Beatitude amarga

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Beatitude amarga
por António Feijó


A Silva Ramos, da Academia Brasileira

Esqueço-me a admirar os teus olhos profundos
E imagino que estou sentado á beira mar:
Vejo as ondas a erguer-se, archipelagos, mundos,
Naufragios, temporais, mar de leite e de luar...

Medroso, o coração tenta fugir, mas treme:
O abysmo attrae o abysmo! E desvairadamente,
Despenha-se no mar, como um barco sem leme,
D'onda em onda, á mercê do vento e da corrente.

Vejo-o ainda um momento a esconder-se na bruma,
E sinto uma impressão d'angustia e de pesar,
— Seguindo anciosamente o seu rasto d'espuma--
Por suppor que partiu para não mais voltar!

Mas tu falas, e, ao som da tua voz, desperto;
Volto a mim d'esse estranho sonho, a alma perdida,
Com o vago terror e o pensamento incerto
Do naufrago que á praia ainda chegou com vida.