando. Depois rompeu a dançar, girando sobre si mesma, tão rapidamente, que as longas grenhas soltas pareciam uma estrela feita de estrigas de linho a redemoinhar pelo ar. No entanto ia gritando por entre silvos de alegria: - "Já o farejo, o homem do mal! Ali está ele, o que envenenou a mãe! Acolá treme o que pensou mal do rei!" E, cada vez mais vertiginosamente, vinha girando, girando, até que a espuma lhe saía aos flocos da boca e os ossos lhe rangiam alto! De repente, estacou, hirta, tesa, como petrificada. Depois, devagar, devagar, como uma fera que rasteja, avançou de forquilha estendida para a fileira de soldados, que visivelmente se encolhiam num indominável terror. Parou ainda, outra vez tesa e hirta. Por fim, com um brado estridente, arremeteu, e bateu com a forquilha no peito de um rapaz soberbamente forte.

Dous camaradas imediatamente o agarraram pelos braços, o empurraram para defronte do rei. O desgraçado caminhava sem resistência, inerte, já morto na alma. O bando dos executores avançara a passos graves:

— Mata! - disse o rei.

— Mata! - ganiu Gagula.

— Mata! - rugiu Escraga.

E antes que as palavras se perdessem no ar, o miserável tombara morto, com uma azagaia cravada no peito, o crânio aberto por uma pancada de clava.

— Um - contou Tuala, sorrindo com satisfação.

Mal findara o feito horrível, já outro soldado era arrastado como uma rês, - um chefe decerto, esse, porque lhe pendia dos ombros a capa de pele de leopardo. Dous golpes de facalhão, vibrados com destreza, bastaram para o acabar sem um suspiro.

— Dous ! - contou o rei.

E assim até cem! Até cem! - E nós ali, aterrados, imóveis, impotentes para suster a carnificina, maldizendo surdamente a nossa impotência! Eu findara por fechar os olhos. À meianoite, enfim, houve uma suspensão. As farejadoras, esfalfadas, em grupo defronte do rei, limpavam lentamente o. suor. Respirei, num infinito alivio, supondo que findara todo este incomparável horror. Mas de repente, com desagradável surpresa, descobrimos Gagula, erguida, apoiada num cajado, dando alguns passos que tremiam e lhe sacudiam o crânio calvo de abutre. Cousa pavorosa, ver o velhíssimo monstro, ordinariamente vergado em dous pela decrepitude, ganhando alento, remoçando quase, já direito, já vibrante, à medida que se acercava da fileira dos homens, a recomeçar por gosto próprio a obra sinistra das "farejadoras"! Mas nela o estilo era diferente. Não dançava, não uivava. Dando umas corridinhas curtas, aqui e além, cantava baixinho e tristemente, como para se embalar. Assim trotou, assim cantarolou, até que, de repente, se precipitou sobre um magnífico velho, perfilado em frente a um regimento - e tocou-o silenciosamente com o cajado. Um murmúrio de dor, de contida indignação, correu entre os soldados que ele evidentemente comandava. Todavia dous deles, empolgando-lhe os pulsos, arrastaram-no como um boi para o açougue. Soubemos depois que era um chefe de grande riqueza e de grande influência, primo do rei. Foi trucidado com azagaia, facalhão e clava - e Tuala contou cento e um!

Quase imediatamente Gagula, depois de alguns sapinhos curtos de macaca, começou a avançar para nós, num movimento muito lento de valsa, que era medonho na repulsiva bruxa.

— Justos céus! - murmurou o Capitão John - querem ver que, agora, é conosco!

— Tolice! - acudiu o barão, pálido todavia.

Eu por mim senti um suor frio na espinha. E Gagula, cada vez mais perto, - com os olhos a saltar-lhe do crânio, um fio de baba na boca.

Por fim estacou, como um perdigueiro que avista a caça.

— Qual será? - murmurou o barão.

Como se lhe respondesse, a velha deu um pulo, e tocou Umbopa (ou Ignosi) sobre o ombro:

— Morte! - gritava ela. - Morte! Cheiro-lhe o sangue! Está cheio de malefício e de traição. Mata-o depressa, oh rei, mata-o depressa antes que por ele gema em desgraça o reino!... Houve um silêncio, um pasmo. E nem sei como (porque sou realmente um cobarde), achei-me diante de Tuala, falando com soberana firmeza:

— Este homem, oh rei, é o servo dos teus hóspedes, e quem deseja o seu sangue é como se desejasse o nosso! Pela lei de hospitalidade, que cumpre aos reis manter, exijo a tua proteção para ele!

Tuala franziu o sobrolho:

— Gagula, mãe das Isanusis, sabedora das artes, cheiro-lhe a traição dentro das veias. O homem tem de morrer, oh brancos!

— Quem lhe tocar - exclamei, batendo furiosamente com o pé no chão - é que tem de morrer!

— Agarrem-no! - bradou Tuala aos carrascos que esperavam em roda, já todos manchados de sangue.

Dous brutos romperam para nós - mas hesitaram. Ignosi erguera a azagaia, decidido a morrer combatendo.

— Pra trás, cães! - berrei eu, num tom tremendo. - Tocai num só cabelo do homem, e vós mesmos, e a vossa feiticeira, e o vosso rei, ruão vereis mais a luz do dia!

E bruscamente apontei o revólver a Tuala. O barão tinha já o seu erguido contra um dos carrascos; e John marchara sobre Gagula.

Houve um instante de indizível assombro.

— Decide depressa, Tuala! - gritei, tocando-lhe quase a testa com o cano do revólver.

O monstro, visivelmente do:

— Tirai para lá os vossos canos mágicos! Invocastes as leis da hospitalidade, e só por amor delas, não por medo de vós, poupo a vida a esse cão... Ide em paz.

— Está bem, Tuala! E lembra-te sempre que contra os homens das estrelas, nada podem os homens da terra!

O rei, ainda trêmulo de furor impotente, ergueu a lança. Os regimentos começaram logo a desfilar.

Daí a pouco estávamos na nossa aringa - conversando á luz de uma das curiosas lâmpadas que usam os cacuanas, em que o pavio é feito de fibra de palmeira, e o azeite de toucinho de hipopótamo. E o que afirmávamos todos com convicção, com ardor, era a necessidade e a justiça urgente de ajudar a conspiração de Umbopa contra um vilão como Tuala!