Astúcias de namorada/Prólogo

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Astúcias de namorada por Pinheiro Chagas
Prólogo


Este livro é um livro de verão. Fez-se para ser lido à sombra de uma árvore copada, à hora do meio dia, quando pode prestar-se apenas à leitura uma vaga atenção, e quando portanto se querem livros de enredo ligeiro e risonho, que nem resolvam problemas, nem arrepiem os nervos.

As Astúcias de Namoradaestão escritas há largo tempo. As aventuras do seu manuscrito davam assunto a outro romance. Tem de curioso o ser o seu entrecho baseado sobre um fato sucedido realmente em Lisboa. Há de haver leitores que o taxem de inverossímil, pois saibam que é verdadeiro. Mais uma vez tem razão Boileau.

Le vrai peut quelquefois n'etre pas vraiseblable.

O romance que fecha o volume, e que se intitula Um melodrama em Santo Tirso,ponho-o aqui a título de curiosidade arqueológica. Foi a minha estréia no jornalismo. Fundara-se a Gazeta de Portugal.Eu tinha conhecimento pessoal do seu proprietário, Teixeira de Vasconcelos. Procurei-o para lhe ler o romance. Ele ia sair.

— Deixe-me ver alguma coisa que lhe pareça melhor, disse-me ele.

Li-lhe tremendo a cena em que Eduardo descreve as fisionomias dos literatos lisbonenses. Teixeira de Vasconcelos riu-se, e tirou-me das mãos o manuscrito.

Il y a quelque chose lá, continuou ele, isto para estréia basta. O seu romance há de ser publicado.

E foi. Estava eu batizado folhetinista.

Hoje, relendo o romance, sorrio-me das ingenuidades do principiante, e, para conseguir desculpa do leitor, vejo que não tenho remédio senão dizer-lhe retrospectivamente com Alfredo de Musset.

Surtout considérez, illustres seigneuries

Comme l'auteur est jeune, et c'est son premier pas.

Pinheiro Chagas