Contos Populares Portuguezes/A Bella-menina

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Contos Populares Portuguezes por Adolfo Coelho
A Bella-menina
XXIX


A BELLA-MENINA

Era um homem; vivia n’uma cidade e trazia navegações no mar, e depois foi elle e deu em decadencia por se lhe perderem as navegações. Elle teve o seu pesar e não podia viver com aquella decencia com que vivia no povoado e tinha umas terrinhas na aldeia e disse-lhes para a mulher e para as filhas: «Não temos remedio senão irmos para as nossas terrinhas; se vivemos com menos decencia que até aqui somos pregoados dos nossos inimigos.»

A mulher e uma filha acceitaram, mas as outras duas filhas começaram a chorar muito. E depois foram. A que tinha ido de sua vontade era a mais nova e chamava-se Bella-menina; cantava muito e era a que cozinhava e ia buscar herva para o gado, de pés descalços; as outras mettiam-se no quarto e não faziam senão chorar. Quando o pae ia para alguma parte, as mais velhas sempre lhe pediam que lhe trouxesse alguma cousa e a mais nova não lhe pedia nada. Vai n’isto veiu-lhe uma carta d’um amigo dizendo que as navegações que vinham ahi, que tiveram noticia e que fosse vel-as.

O homem caminhou mais um creado saber das taes navegações; quando saiu, disseram as suas filhas mais velhas que se as navegações fossem as d’elle lhes levasse algumas cousas que lhe declararam. E elle disse á mais nova. «Ora todas me pedem que lhe traga alguma cousa, só tu não me pedes nada?» «Vou pedir-lhe tambem uma cousa; onde o meu pae vir o mais bello jardim, traga me a mais bella flôr que lá houver.» O pae foi e chegou a uma cidade e reconheceu que as navegações não eram d’elle e foi-se embora com a bolsa vasia. Chegou a um monte e anouteceu-lhe; elle viu uma luz e dirigiu-se para ella a ver se encontrava quem o acolhesse. Chegou lá e viu uma casa grande e estropeou á porta; não lhe fallaram; tornou a estropear; não lhe fallaram. E disse ao moço: «Vae ahi por o portal de baixo ver se vês alguem.» O moço foi e voltou: «Vejo lá muitas luzes dentro e cavallos a comer e penso para lhe botar; mas não vejo ninguem.»

Então o homem mandou metter o cavallo na cavalhariça e entraram para a cozinha. Acharam lá que comer e como a fome não era pequena, foram comendo muito. E n’isto ahi vem por essa casa adeante uma cousa fazendo um grande arruido, assim como umas cadeias que vinham a rastos pela casa adeante e depois chegou ao pé d’elles um bicho de rastos e disse-lhes: «Boas noites.» E elles puzeram-se a pé com medo, e disseram-lhe: «Nós viemos aqui por não acharmos abrigo nem que comer n’outra parte; mas não vimos fazer mal a ninguem.» «Deixai-vos estar e comei.» Demorou-se um pouco o bicho e disse-lhes: «Ora ide-vos deitar que eu tambem cá vou para o meu curral.» E começou-se a arrastar pela cozinha e foi. Ao outro dia o homem foi ao jardim que era o mais bello que tinha visto e disse: «Já que não posso levar nada para as minhas filhas mais velhas, quero ao menos levar a flor para a Bella-menina…» Estava a cortar a flor e n’isto o bicho salta-lhe: «Ah ladrão! Depois de t’eu acolher em minha casa, tu vens-me colher o meu sustento, que eu não me sustento senão em rosas.» E elle disse: «Eu fiz mal, fiz; mas eu tenho lá uma filha que me pediu que lhe levasse a mais bella flor que eu visse na viagem, e não podendo levar nada ás outras filhas, queria ao menos levar a flor; mas se a quereis ella ahi fica.» «Não, levae-a e se me trouxerdes cá essa filha, ficaes ricos.» O homem caminhou e chegou a casa muito apaixonado por não trazer nada ás outras filhas e não achar as navegações e pegou na flor e deu-a á Bella-menina.

A filha assim que viu a flor disse: «Oh que bella flor! aonde a achou meu pae?» O pae contou-lhe o que vira e a filha disse: «Oh meu pae eu quero ir ver.» «Olha que o bicho falla e disse tambem que te queria ver.» «Pois vamos.» E foram. A filha assim que viu o tal bicho disse: «Oh pae eu quero cá ficar com este bicho, que elle é muito bonito.» O pae teve a sua penna, mas deixou-a. Passado algum tempo, ella disse: «Oh meu bichinho! tu não me deixas ir ver os meus paes?» E elle disse-lhe. «Não; tu não vaes lá por ora; teu pae vem cá.» O pae veiu e disse ao bicho: «Eu queria levar a rapariga.» «Não me leves d’aqui a rapariga, senão eu morro e tu vae ali áquella porta e abre-a e leva d’alli a riqueza que tu quizeres e casa as tuas filhas.» O homem que mais quis?

Um dia o bicho disse á Bella-menina: «A tua irmã mais velha lá vem de se receber; tu queres vel-a?» «Quero.» «Vae ali e abre aquella porta.» Ella foi e viu vir a irmã com o noivo e os paes. «Agora deixa-me ir ver o meu cunhado.» «Eu deixava, deixava; mas tu não tornas.» «Torno; dá-me só tres dias que eu em dia e meio chego lá e torno cá n’outro dia e meio.» «Se não vieres n’estes tres dias, quando voltares achas-me morto.» Ella foi; no fim dos tres dias ella veiu, mas tardou mais um pouquito que os tres dias; ella foi ao jardim e viu-o deitado como morto. Chegou ao pé d’elle: «Ai meu bichinho!» e começou a chorar. Elle caiu e ella disse: «Coitadinho está morto; vou dar-lhe um beijinho.» e deu-lhe um beijo, mas o bicho fez-se n’um bello rapaz. Era um principe encantado que ali estava e que casou com ela.

(Ourilhe.)