Basta ja meu bello Infante

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Baſta ja meu bello Infante
Vilancete publicado em Villancicos que se cantaram na Capella Real do muy alto, & muy poderoso Rey D. Pedro II. Nosso Senhor, nas Matinas, & Festa de Natal, em 1683 (como Villancico V) e Villancicos que se cantarão na See do Illustrissimo Senhor Antonio de Vasconcellos e Souza. Bispo Conde nas Matinas, & festa do Natal de 1707. (como Villancico VIII).


Baſta ja meu bello Infante
Ta, ta, naõ choreis meus olhos,
Dormi, rum, rum, minha vida[1]
Olhae, que aqui vem o coco.

Que hade dizer quem vos vir
Chorar, meu bem, deſſe modo?
Dirá que choro he de mimo
Oxalà tal fora o choro.

Vede que podem dizervos
(Poes a tudo eſtaes expoſto)
Que vos ha peſado na Alma,
De hoje aver ſaido em corpo.

Se choraes porque naceſtes,
Iſſo, meo bem, ſabem todos;
Mas como pòde dar pena
O que ſe tomou por goſto?

Se choraes porque o governo
Deſte mundo he muy penoſo,
Tendes muy boas ilhargas,
Y muyto melhores hombros.

Ora ſus, baſta, calayvos
Naõ haja mais, meu briozo,
Que ſe o Ceo dá ás vezes agua,
Commummente o Sol dá fogo.

Silencio, ſio, ponto em boca
Quedo, que pegou no ſono;
A Deos luſes, que em dous mares
Aquelles does Soes ſe haõ poſto.

Cantemos brando, & ſuave
Porque o não acorde o eſtrondo
Inda que aquem vé dormindo,
Ouvir dormindo he forçozo.

Eſtribillo.

Dormi, meus cuidados
Deſcançay, meus olhos,
Ro, ro, ro,
Que ſe amores da Alma
Vos tiraõ o ſono,
Nos meſmos amores
Tereis o repouzo.

Mas ay que me queymo,
Socorro, ſocorro;
Deſpertay, & acudi com os diluvios
Que eſſes olhos vertião ha pouco;
Mas ay que me afogo,
Socorro, ſocorro;
Deſpertae, & acudi com os incendios,
Cõ que ha pouco abraſavão eſſes olhos.
Que me afogo,
Que me queymo
Socorro, ſocorro;
Que me afogo dos olhos nas agoas,
E me queymo dos olhos no fogo.[2]

Coplas.

Meu Minino deſcanſae,
Dormi, meo Cupido de ouro,
Poes todo o voſſo deſcanço,
Não tira o cuidado voſſo.

Mas naõ durmais Paſtor bello,
Que importa eſtar cuidadozo;
Vede que as voſſas ovelhas,
As podem comer os lobos.

Dormi meu Sol deſſa Aurora
No Sagrado, & Puro Colo,
Leyto que ſem ſobreceo,
Eſtimaes ſobre os Ceos todos.

Acordai, porque dormindo
De amores me tendes morto,
Que amor aos olhos fechados,
Melhor he que acerta os pontos.

Mas dormi, porque acordado,
Ou ja no incendio, ou no choro
Deſſes dous rayos me abrazo,
Deſſes dous rios me afogo.

Acordai, dormi, que digo?
Encontradas couſas rogo?
Naõ, que dormir, & acordar
He ſempre o meſmo em vôs proprio.

Notas[editar]

  1. Na versão de 1707: "Rò rò, dormi minha vida,"
  2. Na versão de 1707: "E me abrazo dos olhos no fogo."