Bebida para Viúvo

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Bebida para Viúvo
por Humberto de Campos
Conto publicado em Grãos de Mostarda


Se foi esse o desgosto que matou Dona Benvinda, ninguém sabe: o que é fato, é que o sr. Atanásio tinha uma predileção especial pelas bebidas, a ponto de passar semanas inteiras emendando as carraspanas.

O que, entretanto, ninguém pode contestar, é que ele adorava a mulher. É verdade que não a obedecia, quando ela lhe suplicava, agarrando-lhe as mãos:

— Não bebas mais, Atanásio! Tem piedade de mim! Isto me matará de vergonha!

As pessoas que ouviam isto asseguravam que Dona Benvinda morreu, mesmo, de vergonha; outras acham, porém, que foi de umas pauladas que o marido lhe aplicou, ao regressar, alta madrugada, mais bêbado do que nunca.

O sentimento de viúvo foi, entretanto, profundíssimo. Um fato o demonstra. Certa noite, entrou ele, com um antigo companheiro, em uma das cervejarias da Brahma, e sentou-se:

— Que tomas? — perguntou o outro.

— Nada.

— Nada? Tu não tomas nada?

— Não posso, filho! — obtemperou o Atanásio. — Eu não posso beber; tu não vês que eu estou de luto?

— Mas, isso é o de menos! — tornou o outro. Há bebidas, aqui, para pessoas de luto.

E batendo na mesa, com força:

— Cerveja preta, para um!...