Bêbado

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Bêbado
por Cruz e Sousa
Texto publicado em Missal

Torvo, trêmulo e triste na noite, esse bêbado que eu via constantemente à porta dos cafés e dos teatros, parara em frente do cais deserto, na alta, profunda hora solitária.

Espadaúdo, de grande estatura, ombros fortes como um cossaco, costumava sempre bater a cidade em marchas vertiginosas, na andadura bamba dos ébrios, indo pernoitar depois ali, perto das vagas, amigas eternas de sua nevrose..

Um luar baço, enevoado, de quando em quando brilhava, abria, rasgando as nuvens, num clarão que iluminava amplas fachas do céu de um tom esverdeado, como folhagens tenras e frescas laçadas pela chuva.

O Mar tinha uma estranha solenidade, imóvel nas suas águas, com uma larga refulgência metálica sobre o dorso.

Da paz branca e luminosa da lua caía, na vastidão infinita das ondas, um silêncio impenetrável.

E tudo, em torno, naquela imensidade de céu e mar, era a mudez, a solidão da lua...

Junto ao cais, olhando as vagas repousadas, a taciturna figura do bêbado destacava em silhouette sombria.

E ele gesticulava e falava, movia os braços, proferia palavras ásperas e confusas, como os tartamudos.

Eu via-lhe as mãos, todo o corpo invadido por um convulsivo temos, que não era, de certo, a desoladora e enregelada doença da senilidade.

O seu aspecto, ao mesmo tempo piedoso e feroz, traduzia a expressão terrível que deixa o bronze inflamado da Dor calcinando naturezas nervosas e violentas.

Trôpego, espectral, fazia pensar, pela corpulência, na massa formidanda de um desses ursos melancólicos, caminhando aos boléus, como que numa bruma de pesadelo...

Os seus grandes olhos d’árabe, muito perturbados pelo álcool, tinham o brilho amargo de um rio de águas turvas e tristes.

Era talvez um desses seres nebulosos, gerados do sangue aventureiro e venenoso de uma bailarina e de um judeu, sem episódios pitorescos, frescos e picantes de alegria e saúde.

Um desses seres tenebrosos, quase sinistros, a quem faltou um pouco de graça, um pouco de ironia e riso para florir e iluminar a vida.

Alma sem humor — essa força fina e fria, radiante, que deu a Henri Heine tanta majestade.

No entanto, quanto mais eu observava esse fascinado alcoólico, pasmando instintivamente, na confusão neblinosa da embriagues, para as ondas adormecidas na noite, mais meditava e sentia as profundas visões de sonâmbulo que lhe vagavam no cérebro as saudades e nostalgias.

Porque o álcool, pondo uma névoa no entendimento, apaga, desfaz a ação presente das idéias e fá-las recuar ao passado, levantando e fazendo viver, trazendo à flor do espírito, indecisamente, embora, as perspectivas, as impressões e sensações do passado.

Nos límpidos espaços nem um movimento, um frêmito leve de aragem perturbava a harmoniosa tranqüilidade da noite clara, por entre os finos rendilhados prateados das estrelas.

Mais amplo, mais vasto e sereno ainda, o silêncio descia, pesava na natureza, sobre os telhados, que pareciam, agrupados, aglomerados nos infindáveis renque das casas, enormes dorsos escuros de montanhas, de elefantes., de dromedários.

Sobrepujando, avassalando tudo, com expressões misteriosas de Idade Média, as elevadas torres das igrejas, como vigias colossais de granito, erectas para o firmamento na luminosa sonoridade do luar, tinham a nitidez dos desenhos.

E a luz do astro noturno e branco, da Verônica do Azul, congelada de mágoas, envolvia a face atormentada do bêbado como num longo sudário de piedades eternas...